Quatro

516 43 27
                                        

Sábado, 2 de Abril

Toc, toc, toc.

Ouço as pancadas fortes na porta do meu apartamento e começo a imaginar quem veio me visitar a esta hora da manhã. Eu detesto acordar cedo, e todos os meus amigos sabem disso.

Toc, toc, toc.

De novo. Quando abro os olhos para o relógio ao meu lado, rapidamente percebo três coisas: a primeira é que não tem ninguém batendo na minha porta, pois as pancadas que estou ouvindo são o latejar de uma dor de cabeça horrorosa; a segunda coisa é que a manhã já terminou, são 13 horas; a terceira é que o relógio que estou olhando não é meu, nem a mesinha de cabeceira onde ele está. Eu na faço ideia de onde estou.

O sol está entrando pela janela por trás de mim e queimando a minha nuca. O cheiro de álcool. Que eu imagino estar vindo de mim mesmo, enche o quarto. Olhando ao redor, eu percebo algumas coisa familiares... minha bolsa marrom, meus sapatos, minha saia amarrotada, e o meu...

Espera um minuto.

Aquilo ali não é meu.

Será que é...? Não, é impossível. Não pode ser... um cinto de couro trançado? Oh meu Deus... não, por favor. Diga que não é verdade.
Eu não faria isso. Nunca! Eu não poderia.
Por favor, diga que eu não... passei a noite... com Axel!

- Oi coisa linda - diz uma voz familiar e meio arrastada por trás de mim.

Ah, droga. Eu passei a noite com ele.

Não! Não! Não! Não! Não!

Nãããããããããoooooooooooooo!!!!

Eu tento manter a calma, mas é impossível. Minha mente está completamente nua, deitada a menos de meio metro do homem que eu mais detesto no mundo. Como isso foi acontecer? Nem todo o álcool do mundo faria com que Axel se tornasse alguém desejável. Ele não é bonito, nem meigo, nem divertido. Ele é Axel, pelo amor de Deus! Ele deve ter colocado alguma coisa na minha bebida na noite passada, porque eu jamais aceitaria vir ao apartamento dele de livre e espontânea vontade.

Sentindo a ânsia de vômito tomar conta de mim, eu pulo da cama, pego as minhas coisas e corro para o banheiro. Quando chego lá, eu tranco a porta atrás de mim e me viro, dando de cara com...

Oh, meu Deus...

...vaso sanitário com a maior quantidade de pelos que já vi na vida. Eu mal tenho tempo de me ajoelhar antes de colocar tudo para fora.

Enquanto vomito, com lagrimas escorrendo pelo meu rosto, eu rezo...

"Meu Deus, por que eu? Por que você decidiu me castigar desta forma? Por que eu desprezo bandas que tocam musica gospel? Eu sei que elas pregam a Sua palavra, mas sejamos honestos – a maioria delas é um lixo. É porque eu como carne vermelha na sexta-feira santa? É por isso? Se for isso, eu juro que nunca mais farei isso, eu juro. Por favor, Deus, o que quer que eu tenha feito, qualquer coisa que seja, me perdoe! Por favor, Deus, faça com que a noite passada simplesmente desapareça, e eu prometo... nunca mais vou beber de novo!"

Depois de recitar três Ave-Marias e cinco Pais-Nossos, eu fecho meus olhos e bato com meus calcanhares um no outro, esperando. Que, assim como Dorothy em O mágico de Oz, eu seja magicamente transportada para a minha casa. Mas não tenho tanta sorte. Quando abro meus olhos, continuo em frente ao vaso sanitário com a maior quantidade de pelos que já vi na vida.

Mas, para piorar as coisas, agora estou ligada a ele por um longo fio de saliva. Eu me tornei uma só com o vaso peludo.

Eu vomito de novo.

Qual seu número? Histórias para pegar e não largar. Descubra agora