Capítulo 10 - E para mim, só eles bastam. Só eles e mais ninguém.

308 26 1
                                        


Definitivamente meu sábado foi uma merda total. Tudo começou quando cedi aos meus desejos carnais pelo Viegas, piorou quando encontrei aquela velha fuxiqueira e meu dia foi por água a baixo quando em uma batida policial acabei tirando a vida de um homem e ainda por cima baleando um inocente e por causa disso (pois fui ajudá-lo sem pensar no perigo por ficar tão exposta) quase parti para o andar de cima quando fiquei na mira de um fuzil, se não fosse por Viegas, aqui eu não estaria, com certeza. 

Era visível meu possível abalo perante a morte. Eu morreria, você tem noção disso? E quando Viegas foi tentar me abraçar em apoio ou conforto, sei lá, eu o enxotei. Eu não queria ser fraca. Eu não daria aquele gostinho aqueles homens que acham que a 9ª DP não era meu lugar. Eu preferiria contestar minha existência em outro lugar. Em um lugar no qual, minhas angústias e medos sempre dão as caras em momentos como estes.

E agora eu estava aqui, as três da madrugada sem conseguir dormir, pensando em toda a merda em que me afundei no dia anterior. Mesmo que eu odiasse admitir, hoje eu me sentia impotente e frágil. Sim, frágil. O meu passado caía por sobre meus ombros sem titubear e naquele momento eu pensava em tudo o que havia me feito chegar até aqui. Eu gostava de ter tudo sob o meu controle, entretanto, às vezes a realidade me espancava de forma dolorosa. Eu não podia simplesmente controlar as pessoas ao meu redor, não podia fazer do mundo um lugar menos cruel. Gostaria de não ser sentimental às vezes, de passar por situações de quase morte com a maior naturalidade do mundo e tirar vidas como se fossem frutas em uma árvore.

Mas aí eu lembro deles.

E eu não poderia me tornar igual ao homem que tirou a vida de um casal na frente da filha deles de apenas 11 anos.

Não. Eu não posso me tornar o assassino de meus pais.

O dia que sempre voltava a minha cabeça quando eu abaixava minha guarda.

O pior dia de minha vida. O dia que meu pai tirou folga para comemorar meu aniversário. Estávamos voltando do parque de diversões que na nossa cidade era montado uma vez a cada semestre. E naquele ano tive a "sorte" deles abrirem na semana do meu aniversário. Era o melhor dia da minha vida até eles serem arrancados de mim, com crueldade e sem arrependimentos.

O sujeito nos abordou para nos assaltar, ele queria as joias que mamãe usava. Eu comecei a chorar o que pareceu irritar o homem. Meu pai como bom policial tentou acalmá-lo e garantia que ele sairia dali com os pertences. Mas o que aconteceu a seguir me marcou definitivamente. Não sei como e nem porque, mas o sujeito reconheceu meu pai e lhe jurou fazê-lo passar pela mesma dor que ele, meu pai, o fizera passar.

Não deu nem tempo de processar tais palavras quando um estrondo foi ouvido e no segundo seguinte minha mãe caia por cima de mim. Lembro-me do vestido florido que ela adorava quando eu vestia-o manchado de sangue. Sangue que não era o meu, e sim de minha mãe que havia se jogado a minha frente recebendo aquela bala, que tudo indicava ser para mim o alvo dela.

O grito de desespero de meu pai foi o segundo som ensurdecedor que ouvi naquela noite. Ele se ajoelhou em nossa frente e aparou minha mãe em seus braços enquanto gritava em desespero. O terceiro som do qual escutei foi a risada do sujeito que se contemplava pelo feito. Não pude mais encarar o homem a minha frente porque meu pai puxou minha cabeça para recostar em seu peito e sussurrar um pedido de desculpas depois de dizer que me amava.

E tudo não passava de borrões pelos meus olhos cheios de lágrimas quando vi meu pai movimentar-se em direção ao seu bolso interno do terno mas foi quando ele virou-se com tudo para direção do homem, foi quando ouvi o quarto som angustiante daquela noite do meu tão esperado aniversário de 11 anos. Não era som de fogos, balões de festas estourando, cornetas nada daquilo. Era o som do tiro que tirou meu pai de mim... também.

Aprendendo a amar!Histórias para pegar e não largar. Descubra agora