O fim da tarde caía sobre Hawkins quando o grupo caminhou até o píer. O lago parecia calmo demais, como se guardasse um segredo pesado bem no fundo. Robin ajustava a mochila, Nancy carregava uma lanterna e Eddie... bem, Eddie reclamava de mosquitos como se eles fossem criaturas malignas enviadas pelo próprio Vecna.
Julie caminhava ao lado dele, tentando não pensar na sensação da maldição ainda latejando atrás dos olhos. Ela fingia que estava bem, mas Eddie sempre percebia.
Ele deu uma cutucada de leve no braço dela.
— Ei... tá me devendo uma revanche no jogo de adivinhação do morcego mudo, princesa dos suplementos.
Ela bufou rindo.
— Não existe esse jogo.
— Agora existe. E eu tô ganhando.
Ele abriu um sorriso grande, estúpido e encantador. Julie riu de verdade, a tensão descendo um pouco dos ombros.
Mas aí o silêncio foi cortado por passos rápidos, e o ar pesou.
Steve surgiu com sacolas de comida, o cabelo impecavelmente bagunçado. Sua expressão, ao ver Julie e Eddie rindo, caiu numa linha dura que ele tentou disfarçar mal, muito mal.
— Trouxe comida — avisou, seco. — Antes que a... dupla de esquisitos morresse de fome.
Julie cruzou os braços.
— Obrigada. Eu acho.
Ele fingiu um sorriso, mas o olhar dele queimava direto em Eddie.
— Interessante como vocês sempre riem das mesmas coisas — comentou, como quem joga veneno em um copo d'água. — Deve ser aquele humor... peculiar de nerds perdidos.
Eddie colocou a mão no peito, fingindo estar ofendido.
— Peculiar? Meu caro, isso aqui é alta cultura. Não é qualquer cabeça oca que entende.
Julie não conseguiu segurar a risada. Steve revirou os olhos, o ciúme brilhando mais forte que o sol refletido no lago.
[...]
Quando chegaram ao barco, Steve começou a tirar a camisa.
Julie tentou olhar para outro lado. Tentou mesmo. Mas o barulho do tecido sendo puxado chamou a atenção, e quando percebeu... já estava observando o abdômen dele. A cicatriz no flanco. A pele iluminada pelo fim do dia.
Ela se obrigou a desviar.
Mas então viu Nancy olhando também, séria, quase nostálgica.
Seu estômago revirou.
Eddie, do lado dela, murmurou baixinho:
— Se quiser, te empresto óculos escuros pra disfarçar.
Ela deu uma cotovelada nele.
— Cala a boca.
Ele riu, satisfeito.
Steve mergulhou no lago sem hesitar. O grupo aguardou, nervoso, observando as bolhas que subiam. Minutos correram. Tensão acumulava no ar, apertando o peito de Julie até doer.
Então... o silêncio foi quebrado por um jorro de água.
Steve subiu ofegante, puxando ar.
— Acho que tem alguma coisa a uns dez metros desc—
Uma força invisível agarrou sua perna e o puxou para baixo.
Julie gritou, avançando para a beira do barco.
Ele emergiu de novo, sufocado.
— Tem... alguma coisa aqui!
Na segunda puxada, forte o suficiente para virar o barco, Steve desapareceu.
A mente de Julie zerou.
Sem pensar. Sem hesitar. Sem pedir permissão.
Ela se jogou na água.
— JULIE! — ecoou atrás dela, mas já era tarde demais.
A água gelada cortou sua pele como lâminas. Ela mergulhou fundo, sentindo a escuridão do lago se fechar ao redor. Um clarão avermelhado pulsou no fundo, o portal.
Ela atravessou. A dor foi imediata, como se o ar fosse ácido.
O Mundo Invertido.
E Steve estava lá, caído entre as rochas, tentando afastar com as mãos criaturas horríveis, morcegos retorcidos, sombrios, com mandíbulas afiadas.
Julie agiu antes de pensar.
Uma onda de energia saiu dela, rasgando o ar como um trovão silencioso. Os morcegos foram arremessados para trás, chiando, as asas batendo freneticamente.
— Vem pra cá! — gritou, sentindo a energia rasgar sua garganta.
Steve a encarou, surpreso, assustado, vulnerável.
— Você... veio atrás de mim?
— Óbvio! Não ia te deixar virar comida de morcego demoníaco!
Mais sombras cortaram o céu. Ela levantou as mãos outra vez, emitindo um estalo de força que explodiu os monstros contra as rochas.
Mas estava ficando fraca.
Justo quando um dos bichos avançou direto em direção ao rosto dela, correndo pelo chão, um taco de madeira surgiu no ar e esmagou o morcego como uma bola de baseball.
Robin apareceu, sem fôlego.
— Não deixamos você ter toda a diversão sozinha!
Eddie veio logo atrás, gritando:
— SAÍ, CRIATURAS DA PROFUNDÍSSIMA DESGRAÇA!
Ele balançava uma tampa de lata como escudo enquanto Nancy disparava com precisão cirúrgica, cada tiro afastando mais morcegos.
A luta virou caos. Asa batendo, poeira ácida no ar, gritos, pancadas, energia crepitando.
Julie sentiu Steve agarrar seu braço, puxando-a para trás quando um grupo de morcegos caiu em cima dela.
— Fica atrás de mim!
— Nem ferrando! — empurrou ele de volta. — Eu te salvei primeiro!
— Eu não pedi!
— E eu não pedi pra ser puxada pra esse inferno também, mas olha onde estamos!
Ele abriu a boca pra retrucar, mas outro morcego desceu e ele teve que se abaixar. Ela riu nervosa, soltando um jato de energia que o bicho claramente não esperava.
A batalha finalmente começou a cessar. Os morcegos recuaram, voando para longe, deixando o grupo em silêncio, respirando com dificuldade.
Julie se apoiou nos joelhos, exausta.
Eddie chegou até ela, levantando o polegar.
— Isso foi... insano. Tipo... muito insano. Tipo nível "você é oficialmente mais legal que qualquer herói de quadrinhos".
Ela sorriu, tremendo, ainda sentindo a adrenalina.
Steve a observava, peito arfando, expressão indecifrável.
O susto, o ciúme, a culpa, tudo misturado.
Mas por enquanto... não era hora disso.
Era hora de sobreviver.
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Stranger Things 3
Misteri / ThrillerEm Hawkins, Julie sempre foi boa em manter-se fora dos holofotes, até que uma sequência de eventos estranhos começa a puxá-la para o centro de um mistério que envolve desaparecimentos, segredos de família e um perigo que ninguém consegue explicar. E...
