No pátio externo do presídio federal de segurança máxima da Califórnia, encostados à parede de cinco metros na ala provisória, quatro figuras distintas destacavam-se das demais. Perto deles, outros custodiados que aguardavam julgamento amontoavam-se para o banho de sol e distribuíam-se em aparelhos de musculação, partidas de futebol americano ou uso de entorpecentes. O odor de cigarro, suor e sujeira enchia o ar. Era um ambiente opressivo, com olhares desconfiados, onde cada passo devia ser dado com vigilância.
Meses atrás, quando Koko e David foram presos na operação Tijuana, o brinde de recepção foi um tratamento hostil
por parte dos internos, ameaças e algumas brigas, devido à repercussão de suas corruptas atividades policial. Canas corruptos e estupradores eram as classes mais propícias à morte na cadeia. O Estado lhes negou todo e qualquer tratamento especial, devido ao número de provas de delitos anteriores levantados pelo FBI, anexado ao dossiê da
denuncia. Por isso estavam na ala comum. Temendo pela vida.
O objetivo de Sebastian, no entanto, com toda a abordagem em cima dos policiais desde que entrou no presídio, era,
além de sair da linha de fogo, convencer Koko e David, testemunhas oculares de negociações as quais Sebastian foi precursor ou parte, a testemunhar contra ele, chefe do tráfico de toda Califórnia o qual ninguém conseguiu derrubar devido à suas participações furtivas e favorecimento político. Alguém que estava na ponta da pirâmide. Mandava e desmandava em todo Estado. Fazendo isso, Sebastian iria, com efeito, livrar-se de permanecer no submundo do crime.
Embora sempre temesse tocá-lo antes, devido ao fato de ter familiares e pessoas inocentes dependendo de si, Sebastian não se conformava mais em ser refém dessa situação. O mentor era o principal objetivo de atingir com toda aquela
armação. Foi ele o maior responsável pelo vício de Angelique. E depois que se resolvesse com ele e cumprisse seus objetivos, sairia livre para viver sua vida como bem desejasse.
Como planejou.
"O único jeito que a pena de vocês seja diminuída será cooperando com o FBI." Sebastian condicionou, com uma
máscara impassível. "Eu vou fugir, de qualquer maneira." Deu de ombros. "Tenho dinheiro e respeito aqui dentro para conseguir isso. Mas e vocês?" Tentou convencê-los. "Se não for assim, podem morrer a qualquer momento aqui dentro. Mas caso concordarem, ganharão o benefício de delação premiada. De repente, vocês consigam proteção." Sugeriu fingindo indiferença. "De qualquer maneira, iremos morrer. Aqui ou fora." Koko exasperou-se. "Merda, nós não somos ratos!" Acuou-se, temeroso. O homem era poderoso. Poderia exterminá-los a qualquer momento caso suspeitasse de traição. "Vocês sempre foram ratos." Sebastian acusou incisivo. "Policial corrupto é rato. Sempre será. Não tem moral." David sentia-se tentado. Já não impunha resistência. E Iam, assistia a tudo atento. Admirado com o poder de persuasão e inteligência de Sebastian. "Por que você está traindo-o?" Koko quis saber. "Eu não estou traindo-o. Eu fui traído por ele." Mentiu, pois sabia bem que estar aqui era uma manobra que, além de
desviar o foco de si, convenceria os dois a cooperar. Depois fugiria, até que as investigações fossem concluídas. "Tá, eu coopero." Koko aceitou. Sebastian maquiou o triunfo sob uma máscara desinteressada, deu as costas e voltou
para sua ala. ...
May saiu a passos rápidos da biblioteca, atravessou a sala e subiu as escadas de dois em dois degraus. Chegando ao
seu quarto, May passou direto pelas mulheres que lhe aguardavam para lhe arrumar, abriu o guarda-roupa e olhou todas as suas peças de roupas, com intenção de não usar o vestido que escolheu. A maioria das roupas que comprou recentemente eram escuras e básicas. E suas antigas roupas eram coloridas e joviais demais, além de simples. Não tinha nada branco ou
bege, discreto e bonito.
Estava sem opção. "O que vocês acham deste vestido." Apontou para o vestido pendurado no cabide.
As duas mulheres rodearam-na novamente, já de posse dos produtos de maquiagem e arranjo para o cabelo.
"É lindo e jovem." A maquiadora disse. "Ele pede uma maquiagem alegre e colorida, não a sóbria e escura que você
pediu." May sorriu fracamente, sem alternativa. "Então faz isso, ponha uma maquiagem alegre." Trinta minutos depois, Anny bateu na porta do quarto de May para chamá-la. A prima vestia um vestido longo, que se
abria nas pontas, tomara que caia branco, com pequenas rosas naturais no busto e parte frontal da saia. Ele se alargava abaixo da cintura e disfarçava a barriga de quatro meses.
Após entrar no quarto, olhou avaliativamente May da cabeça aos pés, e May prendeu o ar, em expectativa. "Você vai roubar a cena!" Anny encorajou-a ao vê-la olhar-se de lado em frente ao espelho com semblante
preocupado. Dos últimos trinta minutos, May usou dez para retocar maquiagem, um para vestir o vestido e o restante ficou
parada em frente ao espelho quase em pânico, sem saber o que fazer para minimizar a impressão. "Vamos, May?" Anny chamou-a. "Está na hora. Por que você não foi ao meu quarto quando eu te chamei?" Puxou a mão trêmula de May para sair do quarto. "Porque eu estava atrasada para me arrumar." Sussurrou tensa. Mesmo que a maquiadora tivesse dito que ela estava
linda, que a cabeleireira repetisse que nunca viu um vestido mais criativo e bonito, May não se sentia confiante. Temia desagradar Wiliam. "Ah, eu estou bonita?" Anny perguntou quando desciam as escadas, sendo seguidas por duas moças do cerimonial. "Queria saber se alguém vai perceber meu bebê." Acariciou carinhosamente a barriga. "Você está linda e o vestido disfarça bem a barriga." Acalmou-a com um sorriso forçado. Saíram pela porta da frente, onde um carrinho de golfe decorado as esperava para conduzi-las nos próximos duzentos
metros rumo ao local onde os convidados aglomeravam-se nos fundos da propriedade.
Uma música tocava baixo, as duas desceram do carrinho com o auxílio da ajudante do cerimonial, e todos os
presentes ficaram em pé.
Era fim de tarde, o sol refletia no espelho d'água, e lá na frente, no início da pequena ponte ornamental de madeira,
Wiliam, Poncho e o presbítero, amigo de Carlos, esperavam as noivas.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Recomeço
RomanceMaite cresceu rodeada de maldade, drogas e prostituição. Emergiu íntegra em meio à lama que viveu e construiu uma nova vida em que se dedica a resgatar e encaminhar viciados em drogas à recuperação. Wiliam é um homem amargo, austero, solitário. Sofr...
