Ele não me ama

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Eu não assisti ao jogo. Não consegui me manter naquele banco sem ser gananciosa e querer jogar, roubar a cena e acabar com qualquer moral que Akashi e seu time ainda tivessem, mas me contive. Me contive indo até a quadra de basquete na rua, com uma bola pega emprestada da bolsa do meu irmão e o sangue borbulhando com ansiedade.

A quadra externa estava vazia, preenchida apenas pela vontade imensa de uma jogadora adormecida. O coração acelerado que parecia saltar do peito de tão forte que batia. Céus, é muita covardia da minha parte?

Ficar aqui fora porque não consigo ver o jogo? Por que eu estou tão confusa?

É arrogância demais achar que sou necessária em campo no time, na linha de frente?

Joguei a bola fazendo uma cesta de três pontos, mas não fiquei feliz. Peguei a bola de novo, batendo-a contra o chão enquanto me afastava do aro. Na metade da quadra, a joguei novamente. O som da rede sendo sacodida após uma cesta perfeita é nostálgico.

Eu consigo fazer isso estando sob a pressão da quadra, com mais pessoas jogando comigo, os espectadores gritando irradiando ansiedade pelo placar, mas onde eu estive? No banco. Por que? Porque não quero magoar meu irmão e tirar sua chance de brilhar.

Eu sou muito egoísta.

Peguei a bola. A joguei contra o chão. Fiz alguns dribles. Me posicionei no outro lado da quadra. 

Bati a bola uma, duas, três vezes contra o chão. Pulei e joguei. Observei a bola fazer a curvatura, subir ao auge e descer perfeitamente ao chão passando pelo aro.

Eu fiz isso em quadra algumas vezes e sinto até hoje a energia contagiante da vitória própria após essa jogada.

Suspirei frustrada e observei a bola quicar no chão, rolar para um canto e ficar lá.

Me sentei no chão sentindo vontade chorar.

Respirei fundo, senti o ar gelado da noite encher meus pulmões e sair tão rápido quanto entrou.

Eu só quero ajudar? Ou só quero a atenção dos holofotes? Eu sei a resposta e é doloroso perceber isso.

Me levantei ignorando a sensação ruim em meu peito. Peguei as poucas coisas que levei e me sentei num banco do lado de fora do estádio. Comecei a mexer no celular, olhando o feed de alguma rede até uma notificação aparecer na tela.

"Onde você está?" Era uma mensagem de Murasakibara.

Cliquei na notificação e respondi enviando a foto da paisagem na minha frente.

"Estou aqui fora. Estava muito barulhento aí". Respondi.

Ela apenas visualizou, mas não demorou muito para ver o rapaz vindo até mim de dentro do estádio. Ele tirou a jaqueta e a colocou em meus ombros.

- Está frio aqui fora. - Murmurou me entregando o casaco de moletom, coloquei o sem pressa e sorri sentindo o aroma dele na roupa.

- Só um pouco.

- Trouxe um docinho. - Falou mostrando a sacola.

Sorri vendo ele tirar um potinho com pudim da sacola. Minha sobremesa favorita. Peguei o pote gelado e a colher de plástico, comi algumas colheradas quieta ao lado do mais velho. Ele abraçou meus ombros, beijou meu rosto e me soltou.

- O que aconteceu?

- Não aconteceu nada.

- É o jogo do seu irmão e você está aqui fora jogando basquete.

- Deu vontade de jogar.

- S/N. - Meu nome saiu de sua boca como um aviso.

Ele sabe que estou mentindo, meus olhos estão enchendo de lágrimas e eu não sei o que fazer quando ele me abraça dizendo que vai ficar tudo bem.  Eu chorei segurando um potinho de pudim quase vazio, me aninhando em seu peito e sentindo meu coração ficar pequeninho.

Eu estava sendo um empecilho para o meu irmão. Estava roubando o que não tive, ofuscando ele e sua oportunidade de brilhar. Por isso ele não me queria lá, porque ele não queria ser apagado.

- Eu sou uma péssima irmã. - Murmurei entre soluços.

- O que? Não... não é. Por que você acha isso? - Perguntou acariciando meu cabelo.

- O Tes não queria que eu viesse, porque eu iria querer jogar... Ele sabia.

- E você acha que por isso, ele te ama menos? S/N, você é incrível, já tem graduação do ensino médio sendo que nem precisou cursar, trabalha de meio período em uma multinacional, ninguém te vence x1 no basquete... você acha mesmo que ele não te ama?

- Eu roubei a atenção dele.

- Você queria ajudar.

Senti as mãos grandes de Murasakibara ao redor do meu rosto, me fazendo olhar para ela e a vergonhar aumentar em mim. Eu estava chorando, com o nariz vermelho, com certeza catarrenta, mas ainda assim, ele sorria para mim e beijou minha testa.

Pass it to me again!Histórias para pegar e não largar. Descubra agora