O Interrogatório

14 5 46
                                    

O detetive se sentou à minha frente com calma e cuidado, os movimentos parecendo sempre calculados, e colocou um gravador em cima da mesa.

—Talvez esse não seja o melhor lugar pra isso, mas quero muito confirmar umas coisas com você.

—Dante, esse cara é um anjo?

—Não sei, não sinto nada—Ouço sua voz antes mesmo dele se manifestar no assento ao lado do detetive.—, ele pode ser anjo ou demônio, mas não vou saber te dizer.

—Podemos começar?—Pra ele pareceu que eu simplesmente travei, mas na verdade, estou bem alerta. Ele apertou o botão pra ligar o gravador, e então se iniciou o interrogatório.—Onde você esteve e o que fez ontem, a partir das 6:37 da tarde?

Ponderei brevemente o que diria à seguir.

—Eu estive em muitos lugares e fiz coisas das quais eu sinceramente não me orgulho ontem à noite, detetive.—Minha cabeça doeu naquele exato momento, me dando uma chance de fazer um drama falso.—Perdão, eu não lembro de todos os detalhes, bebi demais.

Disse, massageando a testa. O detetive Gabriel me encarou por um breve momento, sua postura relaxou, seu corpo se inclinou na cadeira. Do bolso do sobretudo, ele tirou um porta cigarro e me ofereceu um, o qual eu prontamente recusei. Nada de incomum nisso, exceto pelo fato do meu corpo ter se movido em um impulso breve, imperceptível pra ele, mas bem perceptível pra mim, em um instinto desconhecido por mim em aceitar a oferta. Fiz o meu melhor pra disfarçar aquele fato, ainda me perguntando o que diabos havia sido aquilo.

—Cê tem noção das merdas que tu fez ontem, moleque?—O detetive educado e calmo havia sumido, deixando um homem desleixado com a própria saúde e mal humorado em seu lugar à medida que a nicotina invadia seus pulmões.—Demônios, anjos e humanos, todo mundo comentando sobre um delinquente de origem desconhecida, e com rosto de anjo fazendo merda pela cidade, e na minha folga, ainda por cima...

Eu podia ver um retrato do Dante nesse homem, ele tragou mais fumaça, encarando o nada, parecia ter esquecido completamente o motivo da nossa conversa. Pelo menos agora eu sei que é um anjo.

—Escuta, se eu tiver que pagar alguma multa ou passar uns dias na cadeia, tanto faz, eu sei que fiz merda mas-

—Mas não é sobre isso que eu vim falar com você hoje.

Franzi o cenho.

—Perdão?

—Tô aqui referente a outro assunto.—Ele buscou nos bolsos do sobretudo outra vez, deixando algumas fotos sobre a mesa, eram homens, todos de meia idade, com seus nomes escritos logo abaixo. A última delas me chamou mais atenção, Micah Taylor, o homem que o Eros matou pra proteger a Ava. No total eram cinco.—E esses aqui foram só os que a gente reconheceu, houveram outros antes, o suficiente pra montar um time de futebol e ainda ter um punhado de reservas, todos no distrito vermelho da cidade, na área dele.

Ambos sabíamos de quem ele falava. Era por isso que ele veio até mim? Pra conseguir alguma informação sobre os crimes que o Eros cometeu?

—Sabe, tem alguns que acreditam que o discurso sobre positividade sexual e consentimento são só uma máscara que ele usa, que na verdade ele e a família são, como os humanos dizem? Um cartel? Máfia? Sei lá, mas o que dizem é que ele toma conta do ramo de cafetinagem da família e que talvez ele até mesmo tenha envolvimento com o tráfico humano...

—O Eros não é nada disso!—Senti uma estranha raiva correr pelo meu corpo ao ouvir essas acusações. QUEM ESSE CARA PENSA QUE É!?

—Não tô dizendo que é verdade—Ele tem um sorriso debochado no rosto que me deixa com ainda mais raiva, mas eu não entendo, nunca agi dessa forma agressiva antes.—, mas pensa bem numa coisa, os Morningstar são sempre os coitados da história e, os anjos, os vilões, estranho, não acha?

—Você tá fazendo a mesma coisa agora.

—E isso anula a narrativa equivocada dos príncipes? Só mostra o quão parecidos nós somos, eu diria até que somos dois lados da mesma moeda.

—Onde você quer chegar com isso?

—Só quero que você entenda o papel dos dois lados no universo, somos todos seres celestiais, não importa de onde viemos ou a quem servimos, eu quero que você leve isso em consideração quando responder a minha próxima pergunta.—Ele tirou o cigarro dos lábios.—Considerando tudo que ele já fez, as pessoas que feriu e as que ajudou, da mesmo pra dizer que o Asmodeus é uma pessoa ruim?

—As pessoas não são pretas ou brancas como você diz, o que as define são as ações que tomam, o Eros pode até não ser alguém bom, mas dizer que ele é um monstro desalmado é um enorme exagero.

—Será mesmo? Olha pra essas fotos—Quando olhei outra vez, os rostos nas fotos mudaram pros cadáveres todos carbonizados.—, foi isso que ele fez com essas pessoas, da mesmo pra dizer que alguém é bom quando é capaz disso?

—O Eros não é um psicopata, não mata pessoas sem um bom motivo.

—E o motivo importa? Eles ainda eram pessoas, se eram tão ruins assim, eles deveriam ter sido julgados, e não é como se o Asmodeus não tivesse influência, você deve saber que ele é rico né? Pros humanos é isso que importa, o capital.

—Então você não faz ideia do que é ser um humano, o dinheiro pode até importar mais pra quem tá no topo, mas quem vive em baixo como eu vivi? O que importa de verdade são pessoas com quem você se importa, e eu posso dizer com toda certeza que alguns de nós seriam capazes de tudo pra defender quem tá do nosso lado, até mesmo matar.

Não sei bem quando a gente começou a discutir moralidade e ética, ou quando eu me tornei um expert nisso, mas sei que as palavras simplesmente saíram sem problema nenhum, e o detetive só foi escutando, quando eu finalmente terminei de soltar o verbo, ele só ficou me encarando com uma expressão neutra por um tempo.

—Uma vez eu me sentei com um homem que disse algo bem parecido com isso—Ele desligou o gravador e se levantou.—, parte de mim queria muito acreditar nisso, sabe, eu me culpo muito pelas ações do meu sobrinho, foi por minha causa que ele acabou naquele orfanato rodeado de pessoas ruins e cresceu com tantos traumas.

Eu me calei. A postura dele havia mudado outra vez. O detetive calmo e reservado estava de volta.

—Você é um bom rapaz, Azrael. Meu sobrinho tem sorte de ter você na vida dele, leva isso no coração, okay?

O anjo Gabriel não esperou nenhuma resposta, apenas se virou e saiu.

Tasteful DepravityOnde histórias criam vida. Descubra agora