Capítulo 24

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Duas semanas aflitivas depois, Wiliam foi chamado pelo pai para ir a sua casa. Era aniversário de Carlos e um almoço
de comemoração foi programado. Ainda abalado com o último telefonema, Wiliam retardou a manhã toda em ir, saindo de
casa somente em cima da hora. Pensava que adiando o encontro, doeria menos ver e não ter.
Ansioso, parou o carro na lateral da casa e surpreendeu-se quando viu algumas plantas e flores crescendo pela
propriedade, a piscina cheia e a cerca frontal da casa pintada de lilás e branco; certamente mudanças impelidas pelos novos ocupantes.
Sorriu nostálgico ao olhar em volta e imaginar May fazendo tudo aquilo enquanto ele definhava em casa. Demorou subindo as escadas, criando coragem para enfrentar sua presença devastadora. Inspirou e respirou três vezes e repetiu para si: Vou ser sensato.
Recitou mentalmente.
Vou respeitar o espaço dela. Serei paciente. Sou o adulto da relação, não
um adolescente perdido, apaixonado e rejeitado.
Mal abriu a porta, Peter veio correndo em sua direção. "Tio Will!" Ofegou, e Wiliam levantou-o no colo. "Como vai, garotão?" Apertou forte num abraço, depois beijou sua cabeça loura. "Que saudade de você!" Disse
sinceramente. "Peter também estava saudade." O menino respondeu. "Por que você nunca vinha ver Peter?" Cobrou sério. "Eu não pude." "Você vai deixar Peter entrar em seu quarto e brincar com seus brinquedos? May não deixava." Reclamou com um
bico. "Agora eu vou deixar." Piscou para o garoto e caminharam até Poncho, que já vinha em sua direção. "E aí." Bateu em seu punho, cumprimentando-o, entretanto, uma força quase tangível, algo potente e poderoso o fez virar o rosto em direção às escadas e, petrificado, viu uma pessoa de cabelos claros descer as escadas. Ela sorria ao lado de Anny, usando uma saia lápis grafite, um scarpin cinza e camisa de seda branca. O cabelo que antes tocava a linha da cintura, fora cortado no meio das costas. E a maquiagem era sóbria, grafite e branca.
Ao pressentir o olhar avaliador de Wiliam, como atraída por magnetismo, ela encontrou seus olhos e
automaticamente fechou o sorriso.

"Como vai, Wiliam." Cumprimentou-o formalmente, e ele instantaneamente lembrou-se das dezenas de vezes que
ela pendurou-se em seu pescoço e deu-lhe um abraço efusivo. "May..." Abriu a boca num ofego e colocou Peter no chão. De repente todas as suas pré-resoluções foram para os
ares e caminhou em sua direção. "Por que você fez isso?" Cobrou e pegou em uma mecha de cabelo clara. May deu um
passo atrás, esquivando-se de tão aberta demonstração de posse. "O que você fez com seu cabelo?" Ele quis saber, revoltado.
Naquele instante ela desejou ter cortado mais, no topo, para que ele não a olhasse daquele jeito possessivo, como se fosse
dono de seu cabelo. "Cortei. Pintei." Deu de ombros contendo o impulso infantil de bater em sua mão que ainda segurava uma mecha, e
afastou-se, indo para a segunda sala, onde sentou no sofá negro em frente à lareira, de pernas cruzadas, com o pé inquieto balançando no ar.
Anny cumprimentou Wiliam com um sorriso fraco, complacente ao ver seu olhar hipnotizado em direção a May e
seguiram lado a lado conversando sobre Barbara. "Seu pai disse que ela vai sair em breve." Anny explicou. "Que bom." "Vou chamar vovô pra comer." Peter avisou e subiu as escadas correndo, de modo familiarizado. "Vovô?" Wiliam estranhou, juntando as sobrancelhas.
Anny esclareceu. "O Poncho insiste que ele o chame assim." Wiliam assentiu e caminhou tenso até o bar, pôs duas pedras de gelo num copo e adicionou uísque, com os nervos
alterados. "Você bebe, é, Wiliam?" May perguntou retoricamente, com um tom acusador. "Ou você sempre bebeu e isso
também fazia parte da construção da mentira?" Ele ignorou o ácido em sua voz, fechou a tampa da garrafa e foi sentar no sofá de canto, ao lado dela. "Eu não bebia... Mas ultimamente precisei." Justificou enquanto observava compenetrado o líquido âmbar. Não
lembrava se alguma vez na vida já reagiu assim a uma mulher. Sentia uma leve náusea, um frio no estômago, as mãos geladas. "Você está bem." Comentou, apontando indolente para o corpo dela. "Não emagreceu... Está com aparência boa." Constatou com nervosa apreciação.

"Não posso dizer o mesmo de você." Disse com os olhos fixos na unha, numa epítome de frieza e distância. "Seu
cabelo está imenso. Esta barba está horrorosa." Adicionou séria, sem nem mesmo olhar em sua direção.
Ele balançou a cabeça e riu incrédulo de sua afetação, bebeu um grande gole, deixando o álcool queimar sua garganta
e apertou o copo fortemente, disposto a concentrar-se em algo que ocultasse o tremor de sua mão. Até hoje, ele só lidou com uma reação dela parecida uma vez. No casamento de Poncho. Na ocasião, impor a necessidade um do outro resolveu a distância e frieza. Será que hoje resolveria?
Estimulado pelo fato de terem sido deixados discretamente a sós, Wiliam adotou uma postura ousada, aproximou-se e pôs o braço atrás dela relaxadamente por cima do sofá. "Como está você?" Sussurrou, de um jeito íntimo, olhando-a com pretensões bem masculinas. "Melhor que você, suponho." Respondeu com a pulsação acelerada, achando assustadora a idéia de ficar tão
próximos. Ergueu os olhos da proteção das unhas e encontrou os familiares olhos âmbar perscrutando-a, confrontando-a num duelo silencioso. "Odeio o cheiro de bebida." Ela buscou qualquer rechaço como escudo para se proteger. Wiliam afastou o copo e colocou-o na mesa de centro, ato seguido abriu um trident de hortelã e pôs na boca. "Por que pintou o cabelo?" Pegou outra vez atrevidamente numa mecha, mais numa acusação do que pergunta. "Achei que o loiro combinava com minha fase." Afastou-se, para que a mecha saísse de sua mão. "Sabia que eu não tenho mais pesadelos?" Tentou entabular um assunto. "Bom pra você." Deu de ombros esforçando-se ser indiferente, mas a curiosidade quase a fez esmiuçar o tema.
Ele continuou divagando, disposto a distraí-la. "Eu agora acho que plantas têm sentimentos" Expôs solene, ganhando automaticamente atenção de May. "Aquelas plantinhas lá em casa estão tristes e pra baixo desde que você se foi." Disse sério. "Outro dia, tenho quase certeza que as ouvi chorando." Dramatizou, balançando a cabeça afirmativamente.

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