Quarta-feira, Wiliam passou a manhã incomodado em sua sala, trabalhando com papéis no automático, ansioso e com sensação de perda de tempo. Ainda pleiteava encontrar uma oportunidade em que pudesse revelar o que escondia. Entretanto, como desculpa para não fazer, continuava a dizer que não queria perder a paz. Sabia que adiar tornava-o fraco e egoísta. Afinal, o assunto desencadearia desentendimentos. Por isso, alegava como desculpa que não estava preparado para a conversa.
Não sabia quando estaria.
Com uma sensação de angústia queimando em seu peito, levantou apressado de sua cadeira, deixando uns documentos para trás, colocou o terno no braço e saiu pela porta feito um furacão, passando antes por Rachell no corredor, a quem evitava desde o casamento de Poncho.
De novo, passou em casa, trocou de roupa e foi buscar May na escola. Como nos dias anteriores, May saía com Any mais duas amigas. Desta vez, mal ela saiu do portão, já olhou em direção ao local onde ele estava. E desta vez era Audi preto que estava lá, com ele encostado. Sorridente, deixou Any com a chave de seu Lótus e caminhou até ele.
"Hmmm, hoje não é o seu dia." Disse logo que pôs os braços em volta do seu pescoço.
"Tudo bem." Pegou uma mecha longa de cabelo e acariciou-o concentrado. "Eu só queria te ver um pouco." Deu-lhe um selinho despreocupado com atenção externa. Como vestia roupas descoladas, podia ser que ninguém percebesse a diferença de idade.
"Já estava com saudade de mim?" Perguntou presunçosa e mordeu os lábios, adorando o modo como ele olhava e cheirava seus longos cabelos soltos.
"Sim. Eu só tenho você, enquanto você tem a escola e um monte de garotos olhando-a diariamente nessas suas sainhas curtas." Resmungou e soou mais ciumento do que ele desejava.
"Aff, isso é algum tipo de possessão?" Censurou-o petulante.
"Não." Arrependeu-se imediatamente. Sabia que ela não queria esse tipo de manifestação. "É carência." Inclinou e beijou-a no pescoço. "Almoça comigo." Pediu manhoso.
"Não dá. Ontem eu não fiquei com Peter, e hoje combinei de fazermos brigadeiro assim que almoçarmos. Ele deve estar ansioso." Explicou carinhosa.
"Poderíamos almoçar fora e comprar brigadeiro pronto para levar para o Peter." Sugeriu matreiro.
"E perder o gosto de brigadeiro caseiro?" Balançou a cabeça. "Não." Negou, depois juntou as sobrancelhas, pensativa. "Vamos para minha casa?" Propôs animada.
"Acho que não." Respondeu incerto.
"Vamos. Você é meu convidado."
"E sua tia?"
"Ela não liga." Balançou os ombros. "Vai gostar de ver você na minha cola." Piscou presumida, pegou os materiais escolares que tinha colocado no capô e jogou-os dentro do carro. "Ela vai ver que você não é um simples namoradinho." Adicionou, antes de abrir a porta e entrar.
Chegaram em frente a Mansão de Sebastian, May desceu e apertou o interfone. Minutos depois o portão se abriu.
"Tem certeza que não vou incomodar?" Ele perguntou logo que entraram na propriedade, contornando o jardim para estacionar.
"Não. Minha tia é legal."
Desceram e seguiram para a porta frontal. Ao entrarem, Peter atravessou apressado a sala e se jogou no colo de May, enlaçando as pernas em sua cintura.
"Olá, bebê!" Beijou-o no rosto em vários lugares, enquanto o apertava, dizendo estar com saudade. Peter sorria e a beijava também, com total devoção. O amor mútuo era tão explícito que Wiliam assistia com o fôlego preso. "Como foi o seu dia?" May perguntou. Peter respondeu por meio de sinais. "O tio Will veio almoçar com a gente. Fala com ele." Colocou-o no chão, a seguir Peter foi ao colo de Wiliam. O garoto era muito amoroso e confiante. Reflexo do amor que recebia.
Caminharam para a mesa da sala de jantar, e Wiliam ainda estava meio acanhado por invadir o ambiente familiar de May, pior ainda sabendo que aquela era a casa de Sebastian e certamente não era bem-vindo, caso Sebastian tivesse a opção de decidir.
"Boa tarde, dona Barbara." Cumprimentou da porta, embaraçado ao ver a mesa posta.
"Boa tarde. May, você não avisou que alguém mais iria vir. Eu teria feito algo especial." Foi até o armário na cozinha pegar um prato e pôs mais um lugar na mesa.
"Por mim, não precisa se preocupar. Eu não ia almoçar aqui. Vim de última hora." Wiliam explicou sem jeito.
"Não seja tímido, Wiliam. Ela está fazendo charme. A comida dela é uma delícia." May brincou. Barbara sorriu lisonjeada.
"Então se sentem. Peter só come depois que May chega." Rolou os olhos, como se achasse absurda tal dependência.
"É meu bebê." May frisou brincalhona e sentou-se a mesa entre Wiliam e Peter. "Fui eu quem pediu para me esperar."
Serviram-se de macarronada ao molho branco com frango desfiado. Wiliam comeu silenciosamente, enquanto isso May comia fazendo caras e bocas com Peter, rindo enquanto sugava sonoramente o macarrão. Por um segundo, Wiliam sentiu culpa por ter pensado em privar Peter de May, quando ele parecia tão feliz em sua companhia.
Em determinado instante, preocupou-se quando notou olhares curiosos de Barbara em sua direção.
Suspeitava seriamente que ela tivesse lembrado. Já Any, comia quieta, enquanto acessava seu Tablet, dando alguns risinhos silenciosos.
"Agora os legumes." May apontou para um refratário com cenouras e beterraba. Peter balançou a cabeça em negativa. "Vamos, Peter." Pediu séria. "Se não você não vai ficar tão lindo e legal e inteligente e com um cabelo perfeito como o meu." Disse e piscou, jogando uns fios de cabelo no ar. "A cenoura faz bem para pele e cabelo. Além disso, beterraba nos deixa mais saudáveis e alegres." Disse e espetou o legume com o garfo, levando a boca do garoto. "Até o tio Will vai comer." Espetou outra cenoura e virou-se para levar a boca de Wiliam. Ele hesitou uns segundos, olhando para o talher, depois abriu a boca e comeu. Persuadido, Peter aceitou mais algumas porções, terminaram e tomaram suco.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Recomeço
RomanceMaite cresceu rodeada de maldade, drogas e prostituição. Emergiu íntegra em meio à lama que viveu e construiu uma nova vida em que se dedica a resgatar e encaminhar viciados em drogas à recuperação. Wiliam é um homem amargo, austero, solitário. Sofr...
