Coberto de compromissos e papéis, Wiliam iniciou uma semana tumultuada. Segunda-feira, antes de chegar a sua sala na Divisão, arrancou cochichos e olhares furtivos. Vestia-se de jeans e camisa quando costumava usar no início da semana seus sóbrios ternos escuros.
Ele rejuvenesceu pelo menos dez anos com o corte novo. Foi um dos comentários.
Alheio a perplexidade e suspiros, passou o dia, em sua maioria do tempo, distraído. Quando acreditava concentrar-se num assunto ou papel, a imagem de May invadia sua mente. Sai da minha cabeça! Ordenou, impaciente. Você não é nenhum adolescente, Wiliam, para ficar aí sorrindo para o nada!
Passou por uma reunião, assinou documentos e ouviu relatórios de investigação. No fim do dia, encontrava-se girando em sua cadeira, comendo Donuts e discutindo com o pai ao telefone por exatos vinte minutos. O assunto era o casamento de Poncho. Carlos avisava cauteloso que Poncho iria convidá-lo para ser o padrinho de casamento, juntamente com Rachel.
‒ Pra que isso, pai? Nossa relação não é boa. Poncho não precisa fingir que nos damos bem. E eu não preciso fingir que aguento a noiva dele.
‒ Will, é você que não se permite ter boa relação ‒ Carlos lembrou tranquilo. ‒ Seu irmão tenta.
‒ Eu não vou ‒ rematou, convicto. ‒ Muito menos com Rachel! ‒ bastava ter que conviver com a mulher possessiva diariamente, pior ainda seria ter exposições públicas.
‒ E com quem você quer ir? ‒ questionou, impaciente. ‒ Com a menina do Sebastian? ‒ sugeriu mordaz.
‒ O quê? ‒ Wiliam inclinou-se sobre a cadeira chocado com a maldade no tom do juiz.
‒ A menina do Sebastian‒ repetiu devagar. ‒ Eugenio me falou tudo ‒ completou.
‒ Pai... ‒ Wiliam esfregou a testa, subitamente nervoso. ‒ Esquece o que Eugenio disse. Isso não é assunto de vocês. ‒ É sim. Eu sou seu pai ‒ contrapôs sério, depois suspirou. ‒ Quero ajudar você, filho. Tire a criança dessa briga.
‒ O que você sabe sobre ela?! ‒ aumentou o tom de voz.
Carlos hesitou no início, mas seu silêncio não perdurou. ‒ Que ela é uma criança e você um homem vingativo querendo usá-la para atingir alguém que não tem culpa do que aconteceu à nossa família.
‒ Lá vem você defendê-lo de novo! ‒ ironizou e deitou novamente as costas na cadeira.
‒ Estou sendo justo... Sua mãe era uma insensata.
‒ Não fale da minha mãe! ‒ aumentou o tom novamente. ‒ E diga a Poncho que se for com Rachel, eu não vou ‒ avisou e desligou irritado.
Sua relação com o pai sofria oscilações. O pai era teimoso, e ele não baixava a guarda. Porém amava o pai. O pai, assim como Poncho , era tudo que tinha restado do que chamava de família.
Após passar a ansiedade e choque por seu pai estar ciente sobre May, ponderou por segundos como seria ir a essa tediosa festa... Como seria se aparecesse com May na festa, não com Rachel. Sorriu, rebelde. Como seria posar ao lado dela com suas roupas rosas, glitter, gloss, florzinhas no cabelo e comportamento agitado? Podia até ouvir o som de suas risadas divertidas.
Debatendo-se com a ideia, quis muito ligar para ela depois que encerrou a ligação... Mas não ligou. Ateve-se à necessidade de dar uma comida de rabo em Eugenio por abrir o bico ao seu pai sobre ela. Afinal, não era nenhuma criança para ter seu pai envolvido em sua vida.
Duas semanas se passaram. A rotina seguiu atarefada no trabalho. Em compensação, os fins de semana se repetiram cheios de sorrisos, passeios e carinhos. No sábado seguinte, o programa do dia escolhido por May foi passear pela praia Long Beach. Ela trouxe a bicicleta de rodinha de Peter e, enquanto o menino pedalava a beira-mar, ela o empurrava e o encorajava a andar sem as rodinhas. Quando Peter cansou da bicicleta, os dois corriam um atrás do outro pela areia.
No segundo fim de semana, Peter estava indisposto por um resfriado e ficaram no apartamento, obrigando todos a jogar no game que insistiu em levar. Vez ou outra, os dois, May e Peter, rolavam no carpete, brincalhões, fazendo cócegas um no outro e brincando de guerra de almofadas. Também brincaram de jogar pipocas no ar e capturá-las com a boca. Na grande parte do tempo, Wiliam somente os observava.
No mais, foi novidade ter que formular respostas para a mulher que cuidava da limpeza semanal do apartamento, Kebi, quando ela perguntou de quem era o xampu infantil que ficou no box de hóspedes, ou se podia lavar as roupinhas de criança que esqueceram no quarto, ou de quem eram os brinquedos e desenhos espalhados pelo apartamento, ou por que embaixo do sofá tinha uma grande concentração de pipocas. Também quis saber de quem era o capacete rosa no armário, o novo perfume e a nécessaire que esqueceram no banheiro, e quem eram as pessoas da foto na cabeceira da cama.
Com o passar dos dias, decidiu que só as mensagens diárias de May na semana não eram contato suficiente para aplacar o sentimento estranho dentro dele. Queria muito ligar à noite quando voltava do expediente. No entanto, com a desculpa de que não sabia que horas a garota dormia na semana, não ligava. Também perguntou-se por que ela não ligava. Ela não sabia a droga do seu telefone! Ela já tinha ligado uma vez, por que não ligava mais? Será que não sentia saudade? Ou será que esperava alguma atitude?
Mais dias se passaram e nenhum dos dois orgulhosos tomou a iniciativa de fazer uma coisa simples como ligar. Ela não queria pressionar. Ele não queria ceder. Ficaram limitados a sábados.
Certa sexta-feira, após receber sua mensagem diária, sempre enigmática, analisou-a, tentando decifrar as entrelinhas. Todas as mensagens, desde que voltaram a se ver, estavam relacionadas a aspirações, desejo. O que será que ela queria dizer?
"Nada é impossível àquele que acredita. Nossos sonhos podem ser alcançados. Basta crer."
VOCÊ ESTÁ LENDO
Recomeço
RomansaMaite cresceu rodeada de maldade, drogas e prostituição. Emergiu íntegra em meio à lama que viveu e construiu uma nova vida em que se dedica a resgatar e encaminhar viciados em drogas à recuperação. Wiliam é um homem amargo, austero, solitário. Sofr...
