O Detetive

11 5 48
                                    

Acordei com meu corpo todo gritando com dor e náuseas. Estava em uma cama desconhecida, em um lugar desconhecido. Senti a bile subir pela garganta e me levantei em um salto, procurando um banheiro. Quando o encontrei, vomitei todo o almoço de ontem na privada.

—Você vai ficar bem garoto, seu corpo só tá sentindo o baque de ontem todo de uma vez, isso é normal.

—Seu... filho da puta!—Respondi com dificuldade, sentindo minha cabeça latejar com cada palavra dita.—Você me enganou!

—Eu não enganei ninguém, eu só investiguei do meu jeito.

—Bebendo até cair!? Comendo um stripper!? Arranjando briga e deixando o meu corpo pagar o pato!?

—Olha no bolso da sua calça.

Fiz o que ele disse e acabei encontrando uma faca, a mesma que vi com ele nos flashes de memórias da noite passada. É uma karambit, o cabo parece ter sido restaurado a pouco tempo, a lâmina parece ser revestida com prata.

—Era disso que você estava atrás?

—"Disso" não, moleque, essa faca era minha, a lâmina é de aço e é reforçada com prata, eficaz tanto contra demônios e anjos.

Eros me havia explicado que o aço é a maior fraqueza dos anjos, por isso eles fazem as armas com prata, que é também a fraqueza dos demônios. Eles não se desintegram ou queimam quando são atingidos por esses materiais, mas são cortados muito mais facilmente e levam mais tempo para se regenerar. Essa faca com certeza vai ser útil.

—E por acaso a tatuagem foi necessária pra você encontrar a faca?—Era a imagem de um escudo em chamas com um crânio no centro, gravada na parte inferior do meu braço.

—Isso também não é só uma tatuagem, é um glifo de repulsão, essencial pra se defender de magia. Acredite, vão tentar usar de tudo pra nos matar.

—Pra onde você me trouxe.—Suspirei derrotado, percebendo que ele realmente tinha cumprido o combinado.

—Um motel um pouco mais afastado da cidade, me certifiquei que não tinham nos seguido.

—Como chegou aqui a pé?

—Eu não vim a pé, tem mais uma coisa que eu recuperei. Da uma olhada lá fora.—Assim, ele desapareceu, me deixando sozinho com o silêncio do lugar.

Aproveitei o banheiro e tomei um banho frio pra tentar me livrar da ressaca. Assim que sai do quarto, me deparei com uma moto diferente da que ele havia roubado na noite passada, era uma Harley Davidson fat boy, a pintura é preta e existem imagens de correntes brancas em áreas seletas da moto. Dante apareceu encostado nela.

—Eu já rodei bastante com essa belezinha, o demônio que comprou tomou conta dela pra mim. Sobe ai, eu deixo tu dirigir.

—Você simplesmente roubou a moto sem mais nem menos? A polícia já deve ter colocado nosso rosto em todas os noticiários por ai.

—Relaxa, garoto. A maior regra do paraíso, é que os humanos normais jamais podem se envolver com os nossos assuntos e tem gente que garante que isso não aconteça, o máximo que pode acontecer é o desgraçado que estava com a minha moto vir atrás da gente e se fizer isso, eu acabo com ele.

—É bom que você saiba o que tá fazendo.

Disse encerrando a discussão e sentando no banco. O couro é bastante confortável, sinto como se eu pudesse viajar nela por horas à fio. A chave, que o próprio Dante me entregou, girou suavemente na ignição, fazendo o motor ronronar com um som satisfatório. Não consigo descrever a sensação de rodar com ela, a sensação de liberdade, o vento balançando meu cabelo. Sei que é perigoso dirigir sem capacete(Não que o Dante tivesse me dado um.) mas é simplesmente reconfortante acelerar e dirigir livremente por ai. Por um momento eu quase esqueci que tô com os meses contados.

Conforme me aproximava da cidade, mais e mais sentia que algo estava errado

Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.

Conforme me aproximava da cidade, mais e mais sentia que algo estava errado. Na verdade, eu não precisava sentir, tinham vários carros da polícia de ronda, parece que estão procurando alguém e, considerando a bagunça que "eu" fiz ontem? Posso muito bem ser quem eles procuram. Eu só não vou ficar parado pra descobrir. Acho que a melhor opção seria seguir pro distrito vermelho, talvez possa me esconder no Éden até a poeira abaixar, duvido muito que a polícia tenha acesso ao lugar, bem, assim eu fiz.

—É uma boa ideia mesmo, mas fica longe de Sodoma, eu posso ter te arranjado uma expulsão depois de ontem.

—O estranho seria se não tivesse, acha que vão nos procurar por muito tempo?

—Acho que não, algum anjo no alto escalão da polícia vai vir nos questionar, ai é só dizer que a moto era nossa, tem um documento que eu deixei no seu bolso que diz que a moto tá no seu nome, ai vão fazer a polícia largar do nosso pé.

—Como você passou a moto pro meu nome em algumas horas? E isso depois de ter roubado ela?

—Eu ainda tenho as manhas, garoto.

Com isso, segui devagar pro distrito vermelho enquanto evitava as patrulhas. Como eu havia previsto, a polícia não faz ideia da existência do Éden. Estacionei em um lugar afastado e adentrei o bar, dessa vez falando a senha eu mesmo.

O lugar estava um pouco mais movimentado que ontem, presumi que eu não era o único que decidiu se esconder hoje. Sentei em uma mesa afastada e só aí liguei meu celular, me deparando com uma enxurrada de mensagens e ligações perdidas, quase todas do Eros e algumas do Matt e da minha mãe. Merda, o pessoal deve tá desesperado atrás de mim.

—William Rupert?—Uma voz masculina me chamou, à minha frente estava um homem na casa dos trinta, alto, com os cabelos e a barba curta loiros e olhos azuis, vestia uma roupa formal, terno e gravata, segurava um distintivo da polícia.—Sou o detetive Gabriel Reyes, tenho algumas perguntas pra você.

Tasteful DepravityOnde histórias criam vida. Descubra agora