Sabia que Aimée não estava ao meu lado porque senti tudo frio demais em minha volta. Talvez ela estivesse há algum tempo fora já que o seu lado do travesseiro que dividíamos estava bastante gelado. Mesmo com a luz que invadia o antigo quarto, traçando um feixe por todo o espaço, parando justamente na penteadeira de mogno no canto esquerdo do quarto azul-claro-quase-pastel, a brisa fresca que entrava pelas frestas da janela xadrez do quarto de Aimée fazia com que eu me cobrisse dos pés a cabeça.
Um barulho oco e repetitivo vinha do lado de fora dos vidros e junto com o som, o vento assobiava.
Levanto enrolada na coberta retalhada e vermelha de algum time amador de hóquei do Alabama para me deparar com Aimée e Adrien cortando alguns pedaços do que pareciam ser troncos de árvores. Ela tinha um machado vermelho nas mãos e o levantava sobre a cabeça toda vez que Adrien colocava um novo toco para ser partido ao meio. Foi assim com muitos e em um deles, quando ela levantou novamente os braços para em seguida fazer duas partes de madeira caírem para lados opostos seus olhos me enxergaram ali na janela a observando.
Antes de sorrir com a boca, seus olhar me atingiu primeiro. Aimée usava uma camisa xadrez de flanela por cima de uma regata branca e uma jeans tão surrada quanto as que uso para pinturas. Nos pés duas botas preenchiam o visual.
Seu cabelo estava preso com duas mechas caindo sobre o rosto e aquela era a visão mais linda que um dia pude ver na vida.
Assisti Aimée entregar o machado para Adrien que resmungou um pouco dizendo que já tinha calos demais nas mãos e a vi correndo para dentro de casa.
Poucos minutos depois ela estava entrando no quarto com uma bandeja nas mãos.
— Bom dia. – percebo que está descalça e sem a camisa xadrez que a deixava tão linda. Porém aquela regata rasgada pelos lados também favorecia bastante a minha visão. – Trouxe o seu café. – coloca sobre a cama uma bandeja com pães, mais croissants, chá, suco, café e alguns tipos de queijos que não consegui identificar de imediato.
— Isso tudo é para mim? – pergunto enquanto traço um pedaço do pão francês.
— Sim, já tomei café mais cedo. Meu pai e Adrien também. É tudo para você. – sorri.
— Mais cedo? Que horas são?
Nem havia percebido que ela usava um relógio de pulso quando ela me ditou as horas.
— São dez e quinze.
— Meu Deus, que vergonha! Por que não me acordou antes? Eu poderia ajudar vocês lá fora.
— Iria arranjar uma briga feia com meu pai se colocasse a convidada dele para trabalhar.
— Pensei que fosse sua convidada.
— Você é. – acaricia o meu queixo. – Mas é muito bem vinda por ele também.
— Creio que essa coisa de amiga não colou com ele.
Aimée gargalha enquanto tomo meu café.
— Nem um pouco. Meu pai sabe das coisas. Além do mais, ele disse que fico diferente com você por perto. – ela deixa o rosto pender para o lado, fazendo uma careta engraçada.
— De uma forma boa ou ruim? – pesco um pedaço de queijo.
— Boa. – sorri. – Alguém conquistou o coração do senhor René.
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02:09
Romance"Confiro mais uma vez o jantar pronto e servido sobre a mesa. A superfície de vidro embaçado pelo calor emitido por algumas travessas. Encaro o relógio prometendo pela sétima vez que é a última que o encaro. Já se passa das duas e ele ainda não cheg...
