32 - "Rainha" pt.1

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Heitor

Miguel mirou o soco no meu rosto, mas eu consegui me proteger antes que seu punho me atingisse. Ele não perdeu tempo, senti o golpe na lateral do meu corpo e trinquei os dentes quando seu punho me atingiu pela segunda vez.

Miguel se afastou um pouco, me observando com cautela, mas sem abaixar a guarda. Eu sabia o que ele ia dizer, e eu não queria ouvir. Antes de que ele fizesse algum comentário eu o golpeei. Miguel desviou e também se protegeu do meu segundo golpe.

Eu estava irritado. Derrubei Miguel no chão e cai junto com ele, o som de suas costas batendo na madeira do deque da minha casa foi alto. Eu estava pronto para atacá-lo, mas minha vantagem durou poucos segundos, Miguel se soltou e sua luva bateu no meu rosto antes que eu pudesse me defender.

Era bom ter Miguel como parceiro de luta, talvez ele seja o único com quem eu não precise me segurar. Ele da conta do recado e se vira muito bem para um advogado. Romeo luta sujo, não que eu tenha algum problema com isso, mas as vezes é irritante. Andrew é bom, mas ele não gosta de pensar que pode me machucar e eu sempre preciso provocá-lo — normalmente usando o nome da Cece no meio — para que a luta fique interessante.

Eu me deitei no chão, olhos fechados e batimentos frenéticos, absorvendo a dor da última pancada. Miguel se sentou no deque, com as mãos apoiadas no joelho. Eu sabia que ele estava me encarando.

— Você está distraído — Miguel comentou e eu bufei.

— E você está treinando muito com a Magalhães — Me sentei e ele deu um sorriso fraco.

Por um minuto, ficamos em completo silêncio. Só se podia ouvir o barulho do lago ao nosso lado e alguns pássaros. Ainda estava frio, mas o sol estava forte hoje. No último dia ensolarado assim estávamos todos aqui, na minha casa, nesse mesmo deque.

Olhei para o lago, lembrando de Isis na água comigo. Cabelo molhado, sorriso brincalhão e olhos que me provocavam. Eu quase conseguia enxerga-la aqui, na minha frente. E eu odeio isso, dói para caralho saber que isso — ela — não passa de uma lembrança.

Eu penso nela o tempo todo. Mesmo com Miguel aqui desde ontem, minha cabeça idiota fica me levando de volta para ela. Quando eu consigo ocupar a mente, sua voz aparece na minha cabeça, me chamando, me colocando de volta nas nossas memórias.

— Eu não consigo parar de pensar nela — Confessei, não sei se para mim ou para Miguel.

— Eu sei. Sua cabeça não está aqui, pelo menos não 100% — Ele não estava ofendido, eu sabia que não precisava pedir desculpas para Miguel — É mais do que isso, não é?

— Como assim?

— Não é só um "eu sinto falta dela", você está preocupado com ela — Dei de ombros.

— A mulher deixou claro que não quer saber de mim e eu não consigo parar de me perguntar se ela está bem, segura, se alimentando — Dei uma risada amarga — Eu acho que preferiria que ela estivesse aqui, em Traverse, pelo menos eu estaria por perto.

— Para protegê-la — Miguel completou e eu respirei fundo, assentindo.

— Isis é completamente forte e independente, não me entenda mal, ela não precisa de mim para protegê-la. Ela não faz o tipo princesa indefesa que precisa de um príncipe encantado para salvá-la, Isis Clay é a porra da rainha que queimaria todos seus inimigos.

Minha mente se voltou para a forma como Isis joga xadrez. Suas peças não trabalham na defensiva, Isis ataca, ela é uma conquistadora que nunca perde uma vitória. Era impossível derrubar a rainha dela. Eu até conseguia capturar o rei e vencer o jogo, às vezes, mas nunca a rainha.

Monstros do EspelhoOnde histórias criam vida. Descubra agora