25 - "Culpada"

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Heitor

Alguns anos atrás

— Sim, Romeo. Eu sei, semana que vem eu volto para Itália — Segurei o celular entre o ombro e pescoço para ter as mãos livres e abrir a porta da minha casa.

— É bom mesmo, Dante realmente ficou impressionado. Eu acho que tem uma boa chance de ele te arranjar um emprego — Romeo Rossi, que eu havia conhecido mês passado, falou do outro lado da linha.

Um suspiro de alívio escapou dos meus lábios. Eu faria qualquer coisa, iria para qualquer lugar, só para ficar longe daqui, longe do meu pai. Eu não poderia simplesmente sair do Brasil, claro, o canalha controlador que me deu a vida daria um jeito de me obrigar a voltar, como ele já fez outras vezes.

Trabalhar com Dante, entretanto, era o plano de fuga que eu estava esperando a minha vida toda. Meu pai conhecia, e até mesmo respeitava (um pouco) o empresário italiano. Ele veria meu trabalho com Dante como uma boa oportunidade para negócios futuros, e eu poderia sair de perto dele.

Ainda falando com Romeo, eu ouvi passos no lado de fora da minha casa. Eu não estava esperando ninguém, ninguém em São Paulo teria um bom motivo para me visitar.

— Romeo, eu preciso desligar — Soltei o celular antes mesmo de ouvir sua resposta.

Por trás da cortina, espiei pela janela. Estranhei ao ver uma viatura parada em frente a minha casa e um policial bateu na minha porta. Ótimo, em que tipo de merda Diego Ferrara se envolveu dessa vez?

— Heitor Ferrara? — O policial perguntou quando eu abri a porta.

— Sim?

— Na madrugada de ontem para hoje ocorreu um incêndio na empresa do seu pai, Diego Ferrara — O policial disse sem demonstrar nenhuma expressão.

Madrugada? E até agora meu pai não veio encher meu saco com isso? Deve ser um milagre. E por que esse homem estava aqui me contando isso?

— Hm, você precisa do endereço residencial do meu pai ou algo assim para contatá-lo?

— Seu pai estava no escritório. Nós conseguimos identificar seu corpo meia hora atrás. Precisamos que você vá até o local para resolver algumas coisas.

— Espera, o que?

Simples assim, o policial se afastou da minha casa e seguiu para a viatura. Sem um "eu sinto muito" ou "lamento sua perda", ele simplesmente usou a palavra "corpo" e saiu. Policiais realmente odiavam Diego Ferrara.

Eu fechei a porta. Isso não era possível, simplesmente não era possível. Meu pai não poderia estar morto. Simplesmente impossível. Ele estava armando alguma coisa.

Em menos de 10 minutos eu estava abrindo a porta do escritório do meu pai, ou melhor, o que sobrou dela. O lugar era uma mistura de cinza, preto e restos de coisas queimadas. De costas, em meio aos destroços, Gonzales segurava uma garrafa de whisky.

Gonzales era o braço direito do meu pai, o mais perto que ele poderia ter de um amigo, o homem que tirou a bala de mim, meses atrás, quando eu levei um tiro.

— Isso não é verdade — Entrei no escritório.

— Heitor, olhe para esse lugar. É verdade — Respondeu ainda de costas, dando um gole na bebida.

— Meu pai não está morto.

— Sim, ele está — Gonzales respondeu baixo.

— Eu preciso ver o corpo — Me recusei a acreditar.

Monstros do EspelhoOnde histórias criam vida. Descubra agora