30 - "Mentirosa"

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Heitor

Eu deixei a água fria cair no meu rosto e no meu corpo. Depois de muito tempo, você se acostuma com o banho gelado. Nas primeiras vezes, o susto com o choque como se a água fizesse seus ossos tremerem é horrível. Agora, nada é melhor do que um banho frio para me ajudar a clarear as ideias e colocar a cabeça no lugar. E, meu Deus, depois dessa noite com Isis eu precisava colocar a cabeça no lugar.

Cada dia eu me sinto mais... louco por ela. É preocupante. Não pode ser normal. Eu me sinto um psicopata sabendo exatamente como ela anda, como ela fala, como ela ri... Já faz muito tempo que eu memorizei cada centímetro, cada cicatriz, do corpo de Isis Clay. E, mesmo assim, eu não me canso dela.

Não é apenas gostar dela. Claro que eu gosto. Mas é como se... como se eu não conseguisse me lembrar de como era a minha vida antes de Isis Clay aparecer e tentar me acertar com uma chave de roda. Desde aquele dia, essa mulher ocupa boa parte dos meus pensamentos. Isis Clay alugou um triplex na minha cabeça.

Eu respirei fundo. De repente eu não sentia mais meu corpo tão frio assim. É uma sensação... assustadora. Eu gostaria de ser mais romântico, mas não consigo. É assustador saber o tanto de influência que Isis têm sobre mim. Faz menos de meia hora que eu a deixei dormindo na cama, e eu já quero voltar para o lado dela.

Eu fechei o chuveiro, meu coração se acelerando. O pensamento óbvio, mas que eu tentava esconder de mim mesmo, atingiu minha mente como um soco. Eu estou apaixonado por ela. Completa e perdidamente apaixonado por Isis.

Eu encostei minha cabeça no azulejo. Olhei para cima, e sorri.

Eu nunca me senti assim por ninguém. Sim, eu amei a Marina e o que eu sentia por ela era forte, mas o que eu sinto por Isis? Me consome, me assusta. Ao mesmo tempo, é tão bom, tudo o que eu preciso fazer é pensar nela e eu sinto que todos meus problemas parecem tão pequenos. Se Romeo me ouvisse dizer isso, ele riria tanto.

Negando com a cabeça e sorrindo com meus próprios pensamentos, como o bobo que eu sou nesse momento, eu enrolei a toalha na cintura. Quando abri a porta do banheiro, eu ainda sorria.

Isis estava deitada na cama, com uma camiseta preta. Minha camiseta. Meu coração ridículo bateu mais forte. Percebi que ela estava acordada e olhando para o teto, pensativa. O cabelo loiro bagunçado, o rosto sério, ela é tão linda.

— Bom dia — Ela olhou para mim e deu um sorriso fraco, forçado, e de repente eu sabia que havia alguma coisa errada.

— O que foi, Clay? — Me aproximei e ela desviou o olhar.

— Nada.

— Não minta para mim, Isis — Ela mordeu a parte interna da bochecha, ainda olhando para parede — Pesadelo?

Isis finalmente me olhou, com um misto de chateação e... raiva?

— Sim, um pesadelo, nada demais — Ela se levantou, passando direto por mim.

— Sem beijo de bom dia? — Arqueei a sobrancelha.

— Eu preciso de um minuto.

— Isis...

— Eu não quero conversar agora, Ferrara — E a porta do banheiro se fechou.

Eu engoli em seco, não gostando dessa sensação. O lado ruim de amar alguém é que você se torna extremamente vulnerável à essa pessoa.

Isis tinha pesadelos complicados, reais e difíceis de lidar, eu sabia disso. É normal que ela precise de um tempo para lidar com isso, as vezes eu também preciso. E se ela precisasse descontar em mim, eu não me importava.

Monstros do EspelhoOnde histórias criam vida. Descubra agora