Correndo para atender ao telefone, eu olho para o identificador de chamadas e vejo que é o meu avô. Depois de tomar fôlego, aumento o tom da minha voz em uma oitava inteira, na esperança de soar como se estivesse alegre, lutando para não denunciar a minha ressaca.
- Oi, vovô!
- Oi, querida! - exclama ele. - Desculpe-me por não conseguir falar com você na festa de Dulce ontem, mas, quando cheguei lá, me disseram que você já tinha saído.
- Oh! - eu grito, decepcionada. - Eu achei que você não fosse à festa.
- Bem, eu consegui sair do trabalho um pouco mais cedo.
- Fico triste por não ter conseguido falar com você - eu digo, e me deito no sofá.
- Ei, o que você achou de Christopher?
- Ah, eu gostei dele. É um bom moço.
- E você sabe o que dizem por aí, não é? Devemos escolher nossos amigos pelo caráter e nossas meias pela cor.
Eu sorrio. Adoro o fato de que o meu avô, aos 75 anos, tenha a mente tão aberta.
Mas, de repente, eu percebo que há uma certa alegria na voz dele. Ele geralmente é uma pessoa risonha, mas aquele tom é diferente. Alguma coisa está acontecendo.
- Vovô, o que há? Por que você está tão feliz?
- Bem... vou me mudar para Las Vegas! - exclama ele, com um sorriso na voz.
Eu me endireito no sofá quando OUÇO aquilo um pouco atordoada. Como eu disso, meu avô raramente sai da costa leste.
- Las Vegas? Como assim? Por quê?
- Eu conheci uma pessoa. Ou, melhor dizendo, reencontrei uma pessoa. Você se lembra de Glória, do tempo em que você e Dulce eram pequenas? Levamos vocês ao Zoológico do Bronx uma vez? Aquela vez em que você chorou porque um lhama fez xixi em você naquela área do zoológico em que deixam as pessoas chegarem perto o tocarem em alguns dos animais.
Eu me lembro de Glória, me lembro do zoológico, mas eu tentei enterrar a lembrança daquela lhama maldita há alguns anos. Aquele bicho praticamente me atacou.
- Sim, eu me lembro.
- Ela está morando em Las Vegas agora, em uma comunidade para aposentados. Mas ela está em New Canaan há algumas semanas para visitar sua família. Eu dei de cara com ela no Holiday Inn Lounge, já que vou lá às vezes para dançar, e nós começamos a conversar. Não sei como foi, mas depois nós saímos para jantar, uma coisa levou à outra, e agora eu vou me mudar para Las Vegas para morar com ela!
Mudar para Las Vegas para morar com ela? Acho que a coisa é mais parecida com fugir para Las Vegas. Isso não é bom, não é bom mesmo! Pelo que eu me lembro, essa tal de Glória é o tipo de pessoa que coloca penduricalhos hippies por toda a casa, sempre tem algumas varetas de incenso acesas, e forra as paredes da casa com carpete.
Quando eu falo aquilo para o meu avô, dizendo que ela pode ser do tipo "hipponga" ou "bicho-grilo", tudo o que ele me diz é: Oh, Anahí, deixe disso. Os médicos receitam maconha para as pessoas que sofrem de glaucoma. Não é algo que faça tanto mal.
Estou realmente embasbacada com tudo isso. Por um momento, eu me sinto como Carol Brady naquele episódio de The Brady Bunch em que Greg decide virar hippie e se muda para a sala de estar de Mike. Exceto pelo fato de que, neste caso, as coisas estão acontecendo com o meu avô, não com o meu filho; e ele não está se mudando para a sala de estar de alguém, ele está indo morar em Las Vegas.
De repente eu ouço uma música tocando do outro lado do telefone. "We built this city! We built this city on Rock and Roll, built this city. We built this city on Roccckkk aaaannnd Rollllll!".
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Qual seu número?
FanfictionNova York, início da Primavera. Anahí Portilla lia seu jornal favorito quando fica horrorizada ao ler, que as mulheres têm em média 10,5 parceiros sexuais ao longo da vida. Acreditando que o número é baixo demais, ela puxa da memória todos os homens...
