Sim, eu tenho parafusos a menos, vários. Mas não podia deixar as coisas daquele jeito. O Billy precisava de mim. O meu pai precisava de mim.
Eu nunca fui, não sou e nunca serei o tipo de garota que fica sentada vendo o mundo desabar sem fazer absolutamente nada.
Não.
Eu corro atrás do que quero, do que sinto e do que me der na telha. Sempre foi assim.
Jogo roupas dentro da mochila, algumas coisas pessoais, o que der pra carregar. Fecho o zíper com força, pego fôlego e saio do quarto. Dustin está no corredor.
— Julie...
Ignoro. Passo direto, descendo as escadas. Minha tia está na sala.
— Dustin, filho! Olha só, trouxe sua nova bicicleta! — ela entra toda animada.
— Licença. — pego a bicicleta sem pensar duas vezes e saio pela porta.
— Mas...
— Desculpa. — digo, exatamente quando Dustin aparece correndo cheio de esperança.
— Não... — ele congela ao me ver subindo na bicicleta. — NÃO! Não, não, não! — ele vem atrás de mim.
E eu vou embora.
— JULIE!!! — ele grita lá de longe enquanto pedalo como se minha vida dependesse disso.
O vento bate no meu rosto, cabelo voando, adrenalina no pico. Eu estava indo bem até...
BUM.
— Merda! — me levanto do chão. Bati em uma lata de lixo. Obviamente.
— Julie, tá tudo bem?! — Steve aparece do nada, desesperado.
— Ah, fala sério... — sussurro, limpando a poeira.
— Eu queria conversar... — ele se aproxima devagar.
— Agora não. — subo na bicicleta e parto sem olhar pra trás.
Pedalo uns minutos até sentir alguém me seguindo. Paro e viro rápido.
— O que tá fazendo aqui?
— Eu acredito. Onde você for, eu vou. — Max responde sem hesitar.
— Acha que é assim?
— Acho. O Billy é meu irmão. Se ele tá vivo, eu vou onde você for.
— Tem algo que eu possa fazer contra isso?
— Não.
— Tudo bem... vamos, carrapato. — suspiro.
Seguimos pedalando como duas fugitivas idiotas com senso zero de autoconservação. Mas eu precisava disso. Precisava.
Se é loucura? Claro que é. Mas eu sou louca. Fazer o quê?
Anoitece. Dormimos num beco, usando as mochilas como travesseiros improvisados, igual duas garotas que já desistiram da dignidade faz tempo.
Ao amanhecer, seguimos de novo. Podem me chamar de teimosa, de doidinha de pedra, mas o nome bonito disso é perseverança. Estava cansada? Sim. Confessei pra Max? Óbvio que não. Sou uma guerreira — uma guerreira orgulhosa.
Max comenta que está com fome. E, sinceramente, eu também estava. Então entramos numa lojinha, pegamos alguns alimentos e bebidas.
— Setenta e sete e oitenta. — o caixa anuncia.
— Vocês pedem por isso. — digo baixinho, pegando as coisas e saindo.
A mulher tenta nos alcançar, mas com um movimento rápido da mão, derrubo uma prateleira inteira na frente dela usando meus poderes. Um estrondo enorme.
Não olhei pra trás. Nem me importei.
Só pedalei.
Pedalamos tanto que perdi a noção de tempo. Até que finalmente...
Paro. Olho para a placa.
Derry, Maine.
— As rainhas chegaram. — digo, com um sorriso torto.
E Max ri, porque sabe:
Pode ser loucura.
Pode ser perigoso.
Pode ser estupidez pura.
Mas era o começo.
O começo de tudo.
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Stranger Things 3
Misterio / SuspensoEm Hawkins, Julie sempre foi boa em manter-se fora dos holofotes, até que uma sequência de eventos estranhos começa a puxá-la para o centro de um mistério que envolve desaparecimentos, segredos de família e um perigo que ninguém consegue explicar. E...
