Inalcançável

549 57 23
                                        

[Segunda]

Durante toda a manhã pessoas olhavam pra nós dois, e chochichavam sobre.

Clássicos suspiros tristes se lamentavam pelo Lance, "que desperdício, um rapaz tão bonito ser gay". Foda-se, aposto que os meninos ao redor estavam pensando algo similar, que desperdício alguém como ele estar com alguém como eu.

Agora eu me arrependo por não ter as mesmas aulas que ele, o acompanho até a sua sala antes de ir para a minha, e faço questão de beija-lo na porta para todos verem, o que ele responde só com um sorriso.
Depois tenho que percorrer o meu caminho sozinho, sentindo minha alma se esconder dentro do meu corpo, encolhida, enquanto tento passar despercebido pelos corredores cheios.

Parece mais fácil agora que estamos juntos. Como se uma dor pudesse disfarçar a outra, agora me consolo com o fato de que todas essas pessoas que me olham só olham por causa dele. E volto tudo para ele.

Tento estudar durante parte da aula, mas se começo a me sentir mal eu paro e penso nele, até tento o desenhar. Durante o intervalo nos sentamos todos juntos no refeitório. E em vez de me queixar pelas várias preocupações de Lance com minha alimentação, faço cLance comomo ele diz, como se eu fosse a garota protagonista de um dorama.

Ninguém mais demonstra reparar em como estou comendo, ou como estou vestido. Todos os comentários dos meus amigos sobre mim se cercam em piadinhas sobre nosso relacionamento que sempre acabam com um de nós dois corando e o outro rindo.

Um calor cresce no meu peito nesses momentos. Me parece, por alguns segundos, que nada nunca aconteceu, que ninguém nunca soube, e então me esqueço da vergonha que faz eu querer me esconder.

Mas ela volta.
E minha nova preocupação é simplesmente fazer algo novo que chame atenção, que marque mais na cabeça do que o passado.

Nossa, eu não poderia jamais dizer essas coisas em voz alta. Percebo isso quando encontro com Lance na saída. Que tipo de pessoa horrível eu sou? É, de certa forma, como se eu estivesse usando ele. Como uma garrafa de bebida alcoolica qualquer, meu novo vício.

Ele me beija quando me aproximo, e com isso todos esses pensamentos vão embora.

-Então... - tento soar casual enquanto andamos para casa - Encontro, eu e você, sábado, te busco as 20h, pode ser?

-Não sei não. Tenho que conferir minha agenda.

Por um segundo me sinto completamente indignado, e sem querer demonstro, soltando sua mão e o encarando. Então ele ri, e eu percebo que está brincando e reviro os olhos.

-Babaca. Também não quero mais sair com você!- cruzo os braços e saio andando na frente, mas ele logo me alcança- Vou considerar que está marcado.

-Claro meu amor. - ele pisca com um olho sorrindo de forma sarcástica.

...

Ótimo!
Eu tenho um encontro com Lance!
Comemoro como se fosse uma grande vitória quando chego no meu quarto.

Se eu colocar de lado todo o drama que eu causei, se colocar de lado todos os meus problemas e defeitos, se colocar de lado que ele já se declarou ê já me levou em um encontro, e que nós já estamos meio que ficando....
Bem colocando de lado tudo, o fato de eu ter tido coragem de convidar ele para sair é algo grande, e a resposta ser sim é incrível, inacreditável!

Quem poderia ter previsto que no fim da história ficaríamos juntos?

Me jogo na cama feliz, sorrindo pro teto. Que teto lindo!!

Lembranças do nosso primeiro encontro passam pela minha cabeça. Lance é tão brega, um romântico incorrigível, quer tudo no mais perfeito clichê.

Eu já sai com pessoas mas nunca tinha ido em um encontro. Na verdade, acho que ele é a única pessoa que conheço que ainda separa o "encontro" como algo diferente de simplesmente sair.

Tanto faz, foi tudo tão perfeito. Divertido de mais para ser constrangedor, muito mais interação do que em um cinema. Tudo que eu sempre quis. Nada que eu fizer vai ser a altura.

Nada que eu fizer vai ser a altura.

Sinto essa verdade me atingir como um choque. Caralho, eu chamei o Lance para sair, esse sábado, e não tenho ideia do que fazer!

Nada que eu fizer vai ser a altura.
Se bem que ele nem deve estar construindo expectativas, é um encontro comigo afinal de contas.

Minha conquista é na verdade um fracasso com data pré marcada.

[Sexta]

Estavamos na metade do caminho de volta pra casa, andando de mãos dadas enquanto ele tagarelava sobre as diferenças entre um goblin e um tengu, quando eu finalmente consegui criar coragem para contar.

-Então....- tentei, sem olhar pra ele - Sobre o encontro, eu acho que é melhor se a gente cancelar. Amanhã não é bem um bom dia pra mim. Desculpa.

Mantive meu olhar direcionado ao chão. Deus, eu preferia estar morto agora. Eu sou um desastre!

-Tudo bem, bae. - ele respondeu com a voz suave e beijou minha testa

-Okay... - suspirei cansado, sem ter mais nada pra falar

_____________

Feeling Bad By Being FatOnde histórias criam vida. Descubra agora