Já estava meio acordado quando ouvi a porta do meu quarto abrindo e depois um suspiro, como se alguém tivesse se assustado.
- Caralho! - ele exclama.
Coloco a cabeça pra fora do lençol e olho para meu pai. Ele não costuma falar palavrão de forma tão casual, então deve ter se assustado mesmo.
- O que você tá fazendo aqui? - perguntei com a voz rouca, afinal acordei agora.
- Eu vim bisbilhotar! - ele diz com tanta simplicidade que eu não sei se acredito. Ele ri e passa a mão no cabelo - Esqueci que você foi expulsou da escola, não esperava te ver aqui. Levei um susto desgraçado quando vi o lençol se mexendo.
O quarto tá escuro, mas a luz suave do corredor contorna a silhueta dele. Vejo seus passos cuidadosos, meio lentos, provavelmente para não tropeçar em nasa.
- Você devia ver isso com um médico, vai que é Alzheimer. - resmungo, com a voz ainda sonolenta.
Sem aviso, ele abre a cortina. A luz do sol entra como um golpe, direto nos meus olhos. Me contorço igual um vampiro exposto ao sol.
- Porra! - reclamo, instintivamente puxando o cobertor sobre o rosto.
Sinto o ardor instantâneo nas pálpebras, mesmo fechadas. A claridade que pra ele é só incômoda, pra mim parece lâmina. Acho que às vezes ele esquece que tenho fotofobia. Ele se preocupa muito com minha pele, quando fomos para Orlando vivia passando filtro solar em mim a cada cinco minutos, mas, aparentemente, me deixar cego não é um problema. Câncer de pele certamente é mais problemático do que uma cegueira, mas até me surpreende que ele não tenha o mesmo cuidado. Eu ainda estou em vantagem por não ter olhos vermelhos, não é tão fácil assim adquirir catarata ou alguma lesão na retina, mas o risco tá ali.
- Eu estou com a memória em dia! Acho que seria mais estranho se eu tivesse me acostumado fácil com sua expulsão. - ele provoca, ignorando meu sofrimento visual e tentando tornar o assunto casual, mas a pontada de crítica vem disfarçada.
Me espreguiço e aos poucos vou abrindo os olhos, tentando ajustar a visão, mas o incômodo ainda lateja. Levanto com a mão cobrindo os olhos para não olhar direto para a janela e vou em direção ao banheiro. Ouço ele reclamando e o vejo virar de costas de repente.
- Eu não precisava te ver pelado, sabia? Por que levantou assim?
- Desculpa, esqueci que estava pelado! - estava entrando no banheiro, mas parei na porta e virei para olhá-lo novamente. Agora que estou mais acordado, me dou conta do que realmente está acontecendo - Desculpa uma ova! O que diabos você veio fazer no meu quarto? Se eu tô pelado aqui é mais do que normal, você que não devia entrar assim!
- Eu já disse que vim bisbilhotar! - ele vira novamente e faz careta, depois coloca a mão pra frente, talvez para ocultar o que ele não deseja ver, ou para me dar certa privacidade. Mas do que adianta? Ele já viu mesmo, basta agir normalmente. Particularmente, não me importo, mas também não significa que eu queira ver ele pelado - Eu sempre venho aqui depois que você vai pra aula e às vezes de madrugada, só pra ver se não tem nenhuma carteira de cigarros escondida por aí.
- Entendi! - entro no banheiro de uma vez, preciso fazer minhas coisas. - Não precisa mais fazer isso. Faz tempo não encontro o Yan e eu tô tentando parar de novo. Já parei!
Estou no processo, obviamente. Acho que boa parte da minha irritação para certas coisas é devido a falta de nicotina. Mas até que não faz uma falta tão grande quando me distraio com outras coisas.
- Então era ele que conseguia os cigarros pra você? Eu bem que desconfiei... bom, sei que não tá mentindo porque não senti cheiro de cigarro nas suas coisas desde aquele dia. É um alívio, fico feliz que esteja se esforçando! Aliás, se arruma aí que nós vamos sair!
VOCÊ ESTÁ LENDO
Heitor
Teen FictionTodos adoram uma história com um garoto complicado, e aqui você vai encontrar um pouco disso. Mas, acima de tudo, talvez você se identifique com os personagens, já que não há nada de excessivamente fantasioso no mundo adolescente que apresento. Paix...
