Texas

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No horário marcado, fomos até a delegacia para o depoimento formal. Entreguei meu celular completamente desbloqueado, até a biometria eu desativei.

Ontem, apaguei as fotos que queria de todos os cantos possíveis. Apenas os nudez mesmo, não tenho nada para esconder. Depois de prestar meu depoimento, o celular foi devolvido, mas confesso que fiquei com uma pulga atrás da orelha. Espero que não tenham instalado nenhum app espião aqui. Não teria problema caso fosse realmente necessário, mas eu não gostaria de ser monitorando escondido.

De todo modo, tudo correu bem. Reforçaram que eu não devo, em hipótese alguma, entrar em contato ou me aproximar de Yan. Disseram também que minha viagem está liberada, mas que preciso ficar atento ao meu telefone. Além disso, meu pai precisou informar o endereço da casa dos meus avós e assinar um termo.

No momento, estou no lugar de vítima, mas, no fundo, tenho a sensação de que todo esse cuidado é também uma forma de se resguardar, caso em algum momento a situação vire contra mim.

Estamos a caminho da fazenda dos meus avós e eu já perdi a conta de quantas vezes passei protetor solar no rosto. Estou sentado na frente, então o sol bate direto. Mesmo com a proteção do vidro do carro, meu pai é paranóico com o sol e pede para que eu passe o protetor a cada cinco minutos. Okay, estou exagerando um pouco, mas ele pede com certa frequência.

Texas é um lugar tão quente quanto a Flórida. Se não fosse pela paisagem tão distinta, eu poderia jurar que ainda ainda estamos em Fort Lauderdale. Confesso que gosto da paisagem, me sinto em Red Dead Redemption.

E sim, meus avós têm uma fazenda, com alguns cavalo, gados e porcos, mas não são ricos. Eles eram de Fort Lauderdale também, acho que nasceram lá, meu avô era mecânico e minha avó professora. Mas depois que meu pai estava criado, formado e trabalhando, os velhos decidiram se aventurar em uma viagem de vinte horas de carros até Mineral Wells, que é a cidade em que estamos agora. Obviamente não somos loucos como eles, então viemos de avião, só três horas de vôo. Ainda assim a casa deles fica a pouco mais de uma hora do aeroporto, o taxista até reclamou antes mesmo de pegar a estrada.

Meu celular começa a vibrar em meu bolso, o pego e vejo o nome do Anthony na tela, então atendo.

- Fala aí!

- "Cara, onde você tá?" - a pergunta dele me faz lembrar que não contei nada a ninguém, exceto à Olívia. - "Não tem ninguém na sua casa!"

- Puts, mano, foi mal! Esqueci de avisar... - passo a mão no cabelo. - Eu tô em Mineral Wells, vim visitar meus avós aqui no Texas.

- "Texas? Cacete!" - ele exclama. Acho que nunca vou me acostumar com Anthony falando esse tipo de coisa - "Eu queria falar uma parada com você!"

- Sobre o quê?

- "Sua viagem para Seattle. Eu..." - ele dá uma pausa e suspira - "Eu fiquei surpreso quando descobri e não soube o que dizer na hora. Fiquei contente por você, claro, mas depois de pensar bem... eu realmente não gostei. Eu não quero ficar longe do meu amigo e depois que você... quase morreu..." - ele da outra pausa, acho que ele ainda está bem abalado com isso. A verdade é que eu também deveria estar, mas parece tão surreal que às vezes sinto que nem aconteceu. - "Olha, quando você voltar a gente conversa direito, tá?"

Acho que ele queria dizer outra coisa, mas não vou pressionar, obviamente é o tipo de conversa que não dá pra resolver por telefone. Acabo dando uma leve risada, pois ele está lembrando meu pai quando sugeri a viagem para Seattle.

- Beleza! Vou ficar só um mês aqui, então a gente tem bastante tempo pra aproveitar antes de eu ir.

- "Tá certo... aproveita a viagem!"

Heitor Onde histórias criam vida. Descubra agora