Mães sabem, mães sempre sabem

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NOTAS INICIAIS DA MORCEGA

Quando eu falo que vocês comentando me deixa ainda mais sedenta para escrever é disso aqui que estou falando kkkkkk 

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A primeira coisa que Fairte percebeu ao abrir os olhos foi o silêncio, não o silêncio vazio de casa grande demais, nem o silêncio solitário das madrugadas em que se acorda no meio da noite para conferir se a angústia continua ali, deitada ao lado, respirando no mesmo ritmo do peito. Ela ficou imóvel por alguns segundos, o quarto ainda estava mergulhado naquela penumbra dourada das primeiras horas da manhã na fazenda, com a luz entrando em tiras finas pelas frestas da cortina e desenhando o contorno dos móveis antigos, da poltrona no canto, do baú aos pés da cama, do crucifixo discreto na parede.

O ar carregava cheiro de lençol limpo, madeira antiga, café distante vindo da cozinha principal... e dele. Fairte virou o rosto devagar.

Ele ainda dormia de lado, ligeiramente voltado para ela, uma mão aberta sobre o colchão como se tivesse procurado sua cintura no meio da noite e desistido só quando a encontrou perto o bastante. Os cabelos estavam um pouco mais bagunçados do que ela o via usar durante o dia, havia linhas fundas ao redor dos olhos fechados e aquele ar raro de homem desarmado que só aparece quando o mundo ainda não exigiu postura, conselho, firmeza, responsabilidade.

Ela sentiu o coração bater diferente, de maneira quase ridícula, até ridícula o bastante para fazê-la fechar os olhos outra vez e soltar um sopro mínimo, entre incrédulo e apaixonado.

Era uma mulher crescida, avó, mãe de mulheres crescidas, viúva de uma vida inteira, dona de fazenda, de rotina, de luto, de nome, de história, de silêncios longos demais. E ainda assim estava ali, com o peito mole como o de uma menina boba, só porque acordara ao lado de um homem que a olhava como se ela fosse única.

Talvez fosse por isso que, quando Tasso mexeu os dedos e abriu os olhos devagar, encontrando o rosto dela a poucos centímetros do seu, ela teve vontade de rir antes mesmo que ele dissesse qualquer coisa. Ele piscou, ainda sonolento, depois a olhou de verdade. E sorriu, um sorriso lento, morno, incrivelmente jovem para um homem da idade dele.

— Bom dia! Murmurou, com a voz grossa de sono.

Fairte segurou o riso.

— É...

— "É..." não vale. Ele franziu a testa, fingindo ofensa. — Passei a noite inteira me comportando como um cavalheiro exemplar e acordo com "é..."?

Ela arqueou uma sobrancelha.

— A noite inteira?

Tasso soltou um resmungo baixo em falso escândalo.

— A senhora vai mesmo me provocar antes do café?

— Vou ver até onde o senhor aguenta.

Ele aproximou um pouco mais o rosto no travesseiro, ainda sorrindo daquele jeito bobo que a desmontava.

— Aguento muito, dona Fairte. O que eu não aguento é esse seu jeito de olhar pra mim como se eu fosse uma confusão que a senhora decidiu acolher no quarto.

Ela riu baixo, quase sem som. E o riso saiu leve de um jeito que não saía havia muito tempo, Tasso observou aquilo como quem recebe um presente.

— Pronto... Murmurou. — Era isso que eu queria ver.

— O quê?

— A senhora rindo comigo na cama.

Fairte fez menção de recuar só para fingir compostura, mas ele já tinha alcançado a mão dela sobre o lençol. Entrelaçou os dedos sem pressa, com uma delicadeza que ainda a surpreendia.

Como 2 e 2Onde histórias criam vida. Descubra agora