👤 POV CAMILLA
O aperto dos dedos de Erik no meu braço parecia chumbo fundido. Meu coração batia tão forte contra as costelas que tive certeza de que ele conseguiria ouvir. O pânico era uma névoa fria na minha mente dentro daquela sala escura da diretoria, mas a lembrança das fotos da fraude salvas no meu celular me deu um sopro desesperado de coragem. Eu não podia me entregar ali.
- Erik, você está me machucando - falei, forçando a voz a sair firme, com o melhor tom de indignação corporativa que consegui fingir. Olhei para a mão dele no meu braço e depois diretamente nos seus olhos cor de mel.
- O Sr. Ludovico me pediu para conferir as guias de assinatura física antes da primeira reunião de amanhã. Se você tem algum problema com o meu horário de trabalho, sugiro que resolva direto com ele. Agora, me solta.
Ele sustento o olhar por três segundos eternos. O sorriso cínico dele não sumiu, mas a pressão nos meus dedos diminuiu lentamente até que ele me libertou. Erik deu um passo para trás, cruzando os braços com uma calmaria perturbadora.
- Ora, Camilla... Só estou zelando pela segurança do andar. O chefe não gosta de pontas soltas. Tenha uma boa noite - ele disse, a voz mansa e carregada de ameaça.
Não respondi. Passei por ele feito um raio, segurando a bolsa contra o corpo e marchei em direção aos elevadores sem olhar para trás. Eu tinha conseguido me livrar das suspeitas dele. Por enquanto. O trajeto até o nosso apartamento foi um borrão de puro pavor.
Quando finalmente passei pela porta de casa, tentei disfarçar o pânico cozinhando algo, mas a minha mente estava um caos completo. Aquele crime na contabilidade ia acabar comigo.
Foi logo depois disso que a Ana me avisou que estava indo treinar na academia do bairro. Eu tentei impedi-la, o medo me deixando histérica, mas ela bateu a porta e saiu. Fiquei andando de um lado para o outro na sala, roendo as unhas e sentindo o peso do mundo nas costas.
Até que, por volta das 23:30, o meu celular começou a tocar freneticamente na mesa de centro. Atendi num salto, desabando em um choro contido que eu vinha segurando desde que saí da Adams Company.
- Ana! Graças a Deus você ligou, eu não estou aguentando de...
- Milla, pelo amor de Deus, me escuta! - a voz da Ana me cortou direto do celular, trêmula e carregada de um choque que eu nunca tinha ouvido nela.
- Eu acabei de achar um bebê. Um recém-nascido, Milla! Ele estava abandonado em uma caixa de papelão no beco perto da academia. Ele está congelando!
O meu próprio pânico com a contabilidade foi engolido por um desespero totalmente novo.
- O quê?! Um bebê? Ana, o que você vai fazer?!
- Estou correndo para o hospital mais próximo agora. Pega um táxi e me encontra lá, rápido!
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👤 POV ANA
Entrei no pronto-socorro do hospital como um verdadeiro trator, com a criança aninhada contra o meu peito sob o meu casaco grosso.
O instinto de proteção e o meu sangue de advogada criminalista operaram no piloto automático. Em menos de cinco minutos, o bebê um menininho minúsculo de olhos expressivos, foi levado para a ala de observação da pediatria para tratar a hipotermia leve provocada pelo frio daquela noite.
Como manda o rigoroso protocolo legal, a polícia e o órgão de Proteção à Criança foram acionados imediatamente por mim.
Quando os policiais começaram a fazer as perguntas padrão no saguão e os assistentes sociais abriram as pranchetas cheias de burocracia, algo dentro de mim mudou. Olhando para aquele garotinho através do vidro da incubadora, travando uma batalha tão de cabeça para baixo contra o mundo logo nos primeiros dias de vida, senti um puxão violento no meu peito.
Eu não conseguia explicar. Mas eu sabia, com cada fibra do meu ser, que precisava proteger aquela criança. Ele não seria jogado em um abrigo esquecido.
Eu ia ficar com ele.
Milla chegou ao hospital com os olhos inchados, me abraçando apertado no meio do corredor. Decidi não perder tempo com as vias tradicionais que arrastariam o caso por anos.
No meio daquela mesma madrugada, usei minha cartada mais forte: liguei para o Dr. Alencastro, um Juiz de Direito renomado e amigo de longa data dos meus pais desde os tempos em que eu morava em Woods Hole.
Expliquei a situação com a precisão cirúrgica de uma advogada de elite e o coração de uma mãe que acabara de nascer. Sensibilizado pela história e sabendo da idoneidade inquestionável da família Willians, o juiz me deu todo o suporte legal e interveio para agilizar os trâmites jurídicos.
Como o sistema de adoção da metrópole estava completamente superlotado e colapsando, conseguimos passar por toda a burocracia do Estado de uma forma muito mais acelerada e urgente. Passar por avaliações psicológicas, visitas de assistentes sociais e conciliar tudo isso com o meu expediente no subsolo da Adams Engenharia foi uma maratona exaustiva.
Mas valeu cada segundo de suor.
Três meses depois de muita luta nos tribunais, lá estava eu assinando os papéis da guarda definitiva. Peguei meu filho nos braços, oficialmente meu, e o levei para o nosso apartamento.
Milla tinha transformado a casa em um verdadeiro comercial de fraldas e chorava de alegria a cada nova conquista do pequeno.
Durante esses três meses de batalha judicial, Camilla foi a minha rocha. Ela segurou a minha barra, cuidou do bebê quando precisei ir a audiências de última hora e manteve o bom humor cômico de sempre para não me deixar enlouquecer, mesmo visivelmente estressada e aérea com o trabalho no setor financeiro da Adams.
Eu achava que a minha vida finalmente tinha entrado nos eixos. Tinha o meu filho, minha carreira jurídica e minha melhor amiga. O que eu não conseguia enxergar e o que a própria Camilla não fazia a menor ideia era que o perigo não tinha ficado para trás na sala do Sr. Ludovico naquela terça-feira.
A cada passo que Milla dava pelas ruas iluminadas de Nova York, a cada ida ao supermercado ou ao trabalho, um par de olhos frios e vigilantes a acompanhava de longe nas sombras, esperando o momento exato para cobrar o preço por aquela noite no escritório.
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ROBERT ADAMS
ActionDuas amigas/irmãs que se metem em um enorme confusão, no meio de tudo isso encontram o amor verdadeiro.
