Sweet Creature

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Pov. Draco

Estávamos sentados em balanços de madeira, em uma praça afastada, na saída da cidade. Eu já não sabia quanto tempo havia dirigido, mas a distância era bem maior do que quando saímos da plataforma e fomos até a lanchonete. Potter comentou sobre a música no rádio e a paisagem durante o caminho, mas nenhuma conversa foi além da superfície. Acho que ambos preferimos assim.

O lugar era amplo, simples, envolto por pinheiros altos e silenciosos. Não havia postes de luz, apenas o brilho da lua e das estrelas. Ainda assim, era mais claro do que deveria ser. Uma beleza crua, silenciosa, quase esquecida. No centro, um parquinho antigo — dois escorregadores, quatro balanços, uma gangorra, um chapéu mexicano — que à luz do dia talvez acolhesse crianças. Mas agora era só um cenário imóvel no escuro.

Quando nos aproximamos dos balanços, tudo ali começou a fazer sentido. Esse podia mesmo ser o esconderijo de Potter.

— Não sei explicar esse lugar — ele comentou, chamando minha atenção. — A visão precisa ser sentida.

Assenti com a cabeça. Se ele tivesse tentado me descrever antes, talvez eu não tivesse vindo. Provavelmente imaginaria algo bem diferente, e meu impulso teria se perdido no caminho.

— Como conheceu? — perguntei.

Ele abriu a sacola com os lanches, me entregou um hambúrguer e tentou se ajeitar no balanço. Seus movimentos desajeitados faziam a estrutura balançar de forma descompassada. Fiquei em silêncio, observando. Era estranho ver alguém tentando tanto manter o equilíbrio por um simples lanche.

Só depois de algumas tentativas ele conseguiu firmar o pé no chão, desembrulhou o hambúrguer e deu uma mordida como se fosse a melhor coisa da noite. Aquilo me distraiu. Fiz o mesmo, e um som involuntário escapou da minha boca quando o gosto bateu. Estava bom.

— Meus pais me traziam quando eu era pequeno — ele disse, ainda comendo. — Às vezes acampávamos por aqui. Sempre foi o meu lugar favorito. Meu refúgio.

— Você vem aqui todo dia?

— Não. Só em momentos assim.

Franzi o cenho, sem morder o próximo pedaço.

— Assim?

— Quando eu preciso de paz.

Fiquei olhando de lado para ele. A iluminação fraca deixava seu rosto parcialmente escondido. Os óculos refletiam a luz da lua, seus olhos desapareciam atrás das lentes. E ali, naquele silêncio, ele parecia mais velho do que era. Mais calmo. Mais inteiro. Pensei na cicatriz que mal vi na boate e que agora, por um instante, senti vontade de procurar.

Seus pés arrastavam levemente no chão, empurrando o balanço num ritmo calmo. O vento mexia seu cabelo, a roupa, o ambiente inteiro parecia se mover com ele. Não havia sinal do garoto da boate. Só alguém... presente.

— Acho que você também precisa de paz, Draco — disse ele, virando-se devagar para me olhar. Havia um sorriso sincero no canto da boca. — Fiz o que pude. Você se sente bem aqui?

Tentei responder, mas nada saía. Minha cabeça pesava com tudo o que aprendi — que ninguém faz nada sem esperar algo em troca. Mas naquele momento... não consegui ver nenhuma segunda intenção. Talvez ele fosse só isso mesmo: alguém oferecendo um lugar.

— Sim — falei, desviando o olhar. — Me sinto bem aqui.

— Fico feliz.

E foi isso. Nenhuma pergunta a mais, nenhum passo além. O silêncio entre nós era confortável. Terminamos os hambúrgueres devagar, dividimos batatas, refrigerante e minutos longos demais para medir.

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