7- 2 temporada.

562 39 5
                                        

Ao amanhecer, acordo com o sol batendo direto no meu rosto. Pisquei devagar, meio irritada, até perceber que alguém me observava.

— Bom dia! — Steve sorri, encostado no travesseiro, como se já estivesse me encarando há um tempo.

— Não enche. — viro para o lado oposto e enfio o travesseiro no rosto.

— Você é estranha.

— Não era eu que estava observando alguém que nem um psicopata.

Antes que ele pudesse retrucar, ouvimos passos apressados no corredor.

— Stevezinho! — a voz de uma mulher ecoa, fazendo nós dois arregalarmos os olhos.

— Ah... mãe? — ele responde num tom quase desesperado. — Hm... essa é... essa é a Julie. Uma amiga do trabalho.

— Oi... — murmuro com o rosto queimando. Era a primeira vez que eu realmente ficava com vergonha.

— Ah, filho, por que não avisou? — ela sorri, empolgada. — Eu preparei o café da manhã, vamos?

— Vai indo, mãe, eu já vou. — Steve tenta ganhar tempo.

— Ok. — ela sai, fechando a porta.

Ele suspira fundo, abre o guarda-roupa e começa a vestir uma camisa.

— Ui ui ui... tava melhor sem. — brinco, só para provocar.

— Cadê esse fogo todo quando a minha mãe entrou? — ele ri, e eu fico sem resposta por um segundo.
Ele estende a mão. — Vamos!

— Sim, senhor, capitão! — respondo, zoando, e descemos para a sala. A mãe dele estava lá.

— Olá... — ela me olha tentando lembrar. — Qual é mesmo o seu nome?

— Julie. Julie Henderson.

— Você é parente do...

— Do Dustin? Sim... sou, sim. — corto rápido, antes que ela faça mais perguntas.

— Stevezinho, por que não me contou que estava namorando? — ela solta do nada, e Steve quase se engasga com o ar.

— Mãe. Eu. Não. Namoro. — ele responde sílaba por sílaba.

— Mas vocês formam um casal tão lindo!

— Não somos um casal! — ele insiste.

— Tudo bem, vamos. — ela nos leva até a mesa, onde um homem já estava tomando café. Ele levanta o olhar para mim e... continua olhando. Sem piscar. O clima pesa.

— E quem é essa? — ele pergunta, nada amistoso.

— É a Julie, parente do Dustin! — a mãe responde.

— Prima. — completo.

— E o que ela está fazendo aqui? — o olhar dele praticamente fura Steve.

— Ela passou mal e... dormiu aqui. Não quis acordar vocês. — Steve fala de cabeça baixa.

— Da próxima vez... — o homem faz uma pausa, carregada. — Me avisa. — diz num tom ameaçador. — Come.

— Não, obrigada.

Ele arqueia a sobrancelha. — E por que não?

— Minha mãe me ensinou a não aceitar nada de estranhos. — respondo, e Steve engasga pela segunda vez.
— Nada contra a senhora. — completo, olhando para a mãe dele, que tenta disfarçar o riso.

O silêncio se instala como uma pedra.

— Onde conheceu o Steve? — ela pergunta para aliviar o clima.

— Na escola.

— Quantos anos você tem?

— Dezoito.

— Jura? Não parece! — ela sorri.

— Todo mundo diz isso. — retribuo o sorriso, educada.

E foi justamente olhando para aquela mesa — Steve morrendo de vergonha, a mãe dele indo para a cozinha, o pai com aquela cara insuportável — que tudo ficou preto.

A mesa sumiu. O cheiro de café sumiu. A casa sumiu.

Eu... não sabia onde estava.

"— Julie... — uma voz ecoou, distante.

— Quem é? — olhei ao redor. Não havia nada. Só escuridão.

— JULIE! JULIE, ME AJUDA! — a voz ficou mais próxima. Era o desespero de um homem. Ele chorava. Implorava.

— QUEM É VOCÊ? ONDE VOCÊ ESTÁ?! — gritei de volta, dando passos em direção ao vazio.

— SOU EU! JULIE, POR FAVOR! ME AJUDA! — ele berrava.

— EU TÔ TE PROCURANDO! ONDE VOCÊ ESTÁ?! — gritei, até finalmente avistá-lo no chão, encolhido, tremendo.

— Billy?

— Julie... me ajuda... eu não consigo sair daqui! — ele chorava, agarrado às próprias pernas.

— Você está vivo? Calma. Calma, eu vou te tirar daqui, eu prometo. — me aproximei.

— Eu tô com medo... aqui é frio. — ele se tremia inteiro, a voz quebrada. — E-e-eles estão reabrindo o portal... eles estão usando ele! — voltou a chorar, desesperado.

Um arrepio percorreu minha espinha.

— Ele quem?

Billy ergueu os olhos, vermelhos, suplicantes.

— O Hopper. — sussurrou.
— Eles estão usando o Hopper.

Meu coração parou.

— O Hopper... está vivo?"

Stranger Things 3Onde histórias criam vida. Descubra agora