Monólogo

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Arrasto meu namorado pelo corredor até a sala de aula vazia, sento em cima da mesa do professor e puxo ele para um beijo. Lance reage de forma atrasada, nossos dentes batem e eu sinto meu rosto queimar quando a gente para o beijo falho em risos.

- Tradição divertida! - ele provoca

- Hm... Ainda falta a biblioteca, o refeitório, o corredor e o vestiário.

Uma sessão de beijos depois, com talvez tempo demais tendo sido gasto no vestiário, nós finalmente caminhamos para a casa. Mãos dadas, frio na barriga. Como algo pode ser tão perfeitamente bom e tão profundamente triste?

Eu odeio a escola, eu odiei o ensino médio, eu não vou sentir nem um pouco de saudades disso. Eu sei que esse é o momento que eu deveria perceber que não é tão ruim, mas eu não percebo nada disso. Pelo contrário, eu me sinto ainda mais atormentando por pensar que  poderia não ter sido assim. O ensino médio acabou e eu estou muito feliz por isso, mas eu me sinto triste por ter tido uma vida escolar tão infeliz, por ter perdido a chance de viver essa realidade de juventude que todo mundo sente falta.

E aqui, agora, indo pra casa de mãos dadas com ele, eu penso em tudo que eu poderia ter tido, tudo que nunca vou ter, e ainda me sinto mais aliviado pelo fim do que nostálgico. Me sinto tão feliz de segurar a mão dele, tão infeliz de não fazer mais isso no futuro....

- A gente devia dividir um apartamento, morar juntos na cidade universitária mais proxima. Você pode tirar a carteira de moto que sempre quis, e me dar carona pra faculdade.

- Hm.... - sorrio ao perceber que ele estava pensando nas mesmas coisas que eu - você não precisa se preocupar com isso ainda, quando o SiSu abrir em fevereiro a gente negocia tudo isso.

- Tudo bem, te vejo amanhã na colação de grau?

- Claro. Você vai ser meu par no baile, certo?

- Vou?- ele se empolga, parando de andar e me virando de frente pra si - Eu achei que você não ia querer ir ao baile.

- Claro que eu vou, eu sei que é importante pra você. Desculpa, eu tinha que ter feito um pedido adequado ou algo assim?

- Não, não, nada disso. Mas a gente podia ter combinado a roupa, agora eu já reservei meu terno.

Nos separamos e eu acabei não percebendo o resto da caminhada, nem me atentei a nossa última separação. O caminho que eu percorri todos os dias nos últimos 3 anos foi percorrido pela última vez, e por mais que eu quisesse dar mais atenção a ele, eu não consegui. Apenas me deixei levar pelo passo atrás de passo, com as mesmas músicas no fone de ouvido.

Eu odeio as pessoas que andam sem dar atenção aos próprios passos, como se andar fosse algo fácil e natural. Andar é uma atividade altamente perigosa, você pode cair e se machucar, pode esbarrar em alguém, pode ser atropelado e morrer - ou pior, sobreviver.

Eu também odeio a primavera, é úmida e quente, e cheia de insetos e gatos de rua no cio. E caixas com filhotes abandonados.

Tem uma caixa de aspirador de pó bem na esquina da minha rua, onde tem uma pequena praça de subúrbio, com árvores, bancos, e um espaço em grama com um balanço, uma gangorra e um escorrega. Eu me lembro de subir no escorrega para chegar mais perto dos fogos de artifício em um ano novo quando eu ainda era criança.

De dentro da caixa eu ouço o choro de um filhote, um cachorro. E eu não posso evitar chegar perto. A pequena criatura de raça desconhecida se anima assim que me vê, mas eu não o amo. É estranha a sensação, eis aqui um filhote bonitinho, pulando pra chmar a minha atenção, mas eu não sinto nada.

Me abaixo e faço carinho. Ainda não sinto nada. Isso não deveria me dar alegria?

É um único filhote, provavelmente outras pessoas já adotaram o resto. Ele está na minha esquina, eu o encontrei, parece quase uma responsabilidade levar ele pra casa. Seria cruel largar ele aqui. Mas eu realmente não o amo.

- Seu nome vai ser Cosmos. - eu digo pro cachorro, que parece entender tudo claramente - E você não precisa se preocupar mais, nunca mais na sua vida você vai ficar sozinho.

As noites ainda são mais difíceis do que os dias. Durante os dias eu me sinto apático, vazio, durante as noites eu me sinto miseravelmente infeliz, doi tanto que parece que eu estou morrendo de dentro pra fora. Por que eu não posso morrer?

Se Deus existe, Ele não poderia respeitar meu livre arbítrio e parar minha vida? Eu nunca quis existir, Ele me impôs isso, o mínimo que Ele poderia fazer era parar.

Pensamentos invasivos... acho que é assim que se chama. Mas é tão sincero. E eu continuo me sentindo assim mesmo dormindo abraçado com um filhotinho de cachorro. E eu me sinto tão . Porque nada vale a pena, nada é bom, e eu não vou colocar ninguém pra baixo compartilhando isso.

E agora que o ensino médio acabou eu não posso mais fazer acompanhamento psicológico com o psicólogo da escola. Isso poderia ser bom já que o Dr.Coran era de qualidade questionável. Mas psicólogo é caro, e o próximo pode ser pior. E se ele retirar a receita do meu medicamento controlado? A passagem de ônibus é 3.75, quer dizer que é mais de 7 reais toda vez que eu sair pro psicólogo. E mesmo com o plano de saúde vai ser 260 reais por mês se eu quiser consulta semanal.

Talvez eu devesse ser psicólogo. Você fica sentado em uma sala confortável e silenciosa, com ar condicionado e música baixa, 8hrs por dia, 5 dias por semana, só escutando pessoas falarem o óbvio: tudo é ruim e nada importa.
Mentira. Existem pessoas com problenas de verdade, e eu não aguentaria ouvir sobre isso.

Eu sinceramente não sei do que eu estou falando. Eu olho nos olhos do Cosmos, e quase consigo ver um universo inteiro ali. São os olhos mais humanos que eu já vi - não, são os olhos menos humanos que eu já vi, parece divino, parece saber todas as verdades do mundo e além. Enquanto eu não sei nada.

Eu choro, como sempre.
Porque eu sou fragil.
Entre um sussurro de "por favor" e outro, eu durmo.

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Feeling Bad By Being FatOnde histórias criam vida. Descubra agora