Passou... com o tempo passou.
Quebrei umas coisinhas? Sim.
Se eu chorei? Mas é claro.
Mas eu precisava seguir em frente.
— Julie?
— Passou, passou... — digo, limpando as lágrimas rapidamente.
— Eu também sinto falta dele... ele era um pai pra mim... — ela deixa uma lágrima cair e me abraça. É bom ter alguém pra abraçar... uma nova irmã. Ou duas.
— Ai eu também quero! — diz outra, tentando sorrir antes de chorar.
— Ah, vem cá! — puxo as duas. No fim, todas nós tínhamos algo em comum: uma perda.
E assim o tempo passou.
[três meses depois...]
O sininho toca.
— O que você quer?
— Talvez seu número... talvez um milkshake...
— Talvez eu seja lésbica. E talvez só tenha de morango...?
Steve começa a rir que nem um bode com câncer.
— Tá rindo do quê?
— Eu não acredito que eu já caí nisso! — ele continua rindo.
— Nem eu... vai, sua vez!
O sininho toca de novo.
— Ah, qual é? Eu...
— Elas são... bonitinhas?
— Bonitinhas?! — ele me empurra. — Oi? É... vocês querem o pedido ou a alma gêmea de vocês?
— E essa alma gêmea seria... você?
— Tem outro cara aqui?
— Prefiro o pedido! — ela ri. Eu também começo a rir.
Ele entrega o pedido e senta ao meu lado.
— Já acabou?
— 5x0 pra mim! — anoto no quadro.
— Ei, você não saiu com ninguém!
— Porque eu não quis!
— Isso, joga na cara mesmo!
— Dramático!
— Oi! — Dustin surge. — "Quanto mais eu rezo, mais assombração aparece!"
— Ei! Eu não ia falar isso!
— Aham. Acredito.
— Tá puxando esse sarcasmo de quem?
Todos olham pra mim.
— Não sou sarcástica. Só sou realista!
— Até demais!
— Cala a boca!
— Ela tá nervosinha hoje...
— E você não? — ele abaixa a cabeça. — Desculpa...
— Não, tá certo. É melhor irmos logo...
[...]
Ajudamos com as mudanças e começamos a carregar as caixas para o caminhão.
— Joyce?
— Oi... — ela tenta esconder um papel.
— O que é isso?
— É uma carta que o Hopper deixou pra vocês... pra você e pra On.
— Eu posso ler?
— Claro...
Sento no chão do quarto e começo a ler.
"Tem uma coisa que eu estava esperando para contar a vocês e eu sei que isso é difícil de dizer. Mas eu me importo muito com vocês. E eu sei que vocês se importam muito uma com a outra. Por isso, é importante definirmos limites, para construirmos um ambiente onde nós TODOS nos sintamos confortáveis, confiáveis e abertos para compartilhar nossos sentimentos."
"Sentimentos... Jesus. A verdade é que, por muito tempo, eu esqueci o que eles eram. Eu fiquei preso em um lugar, em uma caverna, você poderia dizer, Julie. Uma caverna escura e profunda."
"Já você, Onze... deixei alguns waffles na floresta e você entrou na minha vida e... pela primeira vez em muito tempo, eu comecei a sentir coisas de novo. Comecei a me sentir feliz."
"Mas, ultimamente, acho que estou me sentindo... distante de você. Como se estivesse se afastando de mim. Igual me sinto distante da Julie. Sinto falta de jogar jogos de tabuleiro todas as noites, dos waffles de três andares quando amanhecia, de assistir faroestes até dormirmos. Vocês têm o mesmo gosto."
"Mas eu sei que vocês estão envelhecendo. Crescendo. Mudando. E eu acho que... se eu for realmente honesto... isso me assusta. Eu não quero que as coisas mudem."
"Talvez seja por isso que eu vim aqui: pra tentar... parar essa mudança. Voltar o relógio. Fazer as coisas voltarem a ser como eram."
"Mas eu sei que isso é ingenuidade. Não é assim que a vida funciona. A vida está em movimento. Sempre se movendo, quer você goste ou não."
"E sim, às vezes dói. Às vezes é triste. Às vezes é surpreendente. Feliz."
"Então, querem saber? Continuem crescendo. Não deixem que eu impeça vocês."
"Cometam erros, aprendam com eles... e quando a vida machucar vocês, porque ela vai, lembrem-se da dor. A dor é boa. Significa que vocês estão fora da caverna."
"Mas, por favor... pelo bem do seu velho pai (isso vale pras duas), mantenham a porta aberta oito centímetros."
"— Jim Hopper"
Quando termino, minhas mãos tremem. A visão fica turva.
Memórias me atingem.
[FLASHBACK]
— Papai, papai! — Sarah corre até ele. — Eu não acho a Julie!
— Como assim não acha a Julie? Julie? JULIE?!
— Buu! — pulo em suas costas.
— Que susto! Não faz mais isso! — ele me abraça forte. — Eu amo vocês. Muito.
— Também te amo, papai!
[...]
Volto ao presente, com a carta no colo.
— Eu também te amo, papai... — sussurro. Uma lágrima cai.
Steve aparece à porta. Eu enxugo o rosto rápido.
— Vamos?
— Vamos.
[...]
— Tchau, Joyce!
— Tchau, Julie... — ela beija minha testa e me abraça.
[...]
— Se comporta e não faz merda!
— Você também!
— Diria pra usar camisinha, mas só com a Nancy, baby!
— Julie! — ele reclama, mas me puxa num abraço. — Vem cá...
[...]
— Tchau, Julie... eu vou sentir sua falta... — a voz falha enquanto ele me abraça.
— Eu também...
[...]
Eu e ela nos olhamos por um momento antes de nos abraçarmos forte.
— Toma... — entrego a carta. — Era do pai...
— Ah... toma você também. — ela coloca a presilha de Sarah na minha mão. — Era dela, né?
— Sim... isso significa tanto pra mim...
— Eu te amo.
— Eu também te amo... — começo a chorar.
Eu realmente odeio despedidas.
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Stranger Things 3
Mystery / ThrillerEm Hawkins, Julie sempre foi boa em manter-se fora dos holofotes, até que uma sequência de eventos estranhos começa a puxá-la para o centro de um mistério que envolve desaparecimentos, segredos de família e um perigo que ninguém consegue explicar. E...
