I33I - Fantasma

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A primeira luz do amanhecer incidia sobre os portões de Sweney Pines quando eu os alcancei. E somente quando eles foram abertos lembrei-me de limpar o sangue seco em meus lábios.

Baran, o sub-capitão dos patrulheiros parecia  genuinamente espantado quando me viu, lancei lhe um sorriso ácido. 

- O que há com toda essa palidez? Até parece que está vendo um fantasma Baran. - Falei, caminhando para a passagem mínima que ele tinha me fornecido ao abrir o imenso portão de madeira.

Não demorou muito até que Laurent se juntasse a ele, a mesma formação desde a ultima vez que eu tinha cruzado o Limite com Kiros, quando inutilmente fomos em busca dos patrulheiros que tinha saído da vila atrás de uma das Elegíveis. Quando vi o Lobo pela primeira vez, em sua forma lupina.

- A...y..sha, você não deveria...

- Estar viva? - Perguntei, batendo meu ombro contra ele quando passei. - Vão, espalhem por ai, Aysha Nowak, a garota que vocês tanto desprezavam retornou viva do sacrifício, certamente mereço causar alguns infartos! 

E antes que eles pudessem de fato tomar uma decisão eu prossegui caminhando até o coração da vila, até onde eu sabia que Viremont estaria propalando suas mentiras. O palco de madeira construído para sediar o sorteio de sacrifício continuava no mesmo lugar, em frente da pequena capela de fiéis covardes. Eu não podia ter pedido por um momento melhor, subindo no palco, lembrei-me do ultimo momento que estive sobre ele: Aysha Nowak feriu o Lobo.

- VIREMONT! - Gritei, atraindo a atenção das pessoas que aos poucos saiam de suas casas ou das que saiam para ver a origem dos gritos. - VIREMONT!

A porta da capela foi aberta com um rangido e eu vi aquele rosto gordo que tanto odiava ganhar uma expressão de espanto. 

- Seu deus está morto! O deus que você usa para propalar suas mentiras está morto! - Proclamei.

- O que isso significa? - Bradou, olhando para a multidão que se formava. 

- O mesmo que você ouviu, seu porco. - Respondi, virando-me para a multidão. - Por anos vocês jogaram suas filhas, suas irmãs e netas para um monstro em troca de proteção. Os monstros são reais, eles estão lá fora e aqui dentro também. Viremont mentiu por todos esses anos e antes dele o seu pai, avô e quem mais seja, todos homens egoístas e covardes que preferiram sacrificar nossas mulheres a assumir responsabilidades que deveriam ser deles. Eu estive lá fora, vi os monstros, vi cidades e vi o Lobo, mas também vi pessoas que lutavam. O tempo de sacríficos acabou, nenhuma garota será jogada ao Limite novamente!

- Quem você pensa que é para dar ordens, Asyha Nowak? - Disparou. 

Saltei do palco, andando até a direção dele, então reuni todo o ódio que acumulei com os anos e o fechei em um punho acertando o rosto de Viremont. 

- Eu sou o que restou da garota que vocês jogaram aos monstros. - Então acrescentei em um tom mais baixo. - Agora eu te pergunto Viremont, o que acontece quando se joga alguém aos monstros e essa pessoa retorna? 

- Você está louca! - Ele gritou, vendo o sangue jorrar de seu nariz. - Tirem ela de perto de mim! Ela enlouqueceu! 

Sorri, quando constatei que ninguém tinha coragem de interferir. Então arranquei uma das tochas da capela e voltei ao palco, incendiando a base da Pira, o instrumento onde eram colocado o nome das Elegíveis.

- O que será de nós agora? Se você matou o Lobo, quem ira nós proteger? - Uma pessoa na multidão falou, sendo acompanhada por outras.

- Os Patrulheiros! - Respondi. - Damos a melhor carne para eles, os melhores cereais de graça para que eles vigiem o Limite, está na hora deles fazerem por merecer ou deixar seus cargos. Os patrulheiros devem ser a força do nosso povo, com eles lutaremos para manter o que é nosso a salvo!

- Tiron está vindo! - Alguém anunciou. Preparei-me para encarar o chefe da vila e o pai de Kiros.

- Em nome dos deuses, o que está acontecendo aqui? - Perguntou, deixando as palavras morrerem quando me viu. Seus olhos de um azul cinzento eram os mesmos que Kiros havia herdado, assim como a constituição musculosa que apesar da idade de Tiron ainda era visível. 

- Esta garota maldita desafia sua autoridade Tiron, voltou do Limite e faz discursos para o povo dizendo que matou o Lobo! Os céus iram nós condenar se não fizermos algo a respeito! - Viremont falou. 

- Não falei que matei o Lobo. - Contrariei. - Falei que matei seu deus, Viremont. Todas as regras estupidas que criou dizendo que garotas não podiam estudar, ler ou praticar luta, tudo para nos deixar mais burras e fracas, sucessíveis as suas mentiras. Esse deus está morto, porque ele nunca existiu. - Admiti, assim como o Lobo tinha de fato me contado, e porque eu me daria o trabalho de fixar seus costumes? A única coisa que pedi foi um sacrifício, o que fazem das suas vidas não é do meu interesse.  - Mostre a enciclopédia Tiron, está na sua casa, procure por Licantropo e encontrará o Deus que vocês criaram. 

- É a verdade? - Uma mulher perguntou, aos poucos recordei de suas feições, Alena Wald, uma costureira que teve a filha sorteada como Sacrifício três anos atrás. Eu não tinha orgulho em admitir, mas costumava observar as famílias que tinham suas filhas levadas, perguntando-me se para eles o preço valeria. Alena estava destruída, seus cabelos que eram o motivo de seu orgulho durante anos passados, tinham se tornado ralos, olheiras profundas manchavam seu rosto e desde a partida de sua filha ela nunca tinha conseguido costurar outro vestido, era como se nós três anos que passaram Alena tivesse vivido uma vida inteira de dor. 

 - Sim. - Respondi suavemente, recriminando-me por em nenhum momento ter tentado descobrir o que aconteceu com as garotas anteriores a mim. 

- É o suficiente. - Tiron falou. - Aysha venha comigo, ouvirei suas considerações no Conselho e então veremos a melhor forma de resolver esta situação.

Concordei passando pela multidão que abria caminho para Tiron. Ninguém ousou contesta-lo ou fazer mais perguntas. O Conselho significava a reunião de todas as figuras de poder da vila: Tiron, Viremont, Gustav e Ethan, o que fosse decidido ali seria comunicado para os moradores posteriormente. 

Quando enfim chegamos a casa principal, onde Tiron residia e onde as reuniões do Conselho eram feitas, senti meu estomago embrulhar, eu vinha adiando os acontecimentos da ultima noite na esperança de substituí-los revelando a verdade para Sweney Pines, uma pequena tolice. As condições que tinham-me feito chegar até aqui não podiam ser esquecidas e tão pouco deveriam. 

Ele não permitiria. 

Não depois do que fiz.

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