Segunda:
Ouvi o despertador, mas não acordei. Tontiei um pouco, percebendo onde estava. Parece que acabei dormindo sentado perto da janela.
Coloquei meus jeans e um moleton preto, lavei meu rosto e escovei os dentes.
Distraído, desci as escadas. Era cedo de mais, ainda não estava atrasado. Não estar atrasado significa café da manhã, ir pra escola com o shiro, e ficar no inferno mais tempo do que preciso.
-Olha, parece que vai chover hoje!- meu pai brincou, e dentro da minha cabeça eu murmurei um "amém"
-Keith!-minha mãe sorriu empolgada- Bem na hora, acabei de por o café na mesa!
Agh, respirei, tentando segurar o tempo por um segundo antes de quebrar seu sorriso.
Eu não queria ter que fazer isso, decepciona-lá, mas é a única coisa que eu sempre faço. Eu não sou o filho perfeito e eu já desisti de tentar ser. Eu não mereço essa família, e eu sei disso tão bem quanto eles.
Eu só.... Eu não posso me juntar a mesa do café familiar. Não quero dar as respostas para as perguntas que vão fazer, não quero conversar. Não quero ter que comer tão cedo.
-Na verdade...- o sorriso continua em seu rosto, mas a alegria não - Eu já estou atrasado, combinei de me encontrar com a Pidge antes da aula, para resolvermos coisas da banda.
-Claro!- ela caminhou comigo até a porta, arrumando meu cabelo- Diga a Pidge que eu disse oi.
Meu coração apertou, tornando um pouco difícil de manter a postura até sair de casa.
A escola não é exatamente perto, mas também não é longe. E eu realmente gosto de andar. É uma ótima forma de matar tempo sem fazer nada. Eu posso ouvir música e esquecer meus problemas, sozinho, longe de tudo, só andando.
Infelizmente, eu chego na escola bem antes do que queria. Como pode ser tão perto quando estou indo pra aula, e tão longe quando estou indo pra casa?
Arrasto os últimos passos bem devagar. Sinto como se estivesse entrando na água, me preparando para me afogar. É como se, eu tentasse respirar agora o suficiente para não sufocar depois, mas eu sei que vou.
Já começo ouvir as vozes dos alunos na entrada. Esse barulho insuportável. E o pior: eu reconheço as vozes.
Congelo por alguns segundos, encostado na parede para não cair.
Flashback on:
(+ ou -Dois meses atrás)
Depois da aula temos treino de futebol, e essa é a minha parte favorita do dia. É verdade que eu gosto mais de tocar com a pidge, do que de jogar bola.
Mas ainda melhor do que ouvir o som da minha guitarra, é ouvi-lo rir.
Lance McCain, eu tenho uma queda por ele desde que me lembro. E parece que recentemente, isso vem aumentando. Meu coração bate rápido e alto, minhas pernas ficam bambas, minhas mãos tremem.
Ele está a cada treino com uma líder de torcida diferente. E o estranho é que, apesar de eu sentir ciúmes, parte de mim agradece quando uma delas o faz sorrir.
O treino acabou, fomos todos para o vestiário. Talvez, só talvez, eu tenha enrolado arrumando as minhas coisas, até o Lance ir embora. Algo que eu sempre faço, só para ficar olhando ele.
Ele falou alguma coisa comigo antes de sair, mas minha cabeça não funciona quando ele está perto. Então não tenho certeza como foi.
Eu sorri, concordei, engoli uma palavra ou duas. Ele riu, e fiquei sem ar.
Depois que ele sai, termino de catar minhas coisas. O lugar já está praticamente vazio. Os últimos três jogadores no lugar se aproximam. Tom, Jack e .... não consigo me lembrar o nome do outro!
-O que foi isso, Hein?- o terceiro pergunta com uma cara de deboche
-Isso o que?- minha cabeça tem Lance de mais pra eu conseguir me lembrar do treino
-Não ferra Tampinha.- ele me empurra, me fazendo cambalear assustado, recuando- A gente viu, você babando pelo McCain.
-Ridículo...- Jack gargalhou
-Eu não... - tentei processar o que estava acontecendo
-É claro que não!- o terceiro começou enquanto eles me cercavam no canto- Você sabe que Lance nunca ficaria com alguém como você.
Senti como se levasse um soco no estômago, e me curvei pra frente. Então outros socos vieram.
De todos os lados, em todas as partes que conseguiram me atingir.
-Você sabe, não sabe Kogane? Ele é bom de mais pra você!
-Você é um emmo esquisitinho!
-Keith Kogayne, bichinha!
Cobri meu rosto com as mãos, mas um deles me derrubou no chão. E logo eu estava sendo coberto com os chutes e insultos.
-Órfão mimado. Os Shirogane nunca deviam ter pego você! Você é um estorvo na vida de todo mundo!
-Você enfraquece o nosso time! Está mais perdido no campo do que a bola, com esse seu físico ridículo!
Em certo ponto eu não sabia mais quem estava falando o que. Não sei quanto tempo isso durou, e não sei porque eles pararam. Não sei dizer em que momento eu comecei a chorar, e nem o porquê.
Me preocupei em esconder a feridas, mas eles tinham sido mais espertos que eu. Enquanto eu estivesse de casaco e calça, ninguém veria nada.
Flashback off
Os amiguinhos do Lance, meus agressores semanais particulares. Antes que eu pensasse no que estava fazendo, virei as costas e sai correndo. Corri até ter certeza que não estava no caminho que Lance passaria pra escola, nem no caminho que meu pai ou shiro passariam para os seus respectivos trabalhos.
Corri pro lado oposto da cidade, aonde em um pequeno bairro, de ruas sem asfalto, encontrei um café.
Aqui que eu sempre venho quando preciso fugir, tiro um livro da mochila, e deixo as horas correrem.
Como já fiz tantas vezes antes.
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Feeling Bad By Being Fat
FanfictionAlguns problemas não existem. E por não existirem, as pessoas não levam eles a sério. Mas preste atenção, eles só não existem porque não são seus. Quando Keith abre os olhos, e vê a dor em seu reflexo, isso é real. E o fato de outros não verem, só...
