Demos uma última olhada para aquela casa que foi nosso lar nos últimos dias. Eu nunca teria habitado um lugar daquele se não fosse a situação atual do mundo. Devo admitir que ter sido esquecida na terra tinha suas vantagens.
Entramos no carro com pouco combustível. Paramos para estocar alguns galões de água e combustível no fundo. Eu não sabia dirigir no deserto, mas Hayden disse que se garantia. Fiquei responsável por nos manter em curso e não nós perdermos no meio do deserto.
Enquanto havia estrada tudo ficou bem, mas quando as dunas começaram a se aproximar sentimos um frio na barriga. Hayden se mantinha atento e eu ainda questionava como minha mente podia dirigir um carro sem minhas mãos. Eu não tinha ideia de como ele via o mundo. Ele era uma mera projeção dos meus sentimentos, ou eu teria dado a ele uma consciência diferente da minha para que eu pudesse interagir com ele?
Minha mente cada vez parecia esquecer que ele era parte de mim. Quanto mais real eu o via, mais a linha do real e imaginário se fundiam. Eu adentrara uma zona cinza onde tudo parecia igual.
– Acho que deveríamos ir a Rússia quando tudo acabar – ele disse sem tirar os olhos do caminho (daquele mar de areias onde tudo era igual, não havia mais volta).
Olhei-o tentando entender de onde vieram aquele pensamento. Rússia? Não era o primeiro lugar que me vinha a mente.
Peguei o pacote de M&M's e coloquei alguns na boca ignorando o comentário. Escutei o som do chocolate se quebrando entre meus dentes. O silêncio estava ali, mas não mais a solidão. Ofereci a ele o chocolate. Nossas mãos se tocaram por um breve instante enquanto ele buscava pelas cores no fundo do pacote.
Eu já o amava, de uma forma boba, quase infantil. Ele era meu amigo, meu único companheiro. Hayden era a única pessoa que eu tinha e era tudo para mim. Mas o que isso significava? Eu amava a mim mesma? O que eu estava amando? Uma ideia? Um ideal de uma pessoa que eu imaginava?
O sol tocava o horizonte, chegamos a conclusão que seria mais fácil nós guiar tendo as estrelas e não um sol fritando nossas cabeças. Hayden segurou minha mão com intensidade, havia animação e hesitação. Talvez compartilhássemos o sentimento de insegurança que me tomava.
/—\
Não pude evitar cair no sono e mergulhar naquele mundo peculiar e vazio. Me deparei outra vez com o espelho e Hayden estava lá como se me esperasse há algum tempo. Ele parecia zangado, furioso talvez.
– Você dificultou tudo. Eu disse para me esquecer, mas você não me escutou. Não tem mais volta agora. Só cont–
Acordei com o som de Hayden em pânico e o carro derrapando por uma duna. Meu primeiro instinto foi me segurara no cinto de segurança e fechar os olhos. O carro perdeu controle por completo e começou a girar. Rolamos duna abaixo soltando um grito sincronizado como numa montanha russa. Quando finalmente paramos de girar o carro estava de cabeça para baixo e eu ainda tinha medo de abrir os olhos.
– Você tá bem? – perguntei apertando os olhos ainda mais.
– Aham – ele murmurou, escutei o som da porta se abrindo.
Olhei Hayden soltar o cinto e cair sobre o teto.
– Se apoia – ele disse antes de me soltar.
Cai sobre o teto e nos arrastamos para fora do carro.
Nos distanciamos do carro vendo nossa melhor forma de locomoção destruída.
– As mochilas – disse olhando as mochilas jogadas na areia mais acima da duna. Subimos para recuperar nossos suprimentos e sentamos.
– O que você fez? – perguntei não conseguindo esconder minha irritação.
– Eu só tava dirigindo e o carro perdeu o controle na descida.
– Você disse que sabia o que tava fazendo. Que conseguia dirigir na areia.
– Eu sei, na teoria.
– E só agora você ressalta essa parte?
– Eu só sei o que você sabe. E você só sabe na teoria, se você não tivesse dormido, talvez isso não tivesse acontecido.
– Porque não? Você desaparece quando eu durmo?
– Não, claro que não, mas eu também me canso. Você poderia ter dirigido por um tempo!
Baixei a cabeça rindo. Eu estava tendo uma discussão comigo mesma, eu havia chegado ao cumulo do ridículo.
– Minha mãe costumava ler pra mim o pequeno príncipe no dia do meu aniversário antes de dormir. As pessoas dizem que com o tempo você tem interpretações diferentes, mas eu sempre achei que o príncipe era real, não uma alucinação do piloto. Hayden, eu não quero ser um piloto alucinado – em minha mente soavam as palavras de Hayden do meu sonho " você dificultou tudo...".
Ele me abraçou. O frio do deserto noturno começava a incomodar.
– Vamos ter que andar – puxei o mapa da mochila e abri para que Hayden me mostrasse onde estávamos mais ou menos.
Faltavam mais ou menos 100km, havíamos cobrindo bastante chão enquanto eu dormia (o que era impressionante porque significava que eu tinha dormido por horas).
Sem paradas precisaríamos de algo por volta de um dia de caminhada, mas não podíamos andar muito durante as horas mais quentes e precisávamos dormir um mínimo que fosse.
– Começamos agora que ainda é noite e paramos quando o sol ficar demais – ele sugeria – abrimos uma das coberturas de sol nas horas mais quentes e depois voltamos a andar.
Acenei com a cabeça. Nenhum de nós se levantou. Ficamos ali deitados olhando para cima sem reação. Peguei uma das garrafas de água na mochila de Hayden, dei um gole e passei a garrafa. Hayden precisava comer ou beber? O pensamento me tomou. O quão minha mente estava envolvida naquele delírio? Minha imaginação o faria morrer por fome, ou ela criaria alimentos imaginários para ele? Porque eu soava cada vez mais louca?
– Obrigada – Hayden devolveu a garrafa apertando meu ombro como um agradecimento.
A escuridão não permitia que ele visse meu rosto com clareza, mas se pudesse veria o deslumbramento em meu olhar. Eu não saberia como explicar, ele ainda era a voz em minha mente, só que não mais na minha cabeça. Naquele instante, desde o dia anterior, ele soava como uma pessoa para além de mim, mais real do que as pessoas costumavam soar.
– Eu queria ser uma astronauta quando eu era menor, imagino que você saiba– disse mudando de assunto sem de fato sair dele.
Hayden iluminou o próprio rosto com a pequena lanterna no bolso, sua testa franzia em confusão.
– Eu costumava arrumar uma mala redonda da Barbie que eu tinha, sentar na cadeira giratória da minha mãe e preparar a decolagem – olhei o GPS esperando que ele se conectasse e nos indicasse com mais precisão nossa posição – Eu ordenava que minha tripulação imaginaria ligasse os motores e fizesse a contagem regressiva. Pela janela do escritório, eu via a terra se afastar ao ponto de se tonar aquela linda bolinha azul. Esse era o momento em que eu ficava completamente feliz, mesmo que não fosse real. Algo em estar distante, fora da terra me agradava, me causava uma certa serenidade. Hayden...
– Sim...
– Eu te amo, mesmo se você não for real.
– Eu também te amo, independente de eu ser parte de você – ele sorriu e segurou minha mão.
"Meu Hayden", não pude deixar de ter esse pensamento possessivo. Ele era meu, parte de mim, alguém que eu nunca precisaria dividir. Será que era disso que amor se tratava? Ou a zona cinzenta estava se expandindo cada vez mais?
Nos olhamos pensativos, eu não tinha ideia do que ele pensava.
– E agora...? – ele perguntou sentando na areia ainda não pronto para andar.
– Agora o sacrifício.
Eu e Hayden nos levantamos assustados com a nova voz que se manifestava atrás de nós.
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Forgotten
Science Fiction"Nada fazia sentido. Um dia todas as ruas estavam cheias de pessoas se esbarrando umas nas outras, no outro eu abri os olhos e não havia sobrado ninguém" #4 em Ficção Cientifica (14/MAR)
