Capítulo 68 - Pertencimento

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Meus olhos pesam tanto que não consigo abri-los, mesmo após muito esforço. O barulho irritante do despertador, combinado ao meu celular tocando a música que escolhi para acordar todos os dias, soa ao fundo da minha mente. Bem ao fundo. Eu sei que preciso acordar, mas o sono ainda é mais forte. Entre uma nuvem de inconsciência e um pouco de realidade, consigo sentir os braços de Poncho ao meu redor, o seu calor corporal fazendo a cama mais quente e aconchegante do que nunca.

Lembrar dele me faz sorrir um pouco mais desperta. A noite de ontem foi muito especial, muito mais do que eu possa ter desejado um dia. O carinho e o cuidado a cada pequeno detalhe para acabar com minha dor me deixou encantada, claro que minhas emoções estão um pouco mais afloradas, porém independente disso, ele só se torna perfeito a cada gesto e palavra, e deixa impossível a opção de não o amar imensamente.

A Anahí de antes já não tinha tantas coisas em comum com a de agora. Tudo porque me permiti. Me permiti ser amada e amar.

Agora eu estou quase acordada, muito sonolenta e a minha mente trabalha como uma tartaruga, mas é o bastante para que eu ouça perfeitamente o despertador e me desespere um pouco... estou atrasada, eu quase posso garantir, mesmo antes de abrir os olhos e confirmar se dormi ou não demais. Os braços de Poncho estão tão presos em minha cintura, que eu me sento, esfregando os meus olhos e afastando o cabelo bagunçado do rosto, mas ainda assim ele não me solta. Isso me faz sorrir mais ainda, embora eu não esteja totalmente acordada. Meus olhos viram-se para ele e meu coração transborda de alegria.

Ele dorme como um garoto sem preocupações, o seu rosto sereno e lindo, fazendo a vontade de tocá-lo ser imensamente forte. Eu acaricio o seu cabelo e beijo o canto da sua boca, antes de depositar a minha atenção no despertador ao lado da cama. Eu o desligo e percebo que o meu celular ficou na sala ou na cozinha. Não sei ao certo, mas isso explica o fato da música soar tão distante. Tento me levantar, afastando as mãos dele com delicadeza, mas ele somente me aperta um pouco mais.

— Poncho, são sete e trinta. — Eu informo, tocando o seu rosto.

— E daí? — Ele me pergunta, sem abrir os olhos.

— Eu deveria ter me levantado há trinta minutos. — Eu pontuo, esperando que essa informação seja o bastante, mas ele nem se mexe. — Eu preciso trabalhar e você também.

— Hoje eu posso chegar mais tarde.

— Mas eu não, me deixe levantar. — Ele abre os olhos e sorri para mim e essa a melhor sensação do mundo agora, acordar com alguém que te ama ao seu lado. Eu me sinto incrível, de um jeito que nunca me senti antes. — Poncho, eu não posso me atrasar. — Reforço, quando ele ainda me mantém presa e não para de me olhar. Nada nunca se igualará a sensação que me percorre quando nossos olhares se encontram. Eu sei que é ele. Ninguém nunca me fará voar tão alto assim.

Pertencimento.

Acho que o pertencer a alguém, em alguns relacionamentos, não é algo que deve ser interpretado em seu sentido literal. O fato de pertencer a alguém, nada mais é, do que se sentir por inteira, se compreender e desejar que a outra pessoa tome posse de seu corpo ao mesmo tempo que compartilha o dela, tocando o fundo do peito.

Agora, se o conceito de pertencimento for qualquer significado fora isso, caia fora!

Senti seus dedos movendo-se preguiçosamente em meu quadril, fazendo com que eu mordesse os lábios. Admirei seus olhos esverdeados, pequenos e estreitos de sono. Suspirei, passando minha mão em sua barba rala, sentindo seu corpo estremecer sobre o meu. Soltei um riso, vendo seus lábios se abrirem em um pequeno sorriso safado.

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