A barba cobria-lhe o rosto de forma desleixada, dando-lhe um aspeto duvidoso e rígido. Parecia menos pálido do que em todos os anos de vida que eu o conheci, mas não menos bonito e angelical, com o seu belo cabelo platinado a refletir os tons prateados da lua. Caída ao lado das pernas estava uma pequena mala de viagem, que eu imaginava conter grande parte das roupas que ele iria usar nos próximos dias, ou pelo menos eu quis acreditar que a sua presença era para durar, e na mão esquerda, apertada de forma violenta, segurava uma bola de papel amachucado. Duvidei que o seu corpo fosse real, podia ser fruto da minha imaginação ou da minha exuberante consternação, mas quando avancei um passo, relutante e desconfiada, não o vi desvanecer. Os seus olhos pestanejaram e eu entreabri os lábios, tentando proferir uma palavra que fosse. O ruído do meu coração estalava por todo o meu corpo, e por instantes não consegui ouvir nada mais do que esse som ensurdecedor.
"Tu estás...", consegui murmurar. Apertei as mãos sobre a boca e continuei a aproximar-me. "Michael..."
"Estavas a ler a minha carta?", questionou, sem uma ponta de emoção na voz. Toda a sua postura parecia rochosa e impenetrável, como a de uma estátua. Odiava saber que durante todo este tempo ele permaneceu assim, inconfundivelmente quebrado pelo desgosto, e receei que talvez já fosse tarde demais para alterar o desfecho da nossa história. "Não respondas. Eu sei que estavas. Vê-se nos teus olhos... Não ficaste satisfeita com o que eu te escrevi."
"O que é que está a acontecer?", um suspiro desesperado abandonou a minha garganta, que se veio a transformar numa nuvem de vapor de água ao tocar a atmosfera. Não conseguia parar de tremer e acabei por ter de abraçar o meu peito, continuando a aproximar-me do rapaz parado à minha frente. "Por que é que estás aqui?"
"Estive a reler a tua carta.", levantou a mão esquerda, mostrando a bola de papel amachucado. "Percebi que não fazia sentido desperdiçar estas férias sozinho tendo em conta que tu e eu já não temos nada. Deixaste-o bem claro. O teu problema comigo está resolvido."
"Não.", disse, "Não. Isso não é verdade."
"Neste momento aquilo que tu dizes ser mentira não passa de mais um disparate. Achas que é possível voltar a acreditar numa única coisa que tu me digas, Cloe?"
"Não... Michael...", com os olhos marejados de lágrimas estiquei a minha mão e apertei-lhe o braço, tentando puxá-lo para mais perto de mim, mas o seu corpo não se moveu. Os seus olhos permaneceram cristalinos e inertes, mas os seus lábios tremeram, e lá no fundo consegui ver um pouco da sua dor. "Michael, eu lamento tanto."
"Lamentas?", a sua voz quebrou. "Eu também, Cloe. Eu também lamento."
"Por favor, vamos conversar. Estava tudo bem... a única coisa que nos pôs nesta situação foi... essa carta.", gesticulei. "Foi a minha vinda para este país... foi a minha burrice.", pausei, parando para respirar fundo. "Antes disto, nós estávamos bem. Não podemos ficar assim."
"Estas feridas são antigas, Cloe. Não percebes?", fechou os olhos, reabrindo-os pouco depois. "Passaste uma vida inteira a dar-me com os pés e, quando eu tento, pela primeira vez na minha vida, manter-te como certa, tu vais-te embora... e nem sequer dizes nada."
"Tu sabes como eu sou... eu não ia conseguir ir-me embo..."
"Tu podias ter ficado!", gritou. "Tu podias ter ficado comigo!"
Deixei-o sem resposta. Na verdade, acho que naquele momento até me faltou o ar para lhe conseguir responder propriamente, além das palavras, que se tinham evaporado completamente da minha memória. Recuei um passo e estremeci quando uma rajada de vento acolheu o meu corpo, deixando-me à deriva. Michael debruçou-se e apanhou a alça da mala de viagem jazida no chão, agarrando-a. Meteu a minha carta no bolso do casaco e suspirou, olhando em volta por uns momentos. Eu não o queria voltar a deixar escapar, mas qualquer gesto ou palavra que pudesse sair de mim poderia quebrar-me em pedaços, e provavelmente destruir qualquer hipótese de reconciliação. Michael parecia pensar exatamente o mesmo que eu, preferindo prolongar o silêncio ao invés de o arruinar. Abanou a cabeça de forma triste e acabou por virar-me costas, caminhando furiosamente na direção da porta do hotel.
Só me apeteceu gritar. Percebendo que, pela primeira vez, tinha sido abandonada, uma fúria acumulou-se no fundo do meu estômago e senti uma dor forte percorrer-me o peito, seguida de um choro compulsivo. Rasguei a sua carta, deixando os milhares de pedacinhos voarem ao sabor do vento, e olhei para cima, tentando encontrar a janela do quarto do Luke, mas era impossível saber qual era e nada me garantia que ele já soubesse da chegada do seu melhor amigo. Peguei no telefone. Tinha uma mensagem de Richard a dizer que quando estivesse despachada era só ligar para ele me vir buscar, mas a última coisa que me apetecia era ouvi-lo conversar acerca dos seus disparates o caminho inteiro, por isso marquei o primeiro número a seguir ao dele.
"Estou?"
"Rose... hm, desculpa estar a ligar a esta hora.", aclarei a garganta, limpando as lágrimas com a mão que não segurava o telemóvel.
"Tu estás bem? Estás a chorar, Cloe?", questionou.
"Não, não, está tudo fantástico.", funguei. "Eu só... estou com uma enorme constipação e estou na rua. Preciso de um enorme favor."
"Estás na rua? Mas onde? Os teus amigos não tinham chegado hoje? O que é que aconteceu, Cloe!?", as suas perguntas intermináveis começavam a esgotar-me a paciência, mas tentei acalmar-me o suficiente para prosseguir.
"Eu estou bem, Rose. Só preciso que um dos teus irmãos me venha buscar. Eles estão aí contigo?"
"Sim... sim! Nós estamos a jantar, mas eu passo o telefone.", ouvi ruídos de fundo, seguidos de um grito. "AXL, KURT! A CLOE PRECISA DE FALAR COM UM DE VOCÊS! SIM... UM QUALQUER!", houve uma pausa seguida de muitas vozes a falarem ao mesmo tempo. "Cloe, preferes o Axl ou o Kurt?"
"Não interessa. Eu só preciso de alguém com carro e carta de condução."
"CLOE, O QUE É QUE SE PASSOU!?", reconheci a voz dos gémeos, e apesar de não saber a quem realmente pertencia, desconfiei que fosse a de Axl. "EU VOU JÁ BUSCAR-TE, DIZ-ME ONDE É QUE ESTÁS!"
"Estou no Hotel da baixa. Não tragas a Rose contigo, por favor.", implorei. "Eu não aguento as perguntas dela..."
"Tudo bem. Ela é chata.", riu-se, fazendo-me sorrir também. "Nós vamos já para aí." Depreendi que com "nós" ele se estivesse a referir ao seu gémeo, por isso desliguei a chamada e, calmamente, caminhei até à entrada do hotel, tentando ignorar o facto de Michael se encontrar em alguma parte deste, provavelmente muito mais perto do que eu pensava. Foi uma surpresa demasiado grande vê-lo pela primeira vez depois da minha fuga abrupta, e também, pela primeira vez, sentir este peso e esta dor na consciência. Contudo, ele não podia ser o único a dizer-se magoado. Eu também tinha direito a sentir-me assim, tão amachucada como aquela bola de papel.
»»»»
as coisas estão a regressar à normalidade.... ou talvez não. Ao menos reencontraram-se :)
Espero que tenham gostado <3
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Social Casualty II ಌ m.c
Humor❝Eu odeio ter de fazer isto, e desejava somente ficar perto de ti, mas talvez tu tenhas razão. Talvez eu seja realmente errada. Tinha medo que to dissessem, mas ainda mal que não o fizeram. Tu devias tê-lo ouvido, pois talvez assim parasses de me qu...