A vida parece mais dificil quando ninguem entende o que você fala, e você não é suficientemente bom para se expressar através da arte. Parece que tem uma infinidade de coisas que eu preciso trabalhar em mim mesmo.
Meu corpo, minha saúde e minha aparência, minha mente, minha carreira, minha fé, meu emocional e meu psicológico, minha relação com as pessoas, meus hobbies... Eu nem se quer tenho parado para pensar em melhorar meus defeitos, em ser uma boa pessoa, em crescer para ser um homem descente além do adolescente emo.
E então tudo é efêmero, finito.
O físico da juventude, as oportunidades, os relacionamentos. Toda a bolha que me sufoca estoura perante meus olhos, sem me deixar tempo pra aprender a tolera-la.
A última partida de futebol veio primeiro, o estádio cheio, as lideres de torcida segurando as lágrimas, todos com os olhos brilhando como se "Now or Never" de High School Musical 3 pudesse começar a tocar a qualquer instante. É agora ou nunca, a última chance de ganhar o campeonato interescolar, e logo contra nossos maiores inimigos. Quão dramático!
O capitão do time hoje, amanhã não será nada além de outro "ex-jogador". Mas meu coração só pensa que entre a maioria de pessoas aqui que eu desgosto, tem algumas que eu vou lembrar pra sempre com carinho, e tem meu namorado absurdamente lindo de uniforme.
Meu namorado.
Meu primeiro amor de verdade.
Meu namorado de ensino médio.
Eu preciso beijar ele no vestiário antes de nos formarmos, e na biblioteca, e na cantina, e de baixo da arvore no pátio dos fundos, e em alguma sala de aula.... Talvez eu precise de uma lista. Por que agora parece que tem tantas coisas que eu gostaria de fazer aqui?
A energia da partida foi incrível, a urgência pela vitoria, e a dedicação de aproveitar cada segundo, um sentimento de pertencimento tão forte que fez eu me sentir quase intruso. Nós ganhamos, nós comemoramos. Com toda a euforia da coragem adolescente Lance me beijou no meio da quadra.
E tudo o que restou foi o sentimento de irrealidade. Acho que no fim do dia, tentar dormir continua sendo apenas tentar dormir. E não importa a realidade feliz e distante do dia que passou, a insônia ainda amarga com os traumas mais antigos e agonizantes.
O menino órfão chora pelo abandono. O menino que sofre bullying chora por ser patético a ponto de motivar outros a atacarem, e ser fraco demais pra se defender. O menino feio, insuficiente, gay-apaixonado-na-friendzone, sofre por existir.
Mas quando o sol nasce no outro dia, já não é tão dificil perceber que o órfão já foi adotado, o bullying não é culpa da vítima, e que sendo feio ou não, agora eu namoro Lance.
A vida parece mais dificil quando ninguém entende você, o que você diz, o que você pensa, como você vê o mundo. Uma vez que você tem alguém com quem conversar, alguém para rir dos absurdos e acompanhar os esquemas e planos pro futuro, tudo fica mais fácil, os problemas começam a parecer uma parte da vida, e eu sinto como se eu tivesse sido meio exagerado pra ter deixado eles me consumirem.
- A gente precisa de uma música que seja punk mas que seja pop, que seja original mas que a plateia sinta que já conhece, que seja fácil de espalhar mas tenha significado. - Pidge disse desesperada, andando de um lado pro outro - Eu quero uma música que viralize no tiktok mas tenha valor artístico! Você pode fazer isso?
- Uma música que viralize no tiktok? Você quer uma música minha ou da Olivia Rodrigo?
- Eu posso coreógrafar uma dancinha. -Lance se empolga precipitadamente- Tan tan tan tan....
- Eu nem tenho tiktok! - questiono
- Não importa! Você é gay!- a garota exaspera- Olha seu namorado que bonitinho, por que você não faz uma música pra ele? Algo como Still Into You ou Alisson Weiss!
- Se nada do que a gente tem é bom por que você acha que algo novo seria? A gente devia só tocar um cover.
Insistir contra a Pidge é inútil, então no lugar dos encontros pra estudo vieram os encontros para composição. No início, entre linhas rimadas forçadas as páginas se cobriam de raschunhos de desenho do rosto de Lance. As tardes da primavera foram passadas no meu quarto, no quarto dele, na quadra vazia da escola de tarde, sempre com dois violões e brincadeiras de contar sobre a vida cantando, conversar em rimas, parodiar musicas de sucessos e reescrever as musicas que odiamos.
E o último dia de aula chegou.
Nós andamos para a escola juntos, sentamos em dupla durante aquelas últimas "aulas", reunimos todo mundo durante o recreio.
- Assina a minha camisa? - Lance pediu me entregando uma caneta piloto
- Isso é tradição de escola particular, não faz nenhum sentido já que a gente não usa uniforme...
- Só assina logo!
Suspirei desinteressado e me aproximei para escrever, só percebendo a situação uma vez dentro dela. Meu rosto a centímetros do peito de lance, sua respiração na minha orelha, suas batidas cardíacas contra a palma que eu apoiei nele para esticar a camisa, a caneta tremendo ligeiramente na minha outra mão.... rabisquei rápido algo simples e me afastei.
- "X O X O Keith K. Shirogane" - ele leu infeliz - Meu namorado é poeta, compositor, e tudo que eu ganho é "X O X O" ?
- Na verdade, sobre esse tipo de tradição, tem algo que eu queria fazer também....
- Vamos tirar fotos! - Pidge interrompeu
O último tempo de aula passou com assinaturas em camisas e cadernos, fotos e selfies, discursos de professores, algumas crianças chorando, momentos de declaração, e promesas de expectativa pela vida ainda por vir.
- Eu só espero poder viver o resto da vida tao bem quanto eu vivi até aqui. - Lance disse sorrindo, quando todos já tinham saído - O que é você quer?
- Não sei.... um emprego de 8h as 18h, um apartamento de um quarto com arcondicionado, um gato, uma vida comum, sem muitas complicações.
- Okay, isso parece horrível, mas eu quis dizer sobre o que tu tava falando mais cedo, sobre uma tradição que você quer fazer....
- Ah, sobre isso... - olhei envolta garantindo que não tinha ninguém - A gente precisa voltar para a sala.
- Tudo bem....
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Feeling Bad By Being Fat
FanfictionAlguns problemas não existem. E por não existirem, as pessoas não levam eles a sério. Mas preste atenção, eles só não existem porque não são seus. Quando Keith abre os olhos, e vê a dor em seu reflexo, isso é real. E o fato de outros não verem, só...
