Eu e o Steve caímos no chão depois de tentar levantar. A cabeça girando, tudo rodando, a sala torta.
E a gente começou a rir. Rir como dois idiotas chapados, porque era isso que éramos naquele momento.
— Eu não acredito... — eu falava entre risos — que eu fui sequestrada por russos... e vou morrer... do lado do Steve Topetinho!
Ele riu junto, quase sem ar.
— Meu Deus... que merda de vida!
A risada foi diminuindo até virar só respiração pesada.
E então ficou um silêncio estranho.
Daqueles que abrem o peito.
— Ei... — ele me chamou baixinho. — Você tá bem?
— Não — eu respondi rindo de novo. — Mas também... quem consegue ficar bem depois de tomar uma injeção russa no pescoço?
Ele encostou o ombro no meu.
Quente, pesado, real.
E aí... saiu.
Sem eu conseguir segurar.
— Ei, Steve... lembra da professora bigode?
Ele riu.
— Aquela que escondia três alunos no bigode? Impossível esquecer.
— Pois é... — suspirei. — Eu sentava atrás de você. Duas vezes por semana.
— É? — ele sorriu. — E por quê?
Respirei fundo.
A droga no meu sangue fez a verdade ficar mais leve.
Ou mais pesada.
Não sei.
— Porque eu era obcecada por você.
Ele piscou.
Eu ri, nervosa.
— Antes do Vitor, claro. Mas... eu era. De verdade.
Ficava olhando pro seu cabelo, seu jeito, sua voz... tudo.
Eu sabia até quantas vezes você mexia no topete numa aula.
Ele abriu a boca pra falar, mas eu levantei a mão.
— E sabe o pior? — o peito ardia — Você era um babaca. Um babaca completo. E mesmo assim eu... eu achava que você era... sei lá... inalcançável.
Ele me olhou diferente.
Como nunca tinha olhado antes.
Como se estivesse enxergando algo atrás da minha pele.
— Você me achava... inalcançável? — ele perguntou, quase sussurrando.
— Achava. — ri fraco. — Você não fazia ideia de que eu existia. Passava do meu lado no corredor como se eu fosse invisível.
Eu odiava isso...
Eu odiava me sentir pequena perto de você.
Ele respirou fundo. Devagar. Dolorido.
— Eu queria... — ele começou, a voz trêmula — eu queria ter te visto. De verdade.
Eu queria ter prestado atenção em você naquela época.
Queria mesmo.
Meu coração se apertou.
— Sério?
— Sério. — ele aproximou um pouco mais o rosto. — Eu era idiota. Muito idiota. Eu só me importava comigo.
E se eu tivesse percebido...
se eu tivesse olhado pra trás naquelas aulas...
se eu tivesse visto você...
Ele fechou os olhos por um segundo.
— Eu juro que teria sentado do seu lado.
Eu engoli o ar com força.
A droga deixava tudo mais verdadeiro. Mais cru.
E talvez fosse por isso que doeu tanto... e ao mesmo tempo... confortou.
— Você teria mesmo? — perguntei baixinho.
— Teria. — a voz dele falhou. — E teria falado com você.
Teria te levado pra casa.
Teria tentado ser alguém... menos babaca.
Alguém que você merecia.
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Stranger Things 3
Mystery / ThrillerEm Hawkins, Julie sempre foi boa em manter-se fora dos holofotes, até que uma sequência de eventos estranhos começa a puxá-la para o centro de um mistério que envolve desaparecimentos, segredos de família e um perigo que ninguém consegue explicar. E...
