Eu disse que ele não ia faltar.
Assim que entro na sala, bato o olho nele. Anthony já está sentado no lugar de sempre, rabiscando alguma coisa no caderno. Tem alguns alunos espalhados conversando num canto, mas a sala está relativamente vazia. Respiro fundo. Não tem como adiar isso, senão pode ser tarde demais, vou ter que engolir meu orgulho e falar com ele, pedir desculpas novamente. Afinal, quem errou fui eu.
Me aproximo devagar, com as mãos nos bolsos, e tento parecer o mais casual possível.
— Ei...
— Não estou a fim de conversar. — ele nem olha pra mim, continua desenhando.
— Olha, eu sei que vacilei. Mas... me perdoa!
— Heitor, pelo amor de Deus... — ele solta a caneta com força e respira fundo — Eu já disse que não quero falar sobre isso. Só... me deixa em paz, beleza? Dá um tempo!
Ele volta a desenhar
Me seguro para não arrancar aquele caderno da mão dele. Ele não levanta os olhos, nem mexe a cabeça. Tento contar até dez. Não chego nem no cinco. A paciência me abandona.
— Você quer tempo? Beleza. Mas para de agir como se eu tivesse feito de propósito!
Ele fecha o caderno, mas não fala nada.
— Você acha que eu acordei e pensei: "hoje vou foder com o Anthony"? Porra, cara, tenho certeza que você entendeu que ela manipulou aquela situação! — minha voz já sobe um pouco, mas ainda tô tentando manter o controle.
— Isso muda alguma coisa? — ele finalmente me encara, os olhos vermelhos de raiva — Ela era minha namorada! Manipulando ou não a situação, vocês transaram! E você caiu na manipulação porque não tem um pingo de respeito por si mesmo e nem pelos outros, é totalmente promíscuo! Parece que vive numa fissura, igual um drogado! Um viciado que não consegue passar um dia sem se meter em alguém!
Fico um pouco chocado com a escolha de palavras, ele não hesitou nenhum pouco. Mas eu não consigo me ofender com isso, porque eu concordo, sei bem das minhas falhas.
— Eu sei que não sou santo, porra! — dou um passo pra trás e passo a mão no cabelo, frustrado — É foda dizer isso, faz parecer que tenha alguma síndrome de protagonista, mas ela fez isso só pra me ferrar. Só que, infelizmente, o jeito que ela escolheu envolvia outra pessoa. Ela percebeu que você é uma das pessoas mais importantes da minha vida e sabia que me afastar de você me deixaria mal... — respiro fundo, sentindo o peso do que acabei de admitir — Porra... até parece que tô me declarando aqui... eu não quero perder sua amizade!
Anthony balança a cabeça, visivelmente magoado.
— Você era meu melhor amigo.
— Era? — isso me atinge mais do que se ele tivesse me socado.
— E o que você queria que fosse depois disso?
Fico ali parado, sentindo o corpo inteiro tenso, como se outra crise estivesse vindo. Mas não é. É só a sensação de estar quebrando por dentro. Não sei o que esperava. Um abraço? Um "tá tudo bem"? Nao sei. Só sei que estou cansado dessa culpa toda.
— Quer saber? Foda-se. — viro de costas, sentindo o meu orgulho sendo pisoteado e cuspido — Cuida da sua vida então. Não vou rastejar por perdão. Você não é nenhum deus, caralho.
Jogo minha mochila numa das carteiras, caminho até a porta e saio.
Talvez ele realmente não me perdoe. Talvez seja o fim de uma amizade de quase quatro anos.
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Heitor
Teen FictionTodos adoram uma história com um garoto complicado, e aqui você vai encontrar um pouco disso. Mas, acima de tudo, talvez você se identifique com os personagens, já que não há nada de excessivamente fantasioso no mundo adolescente que apresento. Paix...
