Is This Love

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Pov. Draco

Uma enxaqueca forte castigava minha cabeça, sufocada por uma enxurrada de pensamentos que me corroíam por dentro. Aluguei um apartamento de quinta categoria, mesmo tendo dinheiro suficiente para pagar por algo melhor. Era como uma punição — justa, talvez — por toda a porcaria que minha vida havia se tornado. Minhas coisas ainda estavam em caixas, espalhadas pelo minúsculo espaço, largadas pelos cantos das paredes, ocupando o lugar que, em breve, seria tomado pelo meu corpo moribundo. Eu precisava viver uma vida infeliz. Já que eu estava na pior fase dela, minha casa também precisava refletir isso.

   Há poucas semanas, eu havia rompido uma relação conjugal. Astoria era o nome dela. Uma mulher interessante, por quem me apaixonei ao longo dos últimos anos. Mas eu não havia realmente me dedicado àquela relação. Consigo entender por que ela foi embora. E compreendo que talvez esse vazio que sinto agora não seja exatamente pela falta dela — e sim pelo fim da sensação de estar em um relacionamento. Era confortável saber que, não importava o que eu fizesse, teria alguém me esperando quando eu chegasse em casa. Mas isso não importava mais. Ela se foi. E não havia muito o que eu pudesse fazer a respeito.

    Tirei a camisa úmida de suor por causa do maldito calor que fazia naquele lugar. Talvez a culpa fosse das paredes antigas, ou dos móveis. Tudo ali parecia milenar e empoeirado. Era difícil saber de onde vinha o desconforto. Acendi um cigarro, levei-o aos lábios, traguei e exalei uma quantidade considerável de fumaça. Sempre tive problemas com cigarro, traumas antigos que me condenavam a pesadelos constantes. Mesmo assim, acabei me apegando à frase: "um vício para curar outro". E aqui estou eu, fumando a terceira caixa desse câncer em cilindros.

    Caminhei até a cozinha, como fazia naquela rotina desgastante que eu mesmo criei. Procurei algo nos armários. Vazios, é claro. Eu não fazia compras desde que me mudei para ali. Apaguei o cigarro na pia, jogando-o num cinzeiro imundo, como quase tudo naquela casa. Eu não tinha ânimo para limpar. Sempre me dizia que aquilo era temporário, então não fazia sentido arrumar nada.

   Apressei-me até o quarto e encontrei uma camiseta relativamente limpa. Vesti-a com pressa. Olhei-me no espelho retangular e não reconheci o reflexo. Tinha perdido alguns quilos, a barba por fazer, olheiras profundas. Até minhas roupas pareciam indignas de uso — mas eram o melhor que eu tinha no momento. Encontrei a carteira em meio a uma pilha de roupas e a enfiei no bolso de trás da calça. As chaves demoraram um pouco mais para serem achadas; estavam caídas no carpete da sala, ao lado de uma caixa de pizza velha. Com tudo em mãos, peguei o celular e saí. Quanto mais rápido fosse ao supermercado comprar suprimentos, mais rápido eu voltaria para minha vida medíocre — especialmente naquela hora da noite.

   Entrei no carro e liguei o rádio, deixando em qualquer estação. Só queria me distrair por alguns minutos antes de chegar ao mercado. Tocava Is This Love, do Whitesnake. Uma música agradável, ainda que não muito apropriada para o momento. Olhei pela janela. Essa cidade leva um pouco da gente a cada dia, pensei. Mas, mesmo assim, eu não queria estar em outro lugar. Por mais que tudo estivesse desmoronando, esse ainda era o único lugar onde eu me sentia livre. Onde as coisas mais certas eram justamente aquelas que eu não sabia ao certo como iriam acontecer.

   Todos esses anos.

   Meu objetivo nunca foi formar uma família.

   Mesmo que eu tentasse me enganar... isso nunca seria verdade.

   Todos esses anos, tive um único e importante objetivo.

   Mas eu falhei.

   Quando a música terminou, estacionei o carro em uma esquina qualquer. Desisti de ir ao supermercado. Estava exausto. E a dor de cabeça ainda latejava. Eu precisava de uma distração.

Luzes do amanhã Histórias para pegar e não largar. Descubra agora