XXVI

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Samuel


Quando desliguei o telefone, depois de passar uma semana inteira tentando falar com o síndico do meu prédio, eu preferia nem ter falado com ele, as notícias foram totalmente desanimadoras e ele foi um idiota ao falar comigo. Eu só queria desfazer o contrato, alugar outro apartamento e viver minha vida longe da irmã do Harry eternamente.

As coisas andam muito estranhas naquela casa, inclusive. Juliana e eu não estamos brigando e nem implicando um com o outro como é habitual. Não somos amigos, de jeito nenhum, mas não estamos trocando farpas, não há implicâncias e ela não tem enchido meu saco como sempre faz. Nós ficamos quietos quando precisamos estar perto um do outro. Totalmente calados. Zero provocações. Zero xingamentos. Zero ódio gratuito e desmedido. O que é ótimo se for parar pra pensar como um ser humano normal, mas é aquele tipo de silêncio estranho e que parece preceder uma catástrofe.

Ela nem mesmo falou mal da minha comida! E ela sempre fala.

Bom, eu também não falei mal da comida dela quando ela cozinhou outro dia, num estranho lapso de boa vontade, mas estava realmente gostoso e eu não tinha como colocar defeito em alguma coisa que não tinha defeitos.

Depois do dia dos namorados – em que nós acabamos assistindo aquele filme horrível e do qual eu me arrependi amargamente, porque passei a noite acordado – nós meio que entramos numa espécie de pausa tácita, ninguém falou nada para estabelecer a paz, apenas foi estabelecida num silêncio assombrador.

Na verdade, desde o dia que ela jogou o controle na minha cara as coisas ficaram menos bélicas. Depois daquilo, ainda que tenhamos trocado uma ou outra implicância, foram coisinhas pequenas e insignificantes, mas as coisas estranhas (tipo eu sendo legal com ela e ela não sendo pau no cu comigo) estavam acontecendo com bastante frequência. Agora estávamos em total paz. E isso é absolutamente errado e assustador quando se trata de Juliana Bennett e eu. Alguma coisa vai dar errado muito em breve, eu posso sentir.

A ligação que eu ouvi com a mulher, sobre maquiagem, entrevista de emprego e abrigo, me deixaram um pouco mole, confesso. Principalmente depois de ter fuçado o perfil de Juliana no Instagram para ver se ela se promovia usando de caridade, mas ela não o fazia. Não existe absolutamente nada que diga respeito a algum trabalho voluntário ou a abrigos em suas redes sociais. Não havia fotos, vídeos ou posts. Ela simplesmente ajuda essas pessoas sem nenhuma intenção de se promover e mostrar que é uma pessoa boa. O que me surpreendeu, porque ela é totalmente fútil (tudo bem, isso é meu lado implicante falando) e imaginei que propagaria a imagem de white savior, mas ela não faz nada disso.

E fiquei um pouco chocado quando vi que ela tinha feito um post sobre vegetarianismo estrito e como estava se adaptando às refeições sem nada de origem animal, mas que ainda estava pesquisando sobre produtos e roupas pet friendly, porque por enquanto estava apenas no vegetarianismo estrito, mas a ideia do veganismo lhe agradava muito.

E que em breve ela falaria sobre, queria pesquisar bastante sobre o tema e conversar com pessoas que entendessem do assunto para poder falar a respeito sem passar informações erradas para seus três milhões de seguidores no momento (é, ela é famosa).

E, bom, ela falou.

Comigo.


- Samuel, posso falar com você? – ouvi quando Juliana entrou na sala.

- O que você pretende jogar em mim agora? – perguntei desconfiado.

- Nada, se você não merecer. – respondeu, sentando-se no outro sofá. – Só queria te perguntar se você se importa de aparecer em um vídeo do meu canal no YouTube pra explicar as diferenças nas linhas do vegetarianismo e do veganismo e algumas outras coisas que achar importante dizer sobre isso.

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