XXXV

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Samuel


Talvez seja o analgésico, mas eu posso jurar que ouvi a voz de Juliana falar "esse idiota vai acordar todo dolorido amanhã, não adianta nada ser bonito se é burro", mas parece muito com o tipo de coisa que acontece em sonhos, então quando abri os olhos de verdade pela manhã, deitado no sofá e com uma baita dor nas costas, talvez meu sonho tivesse certo e eu fosse bonito e burro, porque eu ficaria dolorido o dia inteiro.

Mas como assim, eu sonhando com Juliana falando esse tipo de coisa pra mim? Desde quando eu sonho com esse tipo de coisa? É o analgésico. Com certeza é o analgésico.

Senti o cheiro do café da manhã e não demorei a sair do sofá, ainda que com as costas doendo e a cabeça pesada. A passada pelo banheiro foi rápida e quando cheguei à cozinha, Juliana estava terminando de arrumar a mesa do café da manhã e me olhou de um jeito estranho, quase analisando como eu estava.

- Você devia ter ido pro quarto, Samuel, aquele sofá é pequeno demais pra você passar a noite inteira.

- Desde quando você se preocupa com meu bem estar? – perguntei num tom debochado.

- Me faço a mesma pergunta a seu respeito desde o começo do tornado em Los Angeles, mas ainda não encontrei a resposta. Se você souber, talvez eu use a mesma pra justificar isso. – respondeu, dando um sorriso quase debochado. – Eu preciso ir até a biblioteca, você pode me emprestar seu carro? Eu volto rápido.

- Tudo bem. Você chegou muito tarde? – perguntei sentando à mesa e ela fez o mesmo, do outro lado, e deu de ombros.

- Acho que era uma e pouca. Eu tentei te acordar, mas você nem se mexeu. Sentiu dor e por isso tomou o remédio?

- Um pouquinho.

- Toma café, vou olhar como está e, dependendo, vamos ao hospital.

- É muito estranho você estar preocupada assim, fala alguma coisa desaforada e seja a estúpida que sempre é.

- Vá se foder. – falou, dando um sorriso falso. – Na próxima, eu deixo sua mão cair e você morrer afogado no seu próprio sangue.

- Isso, agora sim parece com o ser humano horrível que você é. – respondi debochado e ela mostrou o dedo do meio. – Mas acho que não tem nada errado, só incomodou um pouco.

- Será que tem algum vidro dentro?

- Duvido, teria doído muito se tivesse. – respondi, mas ela não voltou a falar, apenas começou a tomar o café da manhã despreocupada, deslizando o dedo pela tela do celular e parecia ler alguma coisa.

O café da manhã foi silencioso como sempre, Venom passou pela cozinha, mas não se deu ao trabalho nem de me olhar e foi para o exterior da casa, aproveitar o sol. Thor estava na beirada da piscina e não parecia muito disposto a sair de lá tão cedo.

Juliana ficou olhando o corte na minha mão por alguns segundos, limpou o corte, passou a pomada de novo e exigiu – e essa é a palavra correta pra usar! – que eu ficasse quieto e não encostasse em nada, porque deixaria sem a bandagem até voltar, pois a pele precisava respirar.

Passei a manhã quase inteira sozinho, no quintal, sentado na sombra e observando o céu azul e a preguiça de Thor e Venom. Até ver a senhora Dawson se aproximando da cerca, toda sorridente e parecia esperar Juliana, claro, as duas tinham começado uma amizade absurdamente improvável por causa de plantas. Juliana não entendia absolutamente nada, mas ficava lá conversando com a senhora Dawson a respeito, ouvindo a mulher contar histórias das plantas e outras coisas que, provavelmente, nem eram tanto de seu interesse.

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