Bebedeira

24 3 8
                                        

Já faz uma semana desde que viemos para a fazenda dos meus pais

Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.

Já faz uma semana desde que viemos para a fazenda dos meus pais. Meu pai gosta dela, mas é a minha mãe quem demonstra mais. Ela vive paparicando, quase não deixa a Janne levantar para pegar um copo d’água sozinha. Está sempre por perto, ajeitando uma almofada, preparando algum chá, perguntando se ela está confortável e olha que a barriga da Janne nem tá tão grande assim. Além disso, não perde a chance de aconselhar sobre tudo que envolve filhos e gravidez. São histórias, dicas, truques de quem já passou por isso. Não sei se a Janne vai acatar alguma dessas recomendações, mas ela parece ouvir com uma atenção genuína. Talvez por respeito, talvez porque, no fundo, existe sempre aquele conforto em escutar a voz de alguém que já trilhou o mesmo caminho.

Já Heitor, parece outra pessoa. Ele está visivelmente mais feliz, cheio de energia, e é uma alegria enorme para mim poder vê-lo assim. A verdade é que, antes disso, eu quase não tinha tempo de observar meu filho de verdade. Ele passava o dia inteiro na escola, às vezes emendava passeios com os amigos e só voltava à noite, também tinham os treinos. Nos finais de semana, principalmente quando estava com o pé machucado, quase não tinha disposição para nada; vivia desanimado.

Claro, aqui ele também tem suas limitações, mas ajuda como pode, alimentando os animais, acompanhado a rotina deles. Ele precisa se cobrir dos pés a cabeça, mas não deixa de ajudar dos novos amigos. Confesso que da um pouco de pena, ele deve morrer de calor mesmo usando uma camisa térmica. Ele não gosta muito, mas trouxe algumas já que também estávamos vindo para um lugar quente. Nunca pensei que ele fosse se adaptar tão bem à vida no campo, e tão rápido, ainda mais com dezessete anos. Eu imaginava que estaria colado no celular, ou então entediado por estar longe do agito da cidade. Mas ele tem andado bastante a cavalo no finalzinho da tarde, o que me surpreende. É mais a cara dele gastar energia tentando impressionar Hilary do que dar voltas pelo pasto. Mas, por incrível que pareça, ele fala mais com Jonathan do que com a Hillary.

Não foi minha intenção criar um filho tão safado, mas agora não tem volta. Ainda assim, eu não mudaria o jeito que criei ele. Ou melhor, se eu pudesse voltar no tempo e corrigir alguns erros, eu faria sem hesitar, mas tentaria construir essa mesma relação que temos. Por mais que às vezes seja uma dor de cabeça, seria muito mais estressante lidar com um adolescente que vive escondendo as coisas. Sei que tem coisas que ele não me conta, mas são poucas.

Já passa das sete da noite. O céu lembra bastante o de Fort Lauderdale: um sol que demora para se por, tons amarelos e alaranjados no horizonte, poucas nuvens. Apesar do céu claro, o sol e o calor já não incomodam. Pelo contrário, chega a ser aconchegante.

Logo vejo o carro do meu pai chegando. Ele levou os três adolescentes mais cedo para entregar um porco a um vizinho. Sorrio ao ver meu filho saindo do carro todo animado balançando duas garrafas de uísque nas mãos. Bato na minha testa para fazer uma graça e balanço a cabeça negativamente. Não me surpreende que ele goste de beber. Bom, talvez vá surpreender a avó quando descobrir.

Heitor Onde histórias criam vida. Descubra agora