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14 | pare de manchar o nome do amor

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— Soraya... essa é a versão de verdade.

Eu continuei olhando-a em silêncio, sem conseguir medir o tamanho do significado que essa declaração teve para mim.

— Não era no começo, sabe? — Ela voltou a dizer com um sorriso constrangido e as mãos outra vez escondidas nos bolsos da calça. — Eu te queria tanto, tanto, Soraya, e precisava chamar sua atenção para você me notar também, então acabava fingindo ser outra coisa só pra você me desejar também. Lembra como você me chamava de safada a cada cinco segundos?

Eu ri, incapaz de esquecer.

— Eu ainda te acho uma safada. — Confessei, levando meus dedos até seu rosto para apertar sua bochecha. — Mas uma safada fofa e atenciosa que tira fotos incríveis e faz os melhores bolos que eu já comi.

Eu pausei, um pouco preocupada sobre minha última colocação.

— É melhor que Joana nunca saiba que eu disse que seus bolos são melhores que os dela.

Dessa vez, foi Simone quem riu. Ela começou a caminhar, em busca do nosso próximo destino indefinido, e é claro que a acompanhei.

Alguns segundos depois, ela voltou a falar.

— Eu também tinha uma visão limitada sobre você, na verdade. — Foi sua confissão. — Mas a cada brecha que você abria e mostrava que era muito mais do que eu pensava, eu também mostrava mais do que eu sou. E nem era proposital, era só que... em algum momento, eu não queria só que você me desejasse. Eu também queria que você gostasse de mim. Queria que você gostasse da Simone de verdade, do mesmo jeito que eu gostei da Soraya que conheci melhor.

Eu continuei andando ao seu lado em silêncio, sem saber exatamente como responder.

— Isso não faz sentido pra você, né? — Ela questionou, frustrada.

— Quer saber? Faz. Faz muito sentido. — Anunciei, depois de uma breve reflexão.

Se eu fizer uma análise de várias situações passadas, posso encontrar inúmeras delas onde precisei mostrar um sorriso quando apenas queria revirar os olhos, como se sorrir fosse minha própria máscara. No fim, Simone não é a única a fingir ser algo que não é. Acho que todos nós, em algum momento de nossas vidas, mostramos apenas versões simplificadas e modificadas de nós mesmos, porque a versão completa é sempre cheia de falhas e nem sempre estamos prontos para mostrar nossas fraquezas a alguém.

Agora, eu percebo como minha constatação anterior foi equivocada.

Não é que Simone seja uma boa atriz. Talvez ela seja, também. Mas, acima de tudo, ela só me parece humana.

E assim como ela me mostrou o seu eu de verdade, eu mostrei a ela a Soraya por trás dos sorrisos falsos. Com ela, eu sinto que não preciso fingir. Eu não quero fingir. Eu reviro meus olhos quando quero revirar, e então todos os meus sorrisos ao seu lado são sinceros.

— Então... — Ela ponderou depois de andarmos sem rumo por mais algum tempo. — O que a gente faz agora?

Eu olhei ao redor, tentando conseguir, assim, um lampejo. Entretanto, eu ainda não faço a menor ideia de onde estamos.

— A gente pode só... continuar caminhando mais um pouco? — Sugeri, surpreendentemente sem entrar em pânico.

Simone sorriu como se tivesse escutado a melhor ideia de todas.

— Ok. Eu gosto de caminhar com você, So.

Eu fiz um gesto de concordância, porque também gosto de caminhar com ela. É ainda melhor quando conversamos, e nós conversamos muito. Eu descobri que Simone na verdade é de Três Lagoas, mas sua família veio para Campo Grande quando ela ainda era muito nova.

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