O tempo passou e a vida exigiu escolhas de gente grande. Fui aceita na renomada Universidade de Nova York para cursar Direito e, em segredo, enviei currículos para escritórios prestigiados na área que eu sempre almejei. Consegui uma entrevista crucial.
Quando compartilhei a notícia com minha família, a alegria foi geral. Minha mãe, empolgada, me presenteou com seu antigo apartamento na cidade grande.
Faltava apenas contar para Brenno. Eu tinha certeza absoluta de que ele celebraria comigo, afinal, eu acreditava piamente no seu amor inocente. Aquela noite, contudo, me provou que o romance é uma ilusão conveniente para otários.
Olhando pela janela do meu quarto, vi o carro dele estacionado diante de sua casa, uma imponente construção de pedra com cadeiras de balanço na varanda, vizinha à nossa. Decidi que aquela seria a noite perfeita.
Vestida com um vestido rosa delicado que ele mesmo me dera e uma lingerie de renda preta escondida por baixo, eu finalmente me sentia pronta para dar o próximo passo. A insegurança adolescente havia sumido.
A casa dele estava completamente às escuras, mas a porta principal se encontrava entreaberta. Deduzi que ele estivesse dormindo e tivesse esquecido de trancar. Entrei silenciosamente, flutuando em expectativas.
Mas o meu radar de sobrevivência apitou no segundo em que pisei no primeiro degrau. Ao subir os degraus de madeira, ruídos abafados, gemidos asquerosos e inconfundíveis ecoaram pelo corredor. Um nó doloroso e gélido apertou minha garganta.
Quando empurrei a porta do quarto, o meu mundo cor-de-rosa desabou e explodiu em cinzas: Brenno e Tiffany estavam nus na cama.
Ao me notar ali, estática na penumbra, minha prima vadia sustentou um sorriso cínico, debochado e desprovido de qualquer pudor. Naquele milésimo de segundo, a humilhação escorreu pelos meus olhos e se transformou em uma cólera cega e assassina. A garotinha ingênua morreu ali.
- Que porra é essa, Brenno?! - gritei, a voz grossa, embargada pelo ódio puro. - Como você teve coragem, seu canalha desgraçado? Eu fui uma idiota do caralho em confiar em você!
O choque o fez paralisar imediatamente. Pálido como um fantasma, ele saltou da cama como se tivesse visto o próprio demônio e começou a puxar as calças com desespero.
Não esperei justificativas mentirosas. Dei as costas e saí pisando fundo, mas o infeliz conseguiu me alcançar no meio da rua escura, ainda ajeitando as roupas de qualquer jeito.
- Ana, me espera! Me deixa explicar, pelo amor de Deus, meu amor! - ele suplicava, correndo atrás de mim feito um cachorro assustado.
Virei-me com os punhos cerrados, o sangue fervendo nas veias e os olhos fixos nele com uma frieza de dar inveja a um serial killer.
- O que você vai explicar, seu merda? Acha que sou cega? Você e aquela piranha se merecem. Eu odeio você com todas as minhas forças! Quero que os dois se fodam e vão direto para o inferno! - disparei, erguendo o dedo do meio com toda a repulsa que consegui reunir.
- Ana, me perdoa! Ela ficou se esfregando em mim, me provocando! - ele gritou, desesperado, tentando segurar meu braço. - Mas porra, eu sou homem! Você nunca quis transar comigo e eu não aguentava mais esperar pelo seu tempo! Me desculpa, por favor!
Aquelas palavras podres me atingiram como golpes físicos no estômago. O covarde estava realmente jogando a culpa da traição dele na minha escolha de corpo. O meu autocontrole evaporou.
- Me desculpar? Seu lixo humano... Você se lembra do juramento que me fez no jardim? E lembra muito bem do que eu prometi fazer se você quebrasse aquela jura?
- Sim, eu lembro! Mas você não pode jogar nossa história fora por um deslize, Ana!
- Seu filho da puta de marca maior! - bradei, avançando.
Anos de treinamento intensivo com o meu pai se concentraram em um único movimento cirúrgico: desferi um soco direto, seco e preciso bem no olho de Brenno. O impacto estalou no silêncio da rua. Ele foi ao chão instantaneamente, gemendo de dor e segurando o rosto. Deixei o rastro de bosta para trás e corri para o meu refúgio: o balanço de madeira no jardim de casa, tentando acalmar os batimentos cardíacos. Mas o pesadelo daquela noite maldita não havia terminado.
Minutos depois, ouvi a voz estridente e sonsa da Tiffany dentro da minha própria casa, conversando descaradamente com a minha tia Margaret como se nada tivesse acontecido. Foi o meu limite absoluto.
Invadi a sala de estar tomada por uma fúria primitiva e descontrolada. Avancei contra ela feito um animal, agarrei-a com força pelos cabelos loiros e a joguei com tudo contra o piso de madeira.
Antes que ela pudesse gritar, desferi um chute certeiro e violento em suas costelas. Montei sobre o corpo dela e descarreguei toda a minha frustração, meu ódio e meu orgulho ferido em socos sequenciais na cara dela, sentindo o osso do seu nariz quebrar debaixo dos meus nós dos dedos.
Os gritos de pavor dela e os berros histéricos da minha tia ecoaram pelas paredes até que meus irmãos, Daniel e Lucas , entraram correndo e conseguiram me arrancar à força de cima dela. Eu estava ensanguentada, arfando e cega de raiva.
Minha mãe, em pânico total, chamou a ambulância. O saldo da minha herança de combate para a Tiffany foram três costelas fraturadas, um nariz esmagado e deformado, e um mês inteiro de internação hospitalar para aprender a não mexer com o que é meu.
Meus pais e minha tia Margaret ficaram completamente horrorizados com o nível da violência. Como punição legítima pela gravidade das agressões, dona Laura confiscou tudo e me manteve sob um castigo severo e claustrofóbico até o dia da minha partida. Eu não me importei. A dor física não era nada perto do gelo que havia se instalado no meu peito. Seis semanas após o incidente, juntei minhas malas sem olhar para trás e mudei-me definitivamente para Nova York.
Já se passaram seis anos desde que limpei a poeira de Woods Hole dos meus sapatos. Meus pais e irmãos me visitam com frequência na metrópole, mas eu nunca mais pisei naquela cidade litorânea. Meus sentimentos e minha ingenuidade romântica morreram enterrados naquela noite; hoje, o meu único compromisso real é com a minha carreira jurídica ambiciosa.
Divido o apartamento com Camilla, minha melhor amiga, minha única confidente nessa cidade de pedra e a pessoa que conhece cada cicatriz da minha alma. Foi assim, aprendendo a bater primeiro para não chorar depois, que me tornei a mulher de gelo que sou hoje.
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ROBERT ADAMS
ActionDuas amigas/irmãs que se metem em um enorme confusão, no meio de tudo isso encontram o amor verdadeiro.
