Duas semanas. Duas semanas inteiras de um silêncio sufocante, em que a casa grande parecia um cemitério e o Dante virou um fantasma que me rodeava sem saber como me tocar.
Ele tentava. Trazia o cavalo até o quintal só pra me ver, deixava doces que a dona Maria fazia no meu lugar da mesa, e até diminuía a voz quando falava com os peões se eu estivesse por perto. Mas eu fugia. Cada vez que ele dava um passo na minha direção, eu dava dois para trás. O orgulho dele não deixava ele pedir desculpas direito, e a minha mágoa não deixava eu esquecer o som da madeira do escritório estalando na minha cabeça.
A luz amarelada que entrava pelas frestas da janela parecia pesada demais. Acordei sentindo o peso esmagador do braço de Dante ao redor do meu corpo. O peito dele subia e descia ritmado contra as minhas costas, o cheiro de sabonete e suor impregnado na pele morna que me prensava contra o colchão.
Minha cabeça latejava. Lembrar das últimas duas semanas me dava uma mistura vergonhosa de alívio e nojo. O mesmo homem que tinha me escorraçado no escritório, gritando que eu não era nada naquela fazenda, foi o homem que me pegou no chão do banheiro, segurou meus cabelos enquanto eu vomitava e me deu água na boca com delicadeza. E que, desde então, vinha correndo atrás do meu rastro feito um bicho acuado.
Ele achava que podia me destruir de dia e me juntar do chão à noite.
O pior de tudo era que, por mais que meu peito estivesse em cacos, eu gostava do cheiro dele. Gostava do calor da pele dele colada na minha. Peguei-me encarando as mãos grandes e calosas dele repousadas na minha cintura, com uma vontade idiota e involuntária de entrelaçar meus dedos nos dele, de agradá-lo só para ver o olhar dele ficar macio de novo. Eu o desejava tanto que me odiava por isso.
Uma fisgada funda e contínua no pé da minha barriga me fez encolher as pernas e soltar um ganido baixo. Senti um calor úmido descer entre as minhas coxas e o pânico infantil quase me fez chorar. Aquela era apenas a terceira vez na minha vida inteira que aquilo acontecia. Meu corpo sempre foi desregulado por causa do medo, do isolamento, da fobia sufocante de existir no mundo dos adultos. A menstruação ainda era um bicho estranho, algo meio assustador que me deixava com vontade de me esconder debaixo da coberta e chamar minha mãe.
Me desvencilhei do braço dele devagar. Dante resmungou no sono, a testa franzida por um segundo, mas não acordou. Me esgueirei para fora da cama, sentindo as pernas bambas, e me isolei no banheiro.
Tranquei a porta, encostei as costas na madeira fria e encarei o teto, abraçando a minha própria barriga.
— Por que agora? — murmurei para mim mesma, o tom sumindo no ruído do encanamento.
Lavei a calcinha na pia com as mãos trêmulas, com uma calcinha nova ajeitei o absorvente grande que tinha na gaveta e olhei para o espelho. Meu lábio inferior continuava levemente inchado e cortado do beijo bruto de dias atrás. Eu parecia uma criança pequena que tinha caído do balanço e que ninguém veio socorrer.
— Não vai chorar, Milena. Você não tem dez anos — sussurrei para o meu próprio reflexo, tocando a pele ferida do lábio.
Desci para a sala de jantar a passos curtos, abraçando a mim mesma para tentar conter a cólica. Dante já estava sentado na cabeceira, a xícara de café fumegando na mão. Quando apareci na porta, ele me encarou fixamente, soltando o jornal sobre a mesa.
Apertei os dentes, forcei o queixo para cima e me sentei na cadeira mais distante.
Ele me observou servir um pouco de chá.
— Come um pedaço desse bolo de fubá. A dona Maria fez para você.
— Não quero, senhor.
Dante travou a mão no ar, a xícara no meio do caminho. As sobrancelhas grossas se juntaram numa linha perigosa.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Rendida ao Monstro
RomanceEla cresceu aprendendo que o mundo não era feito para pessoas frágeis. A infância foi construída entre silêncios sufocantes, olhares tortos e traumas que se alojaram tão fundo em seu peito que transformaram sua existência em um constante estado de a...
