Gabriela
Saí do prédio do meu antigo trabalho e fiquei pensativa sobre a indicação de emprego, mesmo sendo longe, eu acho que vou ter que aceitar, não posso perder essa chance, talvez eu não ache uma forma de trabalhar tão fácil assim então eu vou ter que pensar muito e conversar com a minha mãe antes de fazer qualquer escolha.
Entro no mercadinho daqui do Jacarezinho e pego uma cesta pra eu poder colocar as mercadorias. Vou até a sessão de mantimentos e tento fazer a conta que vai dar na cabeça, mas acabo perdendo o foco pelo barulho que só aumenta no ambiente. Pego meu celular e abro o aplicativo da calculadora, colocando os preços dos produtos e mostrando o resultado da compra, continuei pegando outros produtos e fazendo as contas, até que bato em alguma coisa e meu olhar sobe pro rosto de uma pessoa.
Eu: Foi mal, eu me distrai aqui e nem vi por onde eu tava andando - coloco meu celular no bolso e me afasto um pouco do carrinho que ela tava empurrando.
- Que nada, eu sou muito distraída as vezes também - sorrio e reparo bem em seu rosto, ela aparenta ter uns 20 anos e seu cabelo vai até abaixo dos ombros um pouco, é um loiro diferente, meio ruivo e meio loiro, mas é lindo.
Eu: O ruim é quando isso faz a gente passar vergonha- pego uma caixa de leite na prateleira e rio baixo entrando na fila do caixa e percebo que ela fica atrás de mim com o carrinho.
- E tu acredita que esses dias eu tropecei e caí perto de uma moça, mas na intenção de me segurar, eu acabei agarrando a saia dela, coitada- ela ri e eu demoro a processar um pouco até começar a rir também, eu estava me sentindo como a minha mãe, que sempre quando saía parava e conversava com alguém.
Eu: Acho que você passou mais vergonha que eu nessa vida, mas se superou nessa da moça da saia- voltei a rir e olhei pra ela que está atrás de mim.
- Próximo- a moça do caixa fala, e eu olho, percebendo que só faltava eu e a menina a sermos atendidas. Coloco os itens na bancada e a mulher do caixa vai passando todos eles.
- Liga não, essa aí é mais amarga que não sei o quê- a menina atrás de mim fala.
Eu: Gente mal amada é assim mesmo- sorrio pra ela e pago a mulher no caixa, coloco minhas compras na bolsa de mercado e vou até a saída. Ajusto minhas compras no braço, por conta do peso e sinto uma presença do meu lado, olho e vejo a mesmo menina que estávamos conversando parando do meu lado.
- Eu esqueci de falar, sou a Rebeca- ela sorri pra mim e depois digita algo no celular.
Eu: Gabriela- sorrio de volta e vejo um carro preto com as janelas escuras parando na frente do mercado.
Rebeca: Satisfação então, Gabriela- ela debocha de brincadeira- você mora por onde? quer uma carona?- observo o carro novamente.
Eu: Não precisa, é ali na frente, mas obrigada.
Rebeca: Tem problema não, eu também não entraria num carro preto de uma estranha que eu acabei de conhecer- ela sorri e passa as mãos no cabelo- toma, esse aqui é meu número- ela me entrega um papelzinho que tem uma logo de unha, me mostrando qual é o número dela, dentre três que estavam no cartaozinho, presumo que ela seja manicure.
Eu: Maneiro o cartão, você é manicure?- pergunto olhando o cartão e depois olho pra ela.
Rebeca: Sim, tenho um salão na parte principal da favela, numa rua que tem as casas mais bonitinhas, não sei se você já passou por lá- ela diz tirando a cutícula da unha feita.
Eu: Já sim, é lá pra cima, né? as casas de lá são todas bonitas, mas eu acho que quem mora lá são só os envolvidos- ela observa o carro que abaixa o vidro e a figura de um homem moreno aparece.
- Bora logo, Rebeca, tá parecendo até velha fofocando aí- o cara que tá dentro do carro fala indignado- não vou comer coração por essa demora tua aí, papo reto.
Rebeca: Para de ser intrometido, eu falei pro Guilherme vir me buscar- ela refuta e ele faz tsc.
- Mas ele não veio e me mandou vir te buscar, agora vamo logo, pô- ele põe o braço pra fora da janela do carro e faz gestos. Ela olha pra mim e suspira revirando os olhos.
Rebeca: Tá vendo o que eu sofro?- ela brinca e dá uns passos em direção ao carro, mas se vira pra mim- não esquece de me chamar lá não, pode ser?
Eu: Vou chamar.
Ela mostra o polegar sem olhar pra mim e dá a volta no carro, entrando no passageiro, reparo bem no veículo antes dele sair e vejo que é um Audi todo preto, o que deixa ele ainda mais lindo. Quem será a pessoa em sã consciência que tem um carro desse aqui na favela?
Saio da entrada do mercado e ando pela calçada até chegar em casa, assim que chego, pego o cartão que estava dentro da sacola de mercado e mando mensagem pro número, salvando com o próprio nome dela mesmo. Em poucos segundos, ela me responde e a conversa flui rapidamente que até fico sabendo que ela está em uma resenha naquela área mais "nobre" da favela.
