Os três amigos

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— Eu quero a ajuda de vocês pra uma coisa. — diz Anthony após alguns minutos de caminhada silenciosa.

— Pode falar, amigo! — respondo com um sorriso, laçando o pescoço dele. — Não se acanhe, você não será julgado.

— Mas lembre-se de que o Heitor é um péssimo conselheiro. — alerta Liz, e eu faço uma careta para ela.

— Bom... — Anthony começa, visivelmente nervoso — chamei a Isa pra sair, e ela disse que adoraria ir ao cinema, mas... sinceramente, eu não sei como me vestir!

— Ué, se veste normal! — diz Liz.

Eu e Anthony nos entreolhamos e começamos a rir – ou melhor, a gargalhar.

— Qual é a graça, seus idiotas? — ela esbraveja, parando à nossa frente com os braços cruzados e cara fechada. — Odeio quando parecem tão cúmplices e eu fico boiando!

— Azar o seu por não ter pelo menos um ano de amizade — digo, sorrindo.

— A gente está rindo porque só vai ao cinema quando sai algum filme que realmente nos interessa: alienígenas, heróis, animações... — Anthony começa a explicar. Liz ainda parece perdida, então resolvo completar:

— E nesses casos, a gente sempre compra a roupa ideal para o dia: calça, camiseta e até tênis que tenham a ver com o filme!

— Que horror, vocês são fanáticos mesmo! — ela diz, quase chocada, mas sei que daqui a um tempo vai estar igual a nós. — Então você quer ajuda com os looks? Que estilo você curte? — pergunta a Anthony, enquanto voltamos a caminhar.

— Eu acho o estilo do Heitor bem legal, só não combina comigo. Mas gosto bastante de roupas de moletom, só que é muito básico pra um encontro, não?

Faço uma careta. Me senti até ofendido. Muitas vezes saio usando roupa de moletom, só me arrumo mais quando vou pra alguma festinha.

— Pode até ser meio básico, mas vocês são dois adolescentes remelentos, não irão pra nenhum restaurante com estrela Michelin.

— Idai? Quero tá bonito.

— Confesso que ainda não reparei no estilo do Heitor. — Liz fala, quebrando a pequena discussão que estava se formando — Em minha defesa, a gente quase nunca se viu por aí, e na casa dele ele só andava de bermuda — diz, me lançando um olhar. Tenho certeza de que ela adorava a visão.

— Swag! — faço uma pose e pisco para ela. — Mas também gosto de um visual mais rock’n’roll. Mas nada disso me define musicalmente, sou bem eclético. — melhor deixar claro logo, afinal, somos amigos e temos que nos conhecer melhor. — Mas pra falar a verdade, ultimamente tô só no básico.

Agora que já estou "recuperado" da lesão, vou voltar a dar mais atenção a minha vestimenta. Voltar a usar calça jogger, meus tênis nos dois pés. Camisa grande eu sempre usei, obviamente eu não tinha dificuldade em usar camisas.

O papo seguiu leve até chegarmos ao shopping. Fomos direto para a praça de alimentação. Me sentei logo na mesa onde servem o amor da minha vida: o Subway. Meus dois rabos me seguiram, e fizemos nossos pedidos.

Devo dizer que não éramos o grupo mais discreto do local. Nossa alegria atraía olhares. Falávamos de tudo, inclusive de sexo – e a falta de experiência do Anthony era meu maior motivo de riso. Liz ainda tinha paciência pra responder, eu já ria só de ouvir as perguntas. Sorte a dele que Liz tá aqui.

Por mais que eu tente, não consigo deixar de julgá-lo um pouco. Ainda assim, no fundo, acho que ele começou na hora certa. O que realmente me surpreende é o nível de inocência dele, chega a ser desconcertante. É como se ele tivesse pulado toda uma conversa que os pais deveriam ter tido com ele lá pelos doze anos, quando o corpo dele começou a mudar e ele nem percebeu. Mas, de certa forma, até entendo. A mãe dele provavelmente também foi criada no meio de tanto tabu que mal devia conhecer as próprias necessidades, quanto mais encontrar palavras pra explicar a um menino que o corpo dele estava mudando, que ele tinha virado “mocinho”. Talvez ela mesma nunca tenha ouvido esse tipo de conversa. Fica difícil ensinar o que nunca se aprendeu.

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