Especial de Natal

1.1K 155 150
                                        

  Sinto a neve bater no meu rosto ao olhar para cima. Estava frio, muito frio. Eu tinha um objetivo aqui fora: ir ao mercado e comprar dois refrigerantes. Não tenho nada para beber junto com a comida. Nunca fui de comemorar o Natal, afinal, para que vou comemorar o nascimento de alguém que me abandonou quando eu era criança? Se houver algum Deus por aí, Ele com certeza não viu nada benéfico em mim e não quis perder Seu tempo comigo.

  Olho no relógio de pulso que estou usando. São oito e meia. Ainda há tempo, no dia 24 os mercados fecham às nove da noite. Olho a última mensagem que recebi de Mikasa, que fora hoje mais cedo.

  Eu e Jean vamos passar este Natal na Austrália.

  Pois é. Sem Mikasa este ano. Eren e Armin também me enviaram uma mensagem ontem à noite.

  Vamos visitar uns velhos amigos nossos. Mals.

  Risquei eles da lista também. Nem conto com Erwin e Hanji; cada Natal eles viajam para algum lugar diferente, somente os dois.

  Minha equipe... Todos têm famílias e amigos com quem passar essa data. Meu irmão? Voltou para o Japão mês passado e levou aquela policial que atualmente é a namorada dele consigo. Respiro fundo, aperto minha bolsa no meu ombro novamente e sigo meus passos para o mercadinho.

  Apesar de ser quase nove horas da noite, estava tão escuro e parado que dava a impressão de que é madrugada. O que Levi está fazendo agora? Será que está bem? Eu penso. Ele me disse que ocorreu uma missão urgente no esquadrão em que estava, o Esquadrão Zacharias. Infelizmente, ele passará a noite trabalhando por conta disso. Foi uma pena, pois eu tinha preparado uma coisa interessante para nós dois para comemorarmos o aniversário dele, que, coincidentemente, é no próprio Natal.

  Farlan e Isabel? Não gosto de pensar nisso...

  Pois é, Lara... Sem amigos, irmão ou namorado à disposição.

  Penso. Meu subconsciente está certo. Sempre fui uma fodida na vida, não posso ficar surpresa com algo assim. Chuto uma pedra que estava sobre a neve e adentro o mercadinho com a pior cara que eu poderia fazer. O que eu poderia comprar aqui além dos refrigerantes? Será que preciso de algo?

  Talvez mais sorte.

  Rio. Sim, meu subconsciente está sempre certo. Mas, infelizmente, sorte não é coisa que se compre, é coisa que se nasce com.

  Ao chegar no caixa, a atendente sorri para o último cliente e sorri novamente ao me chamar. Eu conheço esse sorriso. É falso. Você não queria estar trabalhando em plena véspera de Natal, não é, moça?

-Muito obrigada, boas festas.

  Ela dá outro sorriso ao terminar de passar minhas compras. Tento curvar meus lábios também para retribui-la, mas só sai um sorriso amarelo mal-feito. Desculpe, moça.

  Com as sacolinhas do mercado em mãos, saio de lá com o mesmo humor que estava quando entrei, mas com a diferença do peso das bebidas. Aproveitei e comprei um vinho também. O que custa me embebedar um pouco para tentar esquecer essa podridão que eu sou? Alguns neurônios, na certa. E um pouco do meu fígado. Mas eu não ligo. Sei que isso tudo não vai adiantar nada, já que não fico bêbada nunca, então não é um vinhozinho de mercado de esquina que vai mudar isso.

Continuo andando até estar frente a frente com a portaria do prédio em que eu morava. Olho para cima e aviso meu apartamento daqui, que estava enfeitado apenas com poucas luzes azuis. Será que devo entrar? Sei que vai ser a mesma porcaria de sempre, somente eu, minha gata e minha guitarra. Quer dizer, mesma porcaria quando Levi sai para trabalhar até mais tarde, claro. Ele sempre anima as coisas, sinto falta dele nesses momentos.

Assassino PerigosoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora