Capítulo 67: Um lar isolado.

106 7 55
                                        


A vida é um ciclo que se inicia ao nascimento. Vivemos ao longo do caminho correndo atrás de propósito, sonhos e até aventura, mas o destino às vezes nos leva a caminhos que nunca imaginamos e, durante esse caminho, enfrentamos coisas que nunca poderíamos desejar para ninguém. Coisas ruins acontecem e muitas vezes não podemos evitar; o que podemos fazer é seguir adiante ou, em alguns casos, nos afundar nos acontecimentos e deixá-los nos corroer.

Fazia dois dias que estávamos na Grécia. Por mais que esse mundo seja diferente do qual vim, é simplesmente um lugar fascinante e belo, mas o que mais me deixou em paz foi ver que Ruria estava bem, assim como foi comigo ao estar em Oyashima. Aqui ela se reconectou consigo mesma — não foi exatamente igual, mas é algo válido. Nunca imaginei conhecer lugares assim; entendo agora o amor que Ruri tem por história e livros, mesmo que antes esse carinho viesse da parte leitora dela que ama boas histórias. Agora estava em outro nível. Aqui nesse mundo as histórias que ela amava são reais; isso inclui algumas coisas da mitologia do próprio país, que agradeço de joelhos não ser exatamente igual à versão das lendas do nosso mundo. Entretanto... isso não torna as coisas mais seguras.

— AHHHH! QUE IDEIA FOI ESSA, ACE?! — Deuce, Ace, Epel e Grimm estavam correndo de um bando de centauros furiosos. — POR QUE FOI PROVOCÁ-LOS?

— EU NÃO DISSE NADA DE MAIS! — Ace se defende da acusação de Deuce, enquanto fogem para fora do centro comercial.

— A CULPA É SUA! — Epel acusa, ofegante. — NÃO DEVIA TER PERGUNTADO SE ELES COMIAM AVEIA OU TROCAM AS FERRADURAS!

Faltava pouco para eles serem pegos; mesmo que alcançassem suas varinhas, não daria tempo de revidar. Nem mesmo Grimm podia parar de correr para usar o fogo azul. Por sorte, percebemos a confusão a tempo. Jack se transformou na sua maior versão lupina e correu até nossos amigos, jogando Epel e Grimm em suas costas por serem os menores, disparando feito um raio branco, enquanto Malleus teleportou Ace e Deuce e, para encerrar de vez aquela bagunça, Zizi e Leona usaram suas magias únicas, mandando os centauros para longe. Estávamos em uma praia perto do porto mais ao sul da cidade de Atenas. Era para ser uma visita turística, mas, como sempre, acabou em confusão. Enquanto Ruria curava o tornozelo que Epel havia torcido, tive que bancar o regente.

— Ace! O que foi que você fez? — cruzei os braços na frente do peito, estreitando os olhos para o meu amigo. — Não ficou claro que era para tomar cuidado nessa região?

— Ei! Eu não fiz nada demais! — Ace se defendeu, erguendo os olhos para me encarar, mas logo desviou o olhar, encolhendo-se um pouco. — Eles que são sensíveis demais, foi uma curiosidade até que lógica.

— Ace! — Riddle parou ao meu lado, fuzilando Ace com o olhar. — Nos foi dito para sermos respeitosos com os moradores locais! E que deveríamos tomar cuidado; as criaturas mágicas aqui são fortes e perigosas!

— Ei! Esperem aí, a Ruri falou que os centauros eram treinadores de heróis no passado e que eram bastante inteligentes.

— Ace... — Ruria se aproximou, fazendo uma expressão de preocupação. — Eu disse que Quíron foi um dos mais sábios, mas ele era um acaso isolado; os outros centauros costumam ser violentos!

— Quíron foi mesmo um mestre centauro de respeito — Lykos afirma, falando do centauro de forma respeitosa. — Mas ele se foi há muito tempo! Sua amiga está certa, centauros costumam ser criaturas nada educadas ou amigáveis; preste mais atenção ou pode acabar sendo devorado por algum monstro por falta de cuidado! Melhor voltarmos para a pousada.

***

Entramos no barco que Lykos usa para turismo; era uma forma gostosa de transitar por vários locais da Grécia. Mesmo que vez ou outra tenhamos que usar o ônibus de turismo, durante o retorno para a pousada, as garotas e os rapazes não paravam de bombardear Ruria com perguntas. Muitas delas eram difíceis de responder, ou porque ela não sabia de forma correta ou porque ela não queria revelar as diferenças entre a mitologia de onde ela veio e a desse mundo, e concordo com ela, não era algo que eles iam querer saber; além do fato de que não sabíamos se tinha algum dos deuses do panteão grego por perto nos ouvindo. À medida que íamos nos aproximando do pequeno cais pertencente à pousada, percebo que Idia estava estranho — mais que o normal —, seu olhar estava perdido no horizonte, de uma maneira melancólica, afundado em seus pensamentos de uma forma que não parecia com ele. Mesmo quando está entre os regentes, ele sempre tem algum comentário, mas ali naquele barco parecia que somente seu corpo estava presente.

Twisted WonderlandHistórias para pegar e não largar. Descubra agora