NOTAS INICIAIS DA MORCEGA:
Esse foi um surto pós prova, o fim da faculdade esta me deixando biluteteia ao ponto de lembrar dessa bomba aqui, saudade de vocês! <3
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A gargalhada das quatro vozes ainda reverberava pela sala de Eduarda quando, a muitos quilômetros dali, o silêncio do hospital parecia engolir o mundo. Era quase cruel a diferença entre os dois cenários.
No apartamento, havia luz morna, cheiro de pizza recém-chegada, vinho servido em taças diferentes porque Eduarda nunca se lembrava de comprar um jogo inteiro igual, e aquele barulho bom de gente que se ama demais para sustentar formalidade por muito tempo. Havia o biquinho ofendido de Simone, o riso solto de Maria Fernanda jogada no colo da tia, o olhar sempre terno de Alessandro pousado na mulher que amava como quem ainda se espantava por tê-la ao alcance das mãos.
No hospital, porém, havia o ruído ritmado dos aparelhos, a luz fria do monitor cardíaco piscando no escuro e o cheiro estéril que fazia tudo parecer mais solitário do que realmente era. E, no centro daquele quarto silencioso, estava Eduardo Rocha.
Sentado numa cadeira desconfortável ao lado da cama da filha, com o paletó pendurado no encosto e a gravata afrouxada num gesto que fingia exaustão paternal, ele mantinha os olhos fixos em Maria Eduarda como se fosse um homem devastado pela dor. Para qualquer pessoa que olhasse de fora, a cena parecia até comovente: o pai vigilante, cansado, abatido, acompanhando a recuperação da filha noite adentro.
Mas ninguém ali podia ver o que se passava por trás daquele olhar parado, ninguém via a raiva, ninguém via o veneno, ninguém via o prazer sombrio e quase doentio que Eduardo sentia por ainda ter, naquele quarto, uma possibilidade de controle. Porque era isso que restava a ele, controle.
Simone já não era mais sua, Maria Fernanda havia escapado de sua influência muito antes do que ele gostaria, Fairte nunca o suportara por inteiro, apesar das aparências, Eduarda o tolerava pela conveniência das relações familiares e pela obrigação dos corredores de hospital, e Alessandro... Alessandro era o rosto de tudo aquilo que ele perdera.
A juventude que já não tinha, a leveza que nunca tivera, o amor que jamais soubera inspirar sem exigir algo em troca. Eduardo passou a mão devagar pelo rosto, fingindo cansaço até para si mesmo.
Sobre a cama, Maria Eduarda dormia sob efeito dos remédios, ainda pálida, com o braço ligado ao acesso venoso e os cabelos espalhados pelo travesseiro numa desordem delicada que fez o peito dele apertar de um jeito estranho. Não porque fosse incapaz de amar a filha. Eduardo amava Madu, à sua maneira. Só que a sua maneira sempre viera contaminada por posse, orgulho e necessidade de ser indispensável.
Amava, sim, mas precisava ser o centro do amor recebido de volta. E era justamente isso que Simone começava a arrancar dele também, primeiro com a separação, depois com Alessandro e agora com essa reconciliação lenta e incômoda que parecia começar a nascer entre mãe e filha.
Eduardo havia visto o jeito como Simone saíra daquele quarto mais cedo, ainda chorosa, mas estranhamente aliviada. Havia visto o modo como Alessandro a acompanhava, não como quem exibe posse, mas como quem oferece amparo. E havia visto, pior que tudo, a expressão de Maria Eduarda ao olhar para ele. A filha não parecera hostil, nem ferida, não parecera, sequer, escandalizada. Pelo contrário, Maria Eduarda olhara para Alessandro com uma espécie de suavidade que Eduardo odiou no mesmo instante.
Ele fechou a mandíbula. Não. Não ia deixar aquilo crescer, não depois de tudo, não depois de ter segurado a narrativa durante tanto tempo, não depois de ter sido empurrado para a margem da própria família como se fosse ele o problema.
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Como 2 e 2
RomantikNunca passou pela cabeça de Simone Tebet passar por um turbilhão de emoções durante o segundo turno das eleições presidenciais, muito menos descobrir que ainda era capaz de sentir desejo e paixão por alguém. Ainda mais quando o tal alguém se trata d...
