[09] - Devaneios num Deserto sem Eletricidade

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Eu havia chegado a uma conclusão:
Eu criei uma pessoa?

Pressupondo que Ågaris era uma pessoa real e se ele podia ver Hayden, então: ou Hayden é um ser vivo, ou ambos são parte da minha imaginação.

Ågaris sendo um sendo a pessoa responsável pelo sumiço da humanidade que quer roubar um ser que eu criei faz mais sentido que "tudo é fonte da minha imaginação (o que seria altamente conturbada)". Não acho que seria tão criativa assim para criar um ser para roubar outro ser da minha cabeça.

Eu não podia acreditar que estava tendo um surto psicótico e tudo não passava de um delírio.

Ainda assim, como eu poderia criar um ser com a minha mente? Eu já havia lido sobre moges com habilidades especiais depois de anos de meditação, mas qual era a minha desculpa para brinca de deus?

Eu já não entendia mais a realidade, não sabia mais distingui-la, não sabia se ela de fato existia ou era uma mera palavra que me foi ensinada.

Teoria 243: talvez eu esteja numa simulação de computador.

A luz do amanhecer tocava minhas costas aquecendo meu corpo. Aqueles primeiros raios de sol me trouxeram um pequeno conforto, fizeram florescer a energia que eu precisava para caminhar. Não usei GPS, celular ou sequer o iPod, pela primeira vez não quis afastar nenhum pensamento. Deixei que minha mente corresse por cantos inexplorados da minha psique.

Imagens daquele estranho sonho passavam como flashes. Quem eram aquelas pessoas sem rosto? Que lugar era aquele? Alguma parte daquilo tudo poderia ser verdade? Seriam esses meus sonhos lembranças de uma outra vida? As vezes em que sonhei com Hayden, na verdade, não teriam sido Ågaris tentando se comunicar comigo? Se fosse, porque parecia estar fazendo isso escondido? Porque não falar comigo com clareza por uma mensagem? Estávamos sendo observados? Quem sou eu, de onde eu vim e blá, blá, blá... Todas as crises existenciais tomaram minha mente. Será que eu tinha direito a ter crises tão humanas? Eu ainda fazia parte dessa raça? Eu havia criado uma pessoa (?)

Minhas perguntas giravam em círculos, uma interrogação gerando outra sem que pontos finais entrassem no meio.

Segurei meu pulso em busca de batimentos. Eu tinha sangue nas veias e um coração pulsando num ritmo lento e controlado. Quando foi que me separei da raça humana? Fora no dia em que todos desapareceram ou eu havia nascido assim? Nascido.

Se eu fizesse parte desse NóS, as pessoas que me criaram nunca foram meus pais biológicos. Todas aquelas palavras de como eu me parecia com minha avó não passaram de mentiras? Acho que deveria ter sido óbvio. Como uma filha não teria nada em comum com seus pais?

Me lembro das doces palavras de minha falsa mãe quando penteava meus cabelos "Você tem uma alma antiga, muita sabedoria está guardada dentro de você". Suas pulseiras cheias de cristais balançavam a cada movimento e ela me olhava pelo espelho com curiosidade enquanto trançava meu cabelo lentamente. Acho que deveria ter percebido que nunca fui um deles quando a curiosidade de seus olhos foi se tornando decepção, acho que haviam cansado de esperar que sua filha fizesse algo especial. Imagino suas caras se pudessem ver Hayden...

Eu começava a ver o que sempre esteve na minha cara. Eu realmente nunca entendi o que era ser normal, eu sempre fui o ponto fora da reta, não por fazer algo incrível, ou por achar que não fazia parte de algum grupo na escola, eu só não entendia as pessoas, elas sempre me foram distantes, confusas, pequenas, mas nunca imaginei que ser diferente significaria sequer pertencer a esse mundo.

Não! Reprimi os pensamentos, eu estava acreditando em sonhos e nas palavras de um garoto que capturou meu amigo.

Eu estava paranóica, uma lunática delirando sobre teorias da conspiração... mas... por alguma razão... fazia sentido. A loucura, a irracionalidade, o incomum, isso era o que fazia sentido naquele instante.

ForgottenOnde histórias criam vida. Descubra agora