Capítulo 4

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𖧹 Este Capítulo apresenta sintomas de início de síndrome do Pânico ( Episódio súbito de medo ou ansiedade intensos e sintomas físicos baseados em uma ameaça imaginária, sem haver perigo iminente

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𖧹 Este Capítulo apresenta sintomas de início de síndrome do Pânico ( Episódio súbito de medo ou ansiedade intensos e sintomas físicos baseados em uma ameaça imaginária, sem haver perigo iminente.), Se for sensível ao assunto pule o Capítulo quando ver o símbolo “➵”

The miles are getting longer, it seems The closer I get to you I’ve not always been the best man or friend for you But your love remains true And I don’t know why You always seem to give me another try.
— Chris Daughtry, “Home”

O problema que me chamam para resolver no bar é que a mulher de um dos caras entrou em trabalho de parto e ele tem que ir embora.

Não dá para chamar outro barman tão em cima da hora, então, como acontece às vezes, assumo a função que executei por anos.

Isso faz com que eu não possa dar muita atenção à Shivani, já que a balada do Batidas Perdidas é ainda mais movimentada que a do bar onde eu trabalhava quando nos conhecemos. Pois é... Precisávamos de um nome, esse não saía da minha cabeça e é de certa forma uma homenagem ao pai do Lamar e da Shiv. Então fechou.

Agora parece que uma força superior está brincando com nossas lembranças.

— Cara, eu posso ficar no bar — Pepe diz, se aproximando e tirando dois chopes para um cliente.

— Tá tranquilo. — Nem dou muita conversa. É melhor que ele não perceba que tem algo acontecendo.

— Não, meu. Vocês acabaram de se reencontrar. Vai lá ficar com ela — ele aponta para Shivani.

— Deixa assim, Pepe. — Abaixo sua mão, antes que chame a atenção dela.

— Tá certo. — Ele franze o cenho. — O que tá pegando?

— Nada — respondo. Ele pousa a mão no meu ombro e eu o encaro.

— E aí? — Pensa num cara insistente.

— E aí que tô feliz pra caralho! — Forço o maior sorriso que ele já viu.

— Você não parece feliz pra caralho. — Pepe cruza os braços ao perceber minhas encaradas na direção do Noah. — Na verdade, parece um adolescente. Tem algo a ver com o Noah?

Às vezes odeio essa nossa cumplicidade.

— Porra, Pepe, não começa.

— Não tô começando nada, mas isso me preocupa. O que eu perdi dessa conversa?

— A Shiv quer ir com calma — digo o que ele quer ouvir ou ele não vai parar de falar.

— Certo. Sabe que isso não é ruim, né?

— Ah, cara... — o bufo que tento conter acaba escapando.

— Qual é o problema? Além desse.

— Nenhum. É que... — Shivani ri alto de algo que Noah disse e meu olhar recai sobre os dois.

— Você acha que eles ficaram. — Ele me conhece bem demais para não sacar o que estou pensando.

— Como não achar?

— É... Seria estranho se não tivessem tentado. — Ele coça a testa. — Estavam sozinhos lá e tal...

— Puta que pariu! — digo em voz alta e me viro de costas para eles, torcendo para que Shivani não tenha. — Você tinha que me dar moral agora, cara? Se eu quisesse ouvir esse tipo de coisa, tinha ido falar com a Sabina.

— É... Vamos continuar falando da Shivani, por favor — ele diz, e eu não sei se é o que ele quer. Parece que foi uma tentativa deliberada de me distrair, mas isso pode ser bom.

— O que tá pegando? — devolvo a pergunta que começou essa conversa.

— Melhor seria quem tá pegando...

— Cara, vocês se pegaram de novo? — Nem sei por que estou surpreso. Os dois terminaram há meses, mas não é a primeira recaída deles.

— Sim.

— Agora engata, será?

— Sei lá. A Sabina e eu... De novo? — Ele parece refletir por um instante. — Pra que recomeçar algo que já não deu certo?

— Tá querendo me foder hoje, né? — Solto uma risada triste. — Shivani e eu... De novo?

— Que merda. Desculpa. Tô meio aéreo — ele tenta se justificar. — E, de qualquer forma, são situações diferentes.

— Por quê? — Eu me viro de novo para o balcão e ouço um pedido do cliente.

— Porque a Sabina e eu não temos a mesma carga emocional que vocês carregam — ele explica, e eu ouço calado, pegando a coqueteleira para preparar uma caipirinha de morango.

— Nós dois não damos certo e eu não faço ideia da razão. Sei lá. Sabe quando tem tudo para dar certo, mas não dá? Sua situação é diferente. Você sabe por que não deu certo com a Shivani. Foram as drogas. Você tá limpo agora e vocês têm uma chance grande de fazer tudo funcionar. Eu tô bem confiante.

Pepe cuida de mim desde que me lembro. Nem ligo mais de assumir isso para mim mesmo. Tem horas que é preciso admitir que precisamos de ajuda e pronto. Ninguém é uma fortaleza. Meu amigo tenta agir de uma forma meio displicente para não ficar tão na cara, mas há anos sei que minha felicidade importa tanto para ele quanto a dele próprio.

Não respondo nada. Abro a torneira e fico observando o fluxo de água. Sinto a apreensão de Pepe sem precisar olhar para ele.

Olho à minha volta: bebidas, cigarro, mulheres... Estou cercado de tudo aquilo que devo evitar.

Quando Lamar nos propôs sociedade, Pepe e eu conversamos muito. Mas, depois de tudo que passei, desisti de fugir da vida, e, se tinha que ser uma tentação diária, então que fosse. Eu superaria um dia de cada vez.

Ironicamente, não tinha sido tão difícil assim — até agora. Sinto uma vontade insuportável de beber. É irônico porque minha mudança foi motivada pela Shivani. Eu estava cansado de ser o cara que se autodestruía. Mudei por mim e por ela.

Mas é justamente a presença dela que faz com que eu queira fugir de novo.

Apoio as duas mãos no balcão. Não demora muito e começo a hiperventilar e sentir meu corpo estremecer.

Pepe fecha a torneira e me diz:

— Respira.

— Ah, não... De novo isso não... — Estou apavorado. Minha cabeça e estômago doem. — Pepe, me tira daqui. Preciso ir pra casa antes que a Shivani perceba — digo, apesar de saber que é tarde demais.

Em questão de segundos, Pepe diz algo para o barman responsável e toca minhas costas.

Lamar se aproxima com o semblante preocupado e percebo que em algum momento Pepe deixou que ele entendesse o que estava acontecendo.

— Eu fico no bar até o movimento acalmar — Lamar diz, apreensivo, quando já estamos passando pela portinhola.

No momento, estou me esforçando ao máximo para não surtar e desabar no meio da balada.

Ouço a voz da Shivani, mas, se eu me concentrar nela, vou ser sufocado por temores que eu nem sabia que tinha.
Assim, me concentro no Pepe, enquanto respirar fica cada vez mais difícil.

⏭  ▶ ⏮

Parece que as milhas estão ficando mais longas/ Quanto mais me aproximo de você/ Eu nunca fui o melhor homem ou amigo pra você/ Mas seu amor continua verdadeiro/ E eu não sei por que/ Você parece sempre me dar outra chance.”

A Escolha Perfeita do CoraçãoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora