Estava deitado na cama, me sentindo meio desanimado. Sabia que mais tarde teria que sair com Anthony. Eu deveria ter ido com ele até a casa dele ajudar a pegar as tintas, a tela, o cavalete, mas ele percebeu que eu não estava muito bem e preferiu ir sozinho. Disse que seria mais fácil convencer a mãe a emprestar o carro sem mim por perto. Foi uma desculpa válida, a mãe dele realmente não deixaria se soubesse que eu estaria junto.
Ouvi batidas na porta. Eu diria que é Anthony, mas pode ser Janne ou meu pai, tenho certeza que estão curiosos para saber se falei com minha mãe.
- Tá aberto, não se preocupe que estou vestido! - falei só pra fazer graça, não fico nu no meu quarto de tarde, só durmo pelado às vezes.
- Que pena!
A voz me pegou de surpresa. Me sentei na cama, confuso. Era Isabella. E se ela estava ali, talvez Anthony também estivesse. Então sem pânico, Heitor. Ele havia dito que ela viria.
- Eu devia ter avisado o Anthony que não ia mais levar garota nenhuma.- resmunguei, levantando e a encarando com tédio. Me aproximei e fiz um gesto para que ela saísse da frente da porta, depois enfiei a mão no bolso.
- Bom, não sei do que você tá falando. Não vim com o Anthony... mas sei que ele já deve estar chegando.
Arqueei uma sobrancelha.
- E você decidiu vir antes? - suspirei, irritado. - Puta que pariu... parece que você e minha mãe andam competindo pra ver quem é mais incoveniente. Quando não é uma, é a outra. Que porra você quer? Quem te deixou entrar?
Ela não respondeu.
Em vez disso, pulou em cima de mim.
O movimento foi tão inesperado que quase caí. Minha perna direita deu uma leve fraquejada, e por pouco não fomos os dois ao chão. Meu tornozelo ainda não está cem por cento; já consigo andar bem, até correr um pouco, mas ainda dói se eu exagerar.
Senti seus lábios nos meus, mas graças a quase queda, não passou de um selinho desajeitado. Empurrei ela, e ainda tive a decência de controlar minha força para ela não se espatifar no chão.
- Tá maluca? Você não tá ficando com o Anthony? - Levei a mão ao rosto, frustrado. Eu não costumo me importar com caras que só estão ficando com alguém, mas é diferente quando o cara é meu amigo. Além disso, a garota é minha ex. Apontei para a porta. - Vai embora. Agora.
- Você se importa com seu amigo, né? Fica com a consciência pesada porque, no fundo, não é um completo filho da puta... só o suficiente pra me enganar!
- Te enganar? Nós éramos dois moleques, Isa. Você acha mesmo que eu planejei alguma coisa? Eu admito, tinha mais tesão do que sentimento. Mas, porra, isso tava meio na cara depois te um tempo.
- Querendo ou não, me enganou. - ela me empurrou, com força. Os olhos começavam a marejar. - Você disse que gostava de mim, me deu esperanças. Você foi meu primeiro em tudo! E no fim... eu fui jogada fora como se não significasse nada. Eu só queria um pouco de afeto, de carinho, algo que me fizesse sentir amada. Mas tudo o que eu recebia era o seu corpo. Era como se eu fosse... uma boneca inflável pra você!
A raiva, o desprezo e a tristeza na voz dela doíam de ouvir. E encarar seu olhar cheio de lágrimas me deu um nó no estômago.
Pensando bem, não faz tanto tempo assim. Terminamos há dois anos. E nunca conversamos de verdade, nunca dei espaço pra ela dizer como se sentia. Essa é a primeira vez que ela fala tudo isso.
Talvez, se eu tivesse deixado ela se expressar antes, ela não teria espalhado tanta merda sobre mim depois.
- Desculpa - falei, com a voz mais baixa. - De verdade. Se eu fosse mais maduro na época, jamais teria feito aquilo. Eu me arrependo. Me arrependo de ter feito você sofrer daquele jeito.
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Heitor
Teen FictionTodos adoram uma história com um garoto complicado, e aqui você vai encontrar um pouco disso. Mas, acima de tudo, talvez você se identifique com os personagens, já que não há nada de excessivamente fantasioso no mundo adolescente que apresento. Paix...
