Cometer erros deve ser algo da minha natureza, pois parecem ser cada vez mais frequentes, e cada um pior que o anterior, mas este em especial, este erro anormal e estúpido até dizer chega, este sim, foi o maior erro que eu já cometi nos últimos tempos. Convidar um estranho, um estranho que para que conste já namorou com alguém do meu sangue, foi uma decisão parva, mas é claro que como tudo o que sai da minha boca é parvo, este nível de parveza supera todas as barbaridades alguma vez cometidas pelo meu adorável cérebro inocente. E sim, odeio o rapaz. Odeio-o por me fazer sentir assim, um pouco à imagem de Michael, que também me obrigava a ser má, cruel, odiosa. Matty pode bem ser um estranho, mas é o estranho mais conhecido com quem eu alguma vez me deparei. Ainda assim, sinto um aperto no coração, como se o meu lado irracional me avisasse quanto aos perigos e às contradições que todo este encontro acatava. Eu não poderia passar uma imagem errada de mim mesma, e muito menos ser infiel aos meus próprios sentimentos, mas por mais que eu me esforçasse, esta parte de mim afogava-se na ânsia e no medo que a chegada de Matty criava em mim. O suspense prolongava-se e o vazio dava lugar a um frio.
Depois de perfumada, com a ajuda de um banho extra demorado cujo propósito era não só deixar-me limpa como relaxada, entrei no meu quarto e vasculhei entre armários e gavetas, tentando encontrar uma peça de roupa que se adequasse à ocasião. Não podia ser algo muito provocativo, e por outro lado também não podia ser demasiado ocultador, tinha portanto de ser uma roupa normal, algo que emanasse confiança e ao mesmo tempo respeito, como uma armadura de super-herói ou uma capa mágica. Se eu tivesse essas coisas no armário podia dizer-me feliz, mas infelizmente tive de me contentar com umas calças de ganga rasgadas e uma camisola de malha branca, que com a chegada dos tempos frios veio a conhecer os seus novos aposentos na terra dos macacos. Vesti-me devagar, como se o prolongar do momento pudesse atenuar a culpa dentro de mim, algo que eu vim a comprovar fazer exatamente o contrário. Calcei uns ténis pretos, coloquei alguma maquilhagem e, com um suspiro, abri a minha caixa de bijuterias, algo que havia comprado em Londres e raramente utilizava.
"Hm...", murmurei, observando os colares, os anéis e as pulseiras que vim a adquirir ao longo dos anos. Era raro usar acessórios, pois achava-os superficiais e desnecessários, apenas apetrechos para criar a ilusão de uma beleza superficial, mas como hoje se tratava de uma ocasião especialmente vulgar, achei que mudar de gostos não faria mal a ninguém. A pedra lilás que um dia alguém me oferecera saltou à vista dos meus olhos, uma pedra lilás que eu posteriormente uni a um fio de prata, e agora erguia com lentidão, repetindo as memórias vezes e vezes sem conta na minha cabeça, como um bonito filme antigo. "Se eu algum dia pensasse que usaria isto pela primeira vez num encontro com um rapaz que não tu...", voltei a murmurar, desta vez para o colar, imaginando nele o corpo de Michael, distante mas lúcido.
Apertei o fio ao pescoço e respirei fundo uma última vez, borrifando o pescoço com perfume e saindo a correr do quarto, como se de repente os meus pés tivessem ganho asas para voar. Richard estava sentando na sala, com o comando da televisão na mão e uma lata de cerveja na outra, como um balofo bêbado e preguiçoso. Acho que via um programa sobre reparações automóvel, como não podia deixar de ser, e só levantou os seus olhos verdes da caixinha mágica quando me ouviu aclarar a garganta.
"Sim?", interrogou, prestando pouca atenção à minha vestimenta pouco usual. "Vais a algum lado?"
"Vou encontrar-me com aquele rapaz. O Matty.", suspirei. "Lembras-te?"
"Ah, sim. Desculpa, bolinha de pelo, o pai anda muito esquecido.", encolheu os ombros, parecendo um daquele idosos chatos e filosóficos que são expulsos de casa porque os filhos não têm paciência para as suas baboseiras sem senso. Eu podia ser um desses filhos.
"Que horas são?", perguntei, sentando-me na ponta do sofá. Richard bufou, erguendo o pulso para poder olhar o relógio.
"Oito e meia.", encolheu os ombros.
"Aquele parvalhão está atrasado!", resmunguei, levantando-me para ir buscar a minha mala. Quando cheguei ao quarto, ouvi Richard abrir a porta, e quando regressei, deparei-me com Matty encostado ao meu pai com um ramo de flores na mão. "Olá? O que é isto?"
"Cloe...", Matty aproximou-se, sorrindo de orelha a orelha. Estendeu o ramo de flores, que vinham frouxas e insípidas, e esperou que eu as recebesse, algo que não aconteceu. Richard foi mais rápido a pegar nelas e a dizer que as devia pôr num vaso. "Estás encantadora esta noite."
"Deixa-te de falinhas mansas, Don Juan.", revirei os olhos. "Vamos mas é embora antes que eu mude de ideias."
Richard despediu-se de nós à porta, fazendo cara feia quando o rapazola colocou a sua mão nas minhas costas. Podia ter dito alguma coisa naquele momento, mas deixei que o sangue fervilhasse para depois ser mais fácil deitar tudo cá para fora. Explodir antes do tempo pode ser catastrófico em várias situações.
"Então tu... hm...", Matty redundou, já dentro do carro. Parecia nervoso, algo que até tinha uma certa piada. "Tu..."
"Sim. Eu. Eu sou eu, e tu és tu.", revirei os olhos, encostando a cabeça ao vidro meio embaciado. Levantei o volume do carro e fechei os olhos por breves momentos, deixando-me ser embalada pela melodia em conjunto com o silêncio.
Voltei a abrir os olhos quando senti uma pancada suave no ombro. Matty tinha o nariz praticamente colado ao meu, e o seu cheiro era agradável, apesar de não se comparar ao de Michael, que ainda hoje me dava vontade de desmaiar só para poder acordar com ele no meu nariz. Soltei um guincho para o afastar de mim, apesar de não ser assim tão desagradável ter um rapaz bonito colado a nós.
"Desculpa. Eu não queria acordar-te, mas...", ele explicou, levando as mãos à testa como se tivesse cometido um crime. "Vamos?"
"Vamos onde?", perguntei, abrindo muito os olhos para tentar ver à minha volta o que podia encontrar. Nada mais do que um parque coberto de erva, algumas árvores e, ao longe, prédios. "Não."
"Não?"
"Não.", abanei a cabeça. "Diz-me que não vamos fazer o raio de um piquenique.", suspirei profundamente, tentando controlar-me para não fazer uma fita. Se havia alguém a quem isto podia acontecer, eu era definitivamente essa pessoa. A pessoa que repete aquilo que lhe deixa mais saudades com alguém que não lhe diz absolutamente nada.
"Não gostas de piqueniques? De todos os géneros de encontros eu presumi que este fosse o que mais se enquadrasse contigo..."
"Ah eu tenho cara de quem faz muitos piqueniques? Sou uma piqueniqueira, é isso?", saí do carro, levando com o vento fresco no rosto. Aquele ar puro fazia-me bem, e eu não podia negar, a paisagem ali era belíssima. "Que mal fiz eu a Deus?"
"Ouve, podemos fazer outra coisa... desculpa. Eu não sabia.", Matty caminhou até mim, apertando o casaco para se proteger do vento.
"Matty.", olhei para o chão, contendo a minha voz para não começar a chorar. "Eu não te culpo por isto. A culpa é somente minha, fui eu que criei a confusão. E acredita, eu sei que neste momento não estás a perceber nada do que eu estou para aqui a dizer, mas vais ter tempo de me conhecer... e quando isso acontecer, vais perceber que eu não sou o tipo de rapariga que vira costas aos desafios e àquilo que a incomoda. Pelo contrário. Eu sou Cloe, o teu pior pesadelo.", rimo-nos os dois. "Mas a sério... eu sou capaz de fazer isto. Agora, vamos lá sentarmo-nos na erva fria, debaixo daquela arvorezinha, e piquenicar como dois lobos selvagens."
"De certeza?", levantou as sobrancelhas.
"De certeza absoluta.", sorri. "Vais perceber que no fundo eu sou um coração mole."
»»»»
ai eu estou entusiasmada com o que está a acontecer, eheh! triângulos amorosos são a minha especialidade
gostaram??? olhem que eu tive de me esforçar muito para tirar um tempo e escrever.
adoro-vos <3
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Social Casualty II ಌ m.c
Humor❝Eu odeio ter de fazer isto, e desejava somente ficar perto de ti, mas talvez tu tenhas razão. Talvez eu seja realmente errada. Tinha medo que to dissessem, mas ainda mal que não o fizeram. Tu devias tê-lo ouvido, pois talvez assim parasses de me qu...