Dante
Faz duas semanas que eu não durmo direito. Duas semanas que o cheiro dela parece mais forte nesta casa, mas o corpo continua distante, gélido, me matando aos poucos.
Eu me tornei um miserável. Um tipo de homem que eu sempre desprezei: o cara que fica espiando pelos cantos, medindo cada passo da própria mulher porque sabe que a perdeu dentro do próprio teto. Virou um hábito doentio, um vício febril. Quando ela achava que estava sozinha no terreiro ou no corredor, eu estava lá, nas sombras das árvores ou atrás das portas entreabertas, vigiando o rastro dela. Olhava a curva do pescoço, o jeito miúdo como ela andava, a fragilidade que me dava vontade de ajoelhar e pedir perdão pelo bicho que fui no escritório.
Quando o dia clareou na fresta da janela, eu ainda estava colado às costas dela. Minha mão — imensa, calejada, com os nós dos dedos rígidos e quentes — pressionava o ventre dela num movimento lento, em círculos minúsculos, tentando desesperadamente aliviar aquela cólica infernal. Minha respiração batia pesada contra a nuca dela. Eu não tinha pregado o olho. Passei a noite inteira em claro, vigiando o sono dela, com medo de que ela se esgueirasse da cama se eu dormisse.
Ela não correspondeu ao toque. Não recostou a cabeça no meu peito, não buscou o meu calor. Mantinha o corpo firme, rígido, a espinha ereta sob o cobertor pesado.
— Tá doendo muito ainda, garota? — perguntei, a voz saindo grave, rouca pelo sono não vindo e pela tensão que me rasgava a garganta.
Eu não era mais o patrão da Fazenda Medeiros ali. Era um homem desarmado, implorando em silêncio para não ser odiado.
— Tá — ela respondeu seca. A voz curta, sem vida, plana.
Soltei um suspiro pesado. Afundei o rosto no cabelo desgrenhado dela, apertando-a contra mim com uma força contida. Se eu frouxasse o abraço meio centímetro, tinha a impressão de que ela sumiria.
— Fica quieta — murmurei contra os fios dela. — Você não vai levantar hoje. Não quero ver você pisando nesse chão frio.
— Você não manda em mim, Dante — ela retrucou, mantendo a mesma distância congelante.
O tom doeu mais que soco no estômago. O antigo Dante teria esbravejado, mas eu apenas engoli em seco, apertando a mão no ventre dela com um desespero mudo.
Ouvimos três batidas leves na madeira da porta. A Milena tensionou na hora.
— Seu Dante? Trouxe a bandeja que o senhor pediu... — a voz cautelosa de Marta veio do corredor.
— Deixa aí na porta, Marta! — ordenei, mantendo a voz firme, sem erguer excessivamente o tom. — Não entra agora não. Deixa no chão que eu pego.
— Sim, senhor... com licença.
Esperei os passos de Marta sumirem antes de me mexer. Afastei o cobertor devagar e me levantei. Peguei a bandeja no corredor — com o bule fumegante, pão de queijo e o chá de ervas que a velhinha da colônia me jurou que curava dor de mulher —, além da cartela de remédio e do copo d'água que eu já tinha preparado na cabeceira.
Sentei na beirada do colchão, fazendo a cama afundar. Estiquei a mão enorme para o ombro dela.
— Senta um pouco, Milena. Toma esse remédio com a água aqui. Depois toma o chá.
Ela olhou para o remédio, para a água e para mim. O rosto dela era uma máscara gélida. Pegou o comprimido e o copo diretamente da madeira, desviando das minhas mãos como se a minha pele queimasse. Engoliu, tomou a água e colocou o copo no lugar.
— Obrigado — disse ela, cortante como navalha. — Já posso ficar sozinha?
Meu maxilar travou. A frustração de ver aquela barreira inquebrável erguer-se na minha frente me dava vontade de socar a parede, mas eu sabia que, se rugisse, só a afastaria mais.
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Rendida ao Monstro
RomanceEla cresceu aprendendo que o mundo não era feito para pessoas frágeis. A infância foi construída entre silêncios sufocantes, olhares tortos e traumas que se alojaram tão fundo em seu peito que transformaram sua existência em um constante estado de a...
